É traço comum das análises sobre o Brasil atual buscar
entender o que melhor caracterizaria Jair Bolsonaro e seu governo. Bolsonaro é
efetivamente um personagem singular, minimamente letrado, um tanto tosco, que
numa circunstância especialíssima chegou à Presidência da República. Não
estaria errada essa descrição, mesmo reconhecendo sua insuficiência.
Dizer que ele representa os militares seria uma
generalização absurda e um desprestígio da categoria. Os militares compõem uma
camada intelectual de relevância incontestável para o Estado brasileiro. Como
se sabe, Bolsonaro foi afastado do Exército por indisciplina. Tornou-se
político profissional com votos da corporação militar por longos 28 anos. Como
parlamentar e agora como presidente permanece um defensor das demandas dos
militares – vide a reforma da Previdência. É certo que recheou o Ministério com
muitos deles, o que não garantiu identidade absoluta entre o presidente e os
militares convidados.
Não há novidade também na caracterização de Bolsonaro como
representante da extrema direita. Não apenas ele, mas seus filhos – igualmente
políticos profissionais, vale ressaltar – não escondem isso de ninguém, até
mesmo as ligações internacionais com essa corrente política. Tal posição,
distinta de outras correntes e personalidades desse campo, acabou por definir
mais precisamente Bolsonaro como expressão de uma facção da direita que tem
cultivado um comportamento fascistizante.
O presidente não abre mão de concentrar em si a narrativa e
a estratégia de seu governo. Embora em ambas não haja um programa determinado,
coerente e sistêmico, que ele faça questão de explicitar. Mas há uma ênfase
digna de menção: a persona (o “mito”) sobrepõe-se ao governo e por isso a
dimensão pessoal está sempre à frente da institucional, no limite do decoro. A
pessoalização existe, porém, sem nenhum afeto, nem o maneirismo típico da nossa
tradição ibero-americana. A Bolsonaro não interessa o savoir-faire da política,
as gentilezas com outros atores, mesmo com possíveis aliados.
Ele modula seu comportamento pelo que entende ser o jogo
duro do poder. E para isso adota o método do confronto permanente, pondo sempre
em relevo as discrepâncias ideológicas no lugar das soluções para os problemas
da Nação. A confrontação é essencial para sua estratégia de manter o apoio de
parcela significativa do eleitorado, rumo à reeleição de 2022.
Tudo isso lhe garantiu a iniciativa política até aqui. Mas
2020 começou mal para ele e para todos nós. A divulgação do “pibinho” (1,1%) de
2019, a disparada do dólar, a fuga de investimentos e, por fim, o ingresso do
Brasil na pandemia do covid-19 alteraram o cenário. A pandemia jogou Bolsonaro
nas cordas, fazendo-o perder a iniciativa política. Em poucos dias deu mostras
de faltar-lhe o chão e de que sua estratégia maior poderia estar comprometida.
Desde então as ações do presidente visam à recuperação da
iniciativa perdida. Com parte da sua equipe contaminada pelo vírus, Bolsonaro
lançou-se numa escalada desesperada: não hesitou em cumprimentar os poucos
manifestantes que pediam o fechamento do Congresso e do STF. Em seguida, com
declarações estapafúrdias, atacou os governadores que determinaram o isolamento
social para conter o avanço da epidemia. Essa atitude produziu uma fratura na
estrutura federativa do País, criando embate institucional, desorientação
política, além de complicar o combate à pandemia.
Mesmo na defensiva, Bolsonaro tenta manter a opção por uma
“guerra de movimento” definida desde a campanha e a posse, cujo objetivo é
destruir a democracia da Carta Constitucional de 1988 e implantar um regime
iliberal no Brasil. Essa espécie de “revolução reacionária” levada em fogo
brando (sem violência aguda, até o momento) não pode parar até as eleições de
2022. É nela que Bolsonaro imagina consolidar sua legitimidade e impor ao País
uma “nova hegemonia”, não mais com os valores e ideias da “esquerda”. Para ele
2022 é o turning point.
Mas até lá haverá muita turbulência. O certo é que, para
confrontar o frágil reformismo liberal-democrático que marcou a trajetória do
País desde o fim da ditadura, Bolsonaro não cederá à “guerra de posições”. Em
sua avaliação, esse é um ambiente hostil. No limite, poderia fazê-lo, mas
imagina que estaria compactuando com um modelo que, segundo ele, marcou os
governos dos presidentes que o antecederam, com custos e problemas que não
saberia gerenciar.
Diante da pandemia, Bolsonaro age com mão pesada: escanteia
governadores e prefeitos, desafia orientações epidemiológicas, desestrutura a
federação e tensiona ao limite a relação com o Congresso. Mas não ganha nenhuma
posição. Busca resgatar sua “guerra de movimento” e colocar nas ruas os que o
apoiam incondicionalmente, pouco se importando em ver o País à beira da
conflagração.
Com a recessão às portas, o que pode comprometer sua
reeleição, Bolsonaro visa a combater as lideranças que ameaçam seu caminho rumo
a 2022. Isso é Bolsonaro.
*Historiador, é professor titular da Unesp

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