Nesses dias em que não posso seguir viajando e colhendo
imagens pelo Brasil, tenho feito comentários na tevê. É a forma de contribuir
sem sair de casa.
Mas o comentário de tevê às vezes é difícil. Lembro-me há
pouco mais de 60 anos quando além do jornal tinha um emprego extra como
repórter de rádio. Uma vez, fui designado para irradiar uma procissão. Imagina,
falar o tempo todo sobre pessoas se movendo lentamente, silenciosas ou cantando
queremos Deus que é o nosso rei. Fixei-me no andor e procurei através dele dar
algum movimento: agora nossa Senhora Passa diante do Cine Palace, aproxima-se
da esquina da rua Batista de Oliveira….
Quando vi o discurso de Bolsonaro, desejei secretamente não
ter de comentá-lo. Meu tipo de humor não cabe em jornais televisivos. Bolsonaro
disse que mandou desligar o aquecedor da piscina.
Pela minha experiência, a água em Brasilia é fria. Mas dá para
nadar. No princípio, arrepia, mas depois de 100 metros o corpo se adapta.
Ele disse também que a avó de sua mulher foi presa como
traficante de droga. Ele não sabia disso quando se casou, mas não deixaria de
casar se soubesse.
Creio que nisso, a maioria esmagadora dos brasileiros
concorda com ele. Nenhum de nós investiga a ficha policial das avós de nossos
conjuges. E não deixaria de casar, se uma delas fosse presa por roubar
sabonetes no supermercado, ou caísse numa blitz de repressão ao bingo
clandestino.
Disseram que o filho de Bolsonaro, 04, namorou a filha do
matador de Mariele. Mas segundo ele, 04 não se lembra da menina, porque namorou
meio condomínio. Se você namora condomínios, como é que vai se lembrar de
pessoas?
Ele pode se lembrar de bons momentos passados no condomínio
Serra Dourada, tardes românticas num trecho do condomínio Lagoa Azul. Nada de
pessoas.
Foi um discurso interessante para analisar em detalhes no
futuro. Deve haver um arquivo de discursos presidenciais.
Esse foi cheio de pequenos rancores e nem respondeu as
acusações básicas de Moro: a de que pretendia intervir na PF.
Na verdade, acabou confirmando, ao confessar que quer ler
relatórios da PF como faz com os da ABIN.
Mas a ABIN produz relatórios para presidentes tomarem
decisões. A PF produz relatórios sobre processos, onde podem estar envolvidos
filhos de presidente.
São coisas diferentes.
De todas as maneiras, assim como há 60 anos, vou tentando me
adaptar a todos os desafios do jornalismo.
Paulo Guedes, o Ministro da Economia, estava de meia, tive a
impressão. Pode ter sido uma medida de segurança. No Japão ou mesmo na Suécia,
as pessoas deixam os sapatos de fora..
O Ministro da Saúde em segundo plano parecia cansado. Fazia
um grande esforço para manter os olhos abertos.
Nossa esperança contra o coronavírus mal se mantinha em pé.
Ali tive uma intuição da extensão da tragédia. É como se a chegada da peste
trouxesse consigo uma grande dose de loucura para além da tosse, febre, falta
de ar.
Não creio que a realidade nos coloque problemas de
impossível solução. Mas essa tempestade é uma das mais perfeitas que já caíram
sobre o Brasil.

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