No livro O revólver
que sempre dispara (Casa Amarela), Emanuel Ferraz Vespucci analisa as causas,
os comportamentos e as consequências para a saúde de diversas dependências
químicas, inclusive o alcoolismo e o tabagismo. É um livro despido de
preconceito e, do ponto de vista clínico, como não poderia deixar de ser, serve
de referência para os que lidam com o problema: usuários em busca de
tratamento, seus familiares e terapeutas. O livro explica de maneira clara como
as diversas drogas causam dependência física e psicológica, os problemas que
acarretam e as maneiras de enfrentá-los, sem moralismo. A perda de controle
sobre o álcool, a cocaína, o crack, a maconha, morfina, calmantes, inibidores
de apetite e outros psicotrópicos é um problema muito mais amplo do que se
imagina.
A dependência
funciona como uma roleta russa. Em algum momento a bala que está no cilindro do
rerólver será disparada, na medida em que o sujeito arrisca mais uma vez. Ou
seja, o acaso tem um limite, quanto maior a frequência, maior a probalidade de
ocorrência. Por causa da dependência, algo grave acontecerá na vida da pessoa,
pode ser um acidente de carro, a perda do emprego, um surto psicótico, um
infarto.
O que interessa
aqui é a analogia da roleta-russa, ou seja, do revólver que sempre dispara.
Durante a pandemia de Covid-19, por causa do risco de contaminação, sair de
casa é uma espécie de roleta russa, mesmo que a pessoa utilize máscaras e
luvas. Acontece que o presidente da República — com o objetivo declarado de
desmoralizar a política de distanciamento social preconizada pelas autoridades
médicas, inclusive seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e
responsabilizar governadores e prefeitos pela recessão econômica — resolveu sair
às ruas com frequência e, nesses passeios, visitar o comércio local para
estimular proprietários e consumidores a manterem uma vida normal. Bolsonaro
ignora uma epidemia que está matando mais de 100 pessoas por dia no Brasil, o
equivalente a um desastre de grandes proporções.
Desafiar o novo
coronavírus se tornou uma espécie de obsessão para o presidente, que se
comporta como quem adquiriu imunidade contra a doença, como acontece com
aqueles que já foram contaminados, se recuperaram e adquiriram anticorpos ou
que, por qualquer outra razão, têm uma sistema imunológico mais robusto,
geralmente mais jovens. Não se sabe se o presidente está imunizado; ele se
recusa a revelar os resultados dos exames que fez. Bolsonaro age como um
jogador compulsivo, o que não deixa de ser uma dependência, sem levar em conta
que a maioria das pessoas não está preparada para lidar com o aleatório.
Teoria do caos
É aí que chegamos a
O andar do bêbado (Zahar), o instigante livro do físico Leonard Mlodinow, do
Instituto de Tecnologia da Califórnia, sobre o acaso na vida das pessoas, ou
melhor, sobre como funciona a aleatoriedade. O novo coronavírus se multiplica
como um “Efeito Borboleta”, descoberto em 1960, pelo matemático Edward Lorenz,
base para a Teoria do Caos. Mostra como pequenas alterações nas condições
iniciais de grandes sistemas podem gerar transformações drásticas e
significativas.
Lorenz, que também
era meteorologista, realizava cálculos relacionado a padrões climáticos num
computador. Em vez de colocar 0,000001, conforme fez na primeira vez, ele
colocou 0,0001, alterando completamente o resultado da simulação, como se o
bater de asas de uma borboleta na Austrália provocasse um furacão no Caribe.
Foi o que aconteceu com o coronavírus na Alemanha e na Coreia do Sul, países
que mais bem monitoraram a epidemia e conseguiram mantê-la sobre controle, com
testes em massa e hospitalização dos contaminados. No primeiro caso, bastou que
uma pessoa contaminada usasse o saleiro num almoço de família para a epidemia
se propagar; no segundo, um único paciente, de 30 casos confirmados, escapou do
isolamento e disseminou a doença.
Na Sexta-feira da
Paixão contabilizamos 1.056 mortes e 19.638 casos confirmados, 44 dias após o
primeiro caso registrado no país e 24 dias depois do registro da primeira
morte. São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estão em risco
de colapso do sistema de saúde pública. Numa hora em que o país precisa de
coesão social e alinhamento das políticas de combate ao novo coronavírus, para
evitar o colapso do sistema de saúde, Bolsonaro aposta na autoimunizaçao pelo
contagio e num medicamento de eficácia limitada nos tratamentos, a
hidroxicloroquina, para evitar as mortes, e prega a retomada imediata das
atividades econômicas, com adoção do chamado isolamento seletivo ou vertical.
Essas apostas foram feitas em outros países, como os Estados Unidos, Inglaterra
e Japão, e fracassaram.

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