Não poderia existir metáfora mais adequada para traduzir a
grave situação do Brasil que o ditado popular que dá título a este artigo. O
diversionismo estabelecido por setores da sociedade brasileira em um falso
dilema – isolamento horizontal/isolamento vertical ou economia versus saúde,
esconde em verdade um drama muito mais profundo que o país padece e que sua
elite dirigente tenta esconder a todo custo.
Numa velocidade estonteante a pandemia do Coronavirus pôs a
nu toda a farsa da pujança da nossa economia e deixou à mostra a dura realidade
em que vive a maioria do povo: sem emprego, sem dinheiro, sem
assistência social, sem saúde e sem futuro.
O chamado confinamento vertical para idosos, é nada mais
nada menos que a Lei do Sexagenário rediviva, (Lei n.º 3.270,
promulgada em 28 de setembro de 1885, garantindo liberdade aos escravos com 60
anos ou mais, com o pagamento de indenização. A indenização deveria ser paga
pelo liberto, sendo obrigado a prestar serviços ao seu ex-senhor por mais três
anos ou até completar 65 anos de idade). Parece brincadeira, mas não
é. Nessa equação, vidas humanas não importam, ainda mais se forem de velhos,
negros e pobres. Qualquer semelhança com o momento atual não é mera
coincidência.
Em verdade, a pandemia expôs as vísceras do pensamento
genocida e eugênico de parte da elite do país. Além disso, a pandemia está
revelando, que apesar da precariedade do sistema público de saúde, a salvação
da lavoura, está sendo o SUS, tão demonizado pelos empresários dos planos de
saúde e que era alvo de um desmonte sem precedentes.
Do mesmo modo, a precariedade da informalidade no campo do
trabalho, cantada em prosa e verso como “empreendedorismo” está
deixando à mostra o seu lado mais cruel. São milhões de pessoas que ganham
dinheiro agora para comer daqui a pouco, não tendo o direito sequer de cuidar
da sua saúde. O desespero das pessoas na busca do auxilio emergencial,
escancarados nas câmeras de tvs são sinais dolorosos dessa vulnerabilidade.
Enquanto isso o Banco Central anuncia um conjunto de medidas
que deve disponibilizar para os bancos (setor mais lucrativo do país) algo em
torno de 1 trilhão e 216 bilhões de reais (dez vezes mais o apoio
dado em 2008, quando da crise econômica), correspondendo a 16,7% do Produto
Interno Brasileiro e para os 70 milhões de informais, 60 bilhões de reais,
representando não mais do que 1% do PIB nacional, segundo a Instituição Fiscal
Independente (IFI) do Senado da República. É assim que se manifesta a
desigualdade no Brasil.
Não fosse a forte pressão do Poder Legislativo e do
Judiciário, juntamente com Governadores e Prefeitos sobre o Executivo Federal,
e nem essa migalha de 600 reais o povão teria direito, pois a tese no Executivo
é de que pouco importa quantos morram, pois a economia não pode parar.
E por mais que nos incomode, a pandemia também está
revelando a dimensão política da pobreza. Aproximadamente um terço da população
tem apoiado as teses genocidas. A ignorância e desinformação, tem sido presa
fácil dos obscurantistas de plantão. E nesse território de carências o povo tem
sido facilmente manipulado, sendo terreno fértil para o florescimento do
fascismo. Não por acaso a pregação aberta do racismo, da intolerância religiosa,
da homofobia e da volta da ditadura tem obtido tanto apoio. E as grandes
vitimas dessa perversidade histórica são e serão os pretos e pobres da
sociedade brasileira.
O momento é grave e não podemos vacilar. Temos que juntar as
forças democráticas de todos os campos, (político, empresarial, religioso,
cultural, popular, etc.), em especial o movimento negro e enfrentarmos o
obscurantismo que nos ameaça, em todos em todos os espaços, pois para nós, além
de combater o vírus, precisamos garantir a democracia, que ela é oxigênio vital
para uma sociedade saudável.
Toca a zabumba que a terra é nossa!

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