O que é uma recessão global de 3%? Ninguém sabe ao certo,
porque não há precedente recente. Por isso o FMI foi buscar paralelo em 1929.
Da mesma forma que desde que há estatísticas do PIB do Brasil não há o registro
de uma queda de 5,3% em um ano, número previsto pelo Fundo para a economia
brasileira para 2020. Hoje há muitos números pessimistas e é difícil saber qual
é o mais realista. Faltam certezas mínimas para se fazer qualquer projeção. Mas
não há dúvida de que estão mais certos os que projetam uma queda forte.
“Há uma extrema incerteza sobre a previsão de crescimento
global”, diz o FMI. Para fazer qualquer cálculo é preciso saber antes quantos
dias trabalhados deixarão de acontecer, quanto tempo durará a paralisação de
atividades ou as medidas de distanciamento social. O mundo está diante de um
enorme desconhecido. Não conhece o inimigo, não sabe como vencê-lo e pode
apenas supor seus efeitos na economia.
Há pelo menos uma vertente de projeções que considera a
recuperação em V, ou seja, a economia cai agora fortemente, mas se recupera de
maneira vigorosa em 2021. O FMI acha isso. No cenário básico, que assume a
hipótese de que a pandemia vai arrefecer no segundo semestre e as medidas de
contenção vão sendo gradualmente reduzidas, a economia global cresceria então
5,8% no ano que vem. Outros economistas e centros de estudos acham que o mais
provável é uma volta mais lenta. Até porque há riscos de ressurgência, até que
se encontre vacina que neutralize o vírus. Nesse nevoeiro, em que há tantos
fatores desconhecidos, é difícil qualquer projeção.
A queda prevista pelo FMI para as economias avançadas é de
6,1%, enquanto os países emergentes, puxados pela China e Índia, terão retração
mais branda, de 1%. “É uma recessão profunda. Uma recessão que envolve questões
de solvência e desemprego subindo e isso deixará cicatrizes”, diz a
economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. No Brasil, pode significar, segundo
cálculos da Fundação Getúlio Vargas, uma volta de dez anos. O país, que teve
recessão em 2015 e 2016, e nos anos seguintes se recuperou muito lentamente,
voltará ao PIB de 2010.
A mudança de cenário é brusca como nunca foi. O relatório do
FMI de janeiro previa crescimento de 3% na economia do mundo e agora haverá uma
queda de 3,3%, tirando 6,3 pontos do que poderia ter sido. Para se ter uma
ideia da dimensão das perdas, o resultado negativo do PIB global em 2009, em
decorrência da crise financeira que estourou em 2008, foi de 0,1%. Os Estados
Unidos, que estavam com pleno emprego antes do coronavírus – uma taxa de
desemprego de apenas 3,7% – deve ir para 10,4%, mesmo percentual da Europa.
Nem o relatório nem a economista-chefe do FMI concluem,
diante desse desastroso cenário, que se deve retomar a atividade econômica a
qualquer custo. Disse que não existe esse “trade-off”, como se diz no jargão
econômico, entre salvar vidas e salvar a economia.
O governo brasileiro ainda mantém uma estimativa deslocada
da realidade. Crescimento zero. Já está muito distante da mediana do mercado
financeiro de -1,96%, e que está em queda há nove semanas consecutivas, desde
antes do coronavírus no país. A projeção mais pessimista do Boletim Focus
aponta retração de 6%. Quando o governo brasileiro revisar o seu número, terá
que mudar as estimativas de receita, déficit e endividamento público.
Dos Estados Unidos, onde mora e dá aulas na Universidade
Johns Hopkins, a economista Monica de Bolle foi uma das primeiras a alertar
para o tamanho da crise que chegaria ao Brasil. Desde o início de março Monica
já projetava recessão no país. No dia 10, criticada por vários analistas, ela
escreveu “lembrem do dia de hoje quando o pessoal do mercado começar a temer a
recessão”. No dia 20, refez o cálculo para -6%. Por isso, foi enfática em
defender que o governo fosse rápido na adoção de medidas de estímulo e de
proteção social, quando o mantra na equipe e no mercado ainda era de que a
melhor resposta seria a aprovação das reformas. Essa demora em entender a
mudança radical de ambiente econômico explica como até hoje o governo erra. A
burocracia atrapalha a ajuda aos pobres, a luta política retarda as
transferências para os estados.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

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