O ‘cavalo de pau’ do populismo do governo Bolsonaro
Presidentes minoritários que se recusam a construir
coalizões em ambiente multipartidário percebem, cedo ou tarde, que os custos
dessa estratégia se tornam proibitivos.
‘Imprensa não é fácil’, disse Moro a Bolsonaro, ao comentar
capa do Estadão
No início do mandato, inebriam-se de sua popularidade
alcançada com a vitória eleitoral. Em vez de construírem pontes com os partidos
e canais institucionais de representação política, preferem desenvolver
conexões diretas e polarizadas com núcleo duro de seus eleitores, numa espécie
de campanha perpétua típica de populismos.
Embora no curto prazo essa estratégia possa ser
bem-sucedida, ela é muito arriscada, pois tende a desgastar as relações do
presidente com os outros Poderes. Ao primeiro sinal de fragilidade do
presidente, legisladores tendem a dar o troco, e este pode custar a própria
sobrevivência do governo.
Mesmo desgastado, o presidente Bolsonaro vinha sendo capaz
de obter apoio político de uma parcela da população. Entretanto, ao dar ênfase
aos impactos negativos do isolamento social na economia e, ao mesmo tempo,
minimizar os riscos de contágio e gravidade da pandemia, até eleitores
congruentes com seu governo decidiram abandoná-lo.
Ao perceber que investigações sobre os organizadores de ato
público contra as instituições democráticas poderiam comprometer pessoas do seu
governo e familiares, decidiu demitir o diretor da Polícia Federal, batendo
assim de frente com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, salvaguarda moral do
seu governo.
As acusações de Moro apontam para potenciais crimes de
responsabilidade. Como tentativa desesperada de proteção, procurará construir,
mesmo que de forma tardia e talvez não tão republicana, coalizão no Congresso
para evitar um impeachment. Por outro lado, sem Moro, a perspectiva é que uma
parcela ainda maior de eleitores, especialmente os que acreditam no combate à
corrupção, deixe de apoiar o governo.
Portanto, se Bolsonaro sobreviver ao crivo das instituições
de controle, cenário cada vez menos provável, terá de também apelar para a
população de baixa renda, até então negligenciada, para ter alguma base social.
As transferências emergenciais de recursos por conta da pandemia podem ter
criado oportunidade para o “cavalo de pau” do populismo de Bolsonaro.
*PROFESSOR TITULAR DA FGV-EBAPE DO RIO DE JANEIRO

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