O desembarque de Sergio Moro do governo Bolsonaro sela o
destino do presidente e alinha as forças necessárias para dar o início formal
do processo de impeachment. Apenas no seu histórico discurso de despedida, Moro
aponta vários crimes que vão pesar sobre o presidente: obstrução de Justiça,
advocacia administrativa e falsidade ideológica. São acusações gravíssimas
feitas por um juiz de enorme credibilidade, apesar dos detratores de Moro,
incomodados com os interesses feridos na Lava Jato, da qual foi o principal
símbolo.
O ex-diretor da Polícia Federfal Maurício Valeixo, pivô da
saída de Moro, estava justamente garantindo o inquérito da PF que indicaria o
filho do presidente, Carlos Bolsonaro, como mentor das fake news que atacavam o
STF desde o ano passado. Esse é um dos inquéritos que ameaçam o presidente.
Outro, iniciado na última semana por pedido do
procurador-geral Augusto Aras, também vai investigar os atos pró-golpe do
domingo, 19. Ambos podem apontar de forma cabal as digitais do clã Bolsonaro em
um movimento de ataque às instituições e embasar seu pedido de impeachment.
A terceira ameaça para o presidente é um mandado de
segurança que deu entrada no STF ns últimos dias. De autoria de um ex-assessor
da ministra Rosa Weber e de um ex-conselheiro da OAB, pede o afastamento do
presidente e que parte de suas funções sejam imediatamente transferidas para o
vice. Está a cargo do ministro Celso de Mello, decano do STF. Com base nele,
Mello oficiou esta semana Rodrigo Maia para que justifique por que não abriu o
processo de impeachment, apesar das evidências de crimes do presidente, como
sua ação contra a saúde pública no combate à pandemia, e sua recusa em divulgar
o exame que pode revelar que contraiu a Covid-19.
A saída de Moro cria as condições no Congresso para o início
do processo de impeachment e o afastamento de Bolsonaro. Pode se dar por um dos
24 pedidos já protocolados na Câmara, ou pela bem embasada peça dos advogados.
De qualquer forma, é uma questão de tempo. As condições jurídicas e políticas
para o afastamento do presidente estão dadas.
É preciso lembrar que a popularidade de Moro é maior do que
a do presidente. Era um dos últimos fiadores públicos do presidente, que perdeu
a confiança dos que ainda imaginavam que representaria o combate à corrupção.
Entre os civis, sobra apenas Paulo Guedes, que já está sendo humilhado
publicamente por Bolsonaro e que também pode sair a qualquer momento. Restam
apenas os militares com assento no Palácio do Planalto.
Havia a expectativa de que tutelariam o presidente para
garantir seu mandato com um mínimo de racionalidade até 2022. Agora, podem ser
o esteio que vai garantir a posse do vice, em um governo de transição até as
próximas eleições. Bolsonaro deveria renunciar. Se não fizer isso, deve ser
afastado pelo Congresso ou pela Justiça.

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