Uma mulher enfurecida invade a telinha, arranca o microfone
do repórter Renato Peters, que estava ao vivo no SPTV (Rede Globo), e com uma
agilidade impressionante consegue gritar em exatos três segundos, antes da
imagem ser cortada: “A Globo é um lixo, o Bolsonaro tem razão”.
O incidente mostra a existência na sociedade brasileira um
vírus ainda mais poderoso que a Covid-19: o “bolsonavírus”. Inicialmente
invisível, permaneceu por muito tempo “dentro do armário”, onde cresceu
vitaminado pelo preconceito, pelo obscurantismo religioso, pelo poder miliciano
e pela sensação de insegurança.
Alimentou-se do desgaste e do elitismo da política
institucional, da incapacidade da centro-direita liberal dialogar com as
classes populares, das alianças e da convivência com a corrupção dos governos
progressistas e do ativismo judicial seletivo que, em conluio com a mídia,
desestruturou o sistema político brasileiro. Quando a internet se
universalizou, a fake
news se tornou um instrumento poderoso para a difusão dessa ideologia.
Considerado, até 2018, um “folclórico”, Jair Messias era a
expressão política, quase única, desse “vírus”. Embora possa parecer que tem
algum desvio mental, ele não é um transloucado. É o lider de um espectro
ideológico que ganhou muitos adeptos.
Machistas, racistas e homofóbicos e negacionistas, mas
também gente simples do povo que frequenta cultos na periferia, uma classe
média conservadora e, às vezes, mal informada, agentes de segurança, defensores
da pena de morte e até um empresariado um pouco selvagem. Virou uma doença
crônica que, embora ainda não tenha contaminado majoritariamente o corpo
social, ficou tão forte que é difícil contê-la.
Por isso não se deve menosprezar a força e a estratégia do
presidente. Ao
agir de maneira irresponsável, desrespeitando os protocolos
recomendados pelo Ministério da Saúde e autoridades sanitárias, ele não está
pregando no deserto. Ao contrário, apesar dos crimes que comete, tem o respaldo
de um contingente expressivo da população.
Isso não só potencializa o risco da pandemia se transformar
em um genocídio, como ameaça a democracia, o desenvolvimento científico, os
direitos humanos, a tolerância e os valores civilizatórios que galgamos desde a
Constituição de 1988.
Mesmo depois de afirmar que a Covid-19 era uma “gripinha”,
de gerar aglomerações que contribuem, direta e indiretamente, para a propagação
do vírus, e de atacar o isolamento social, universalmente considerado o
principal instrumento para deter a propagação do coronavírus, a popularidade do
presidente não caiu significativamente.
Segundo o Datafolha,
52% dos brasileiros acham que ele tem capacidade de liderar o país. Frente à
sua inapetência em lidar com a crise sanitária e econômica, a enquete é
assustadora. Seu desempenho na crise sanitária é considerado “ruim ou péssimo”
para apenas 39% da população. A maioria, 58%, não o desaprova: 33% acha que ele
faz “bom ou ótimo” trabalho e 25% considera “regular”.
Como interpretar esse expressivo apoio popular em um momento
em que o presidente está politicamente isolado, em conflito com o ministro da
Saúde, governadores e prefeitos, sem apoio do Congresso, limitado pelo STF,
atacado por quase toda a mídia tradicional e pelos blogs alternativos e
sofrendo uma oposição de amplo leque político da centro direita à esquerda, com
panelaços diários?
A explicação está no fato dele expressar uma concepção que
se enraizou em setores expressivos da sociedade, que lhe dá sólida sustentação.
Uma visão que despreza, entre outros aspectos, o desenvolvimento científico e
os direitos humanos.
As recomendações da Saúde estão respaldadas no conhecimento
científico; no entanto, mais de um terço dos brasileiros não acreditam na
ciência, como revelou a pesquisa global “Wellcome Global Monitor” da Gallup,
publicada na revista Science em 2019.
Ela mostrou que o Brasil ocupa o 111º lugar no ranking dos
países que mais confiam na ciência, entre as 144 nações incluídas. O
levantamento revelou que 35% dos brasileiros desconfiam da ciência e que 23%
acreditam que a produção científica não beneficia a sociedade.
Mais grave: metade dos brasileiros afirmaram que a “a
ciência discorda da minha religião” e desses 75% (37,5% do total) disseram que
“quando ciência e religião discordam, escolho a religião”.
Não por acaso, o apoio ao presidente é maior entre os
evangélicos. Nesse segmento, o desempenho do presidente na crise sanitária é considerado
“ótimo e bom” para 41% e “regular” para 29%, enquanto que 60% acha que ele tem
condições de liderar o país.
Nas próximas semanas estaremos no pico da pandemia, mas está
caindo, em várias cidades, o respeito ao isolamento social. Na 4ª feira, apenas
51% dos paulistanos ficaram em casa, quando o ideal seria 70%. Nas áreas mais
periféricas o desrespeito é generalizado; nesse sábado, o comercio estava a
toda e vários bailes funk ocorreram em espaços públicos.
A situação é de extrema gravidade. Por um lado, o presidente
estimula a retomada das atividades e o fim do isolamento, influenciando tanto
trabalhadores informais e micro empresários em dificuldades econômicas, como os
já contaminados pelo bolsonavirus, que não acreditam na ciência e, portanto, nas
recomendações sanitárias.
Por outro, os mais pobres e vulneráveis se veem obrigados a
buscar alguma renda frente à demora e falta de coordenação governamental e
federativa em apoiar uma população, cujas condições de vida, moradia e
transporte são favoráveis à propagação do Covid 19, como mostrei nas minhas
últimas colunas.
Existe uma estratégia sanitária para enfrentar o Covid 19
que, se fosse bem sucedida, poderia reduzir os danos e encurtar a quarentena.
Mas se o “bolsonavírus” prevalecer, o sacrifício dos que se isolaram será em
vão e uma catástrofe poderá acontecer.
Muitos dos que apoiaram Bolsonaro na eleições de 2018, mesmo
sabendo o que ele representava, acharam que seria apenas uma “dorzinha de
barriga”. Agora todos estão vendo que é muito mais do que isso.
*Nabil Bonduki é professor da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secretário de Cultura de São
Paulo.

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