O pior dos mundos nesta pandemia de coronavírus no Brasil
seria uma crise institucional, num momento em que as instituições políticas
precisam convergir para combater a doença e mitigar os seus efeitos na
economia. Em circunstâncias normais, o maior interessado nesse esforço
coordenado seria, sem dúvida, o presidente da República, mas acontece que Jair
Bolsonaro faz tudo ao contrário. Como no domingo, quando foi ao ato de
extrema-direita em frente ao quartel-general do Exército para apoiar
manifestantes que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal
(STF) e uma intervenção militar.
É difícil compreender seu comportamento, que foge à
racionalidade, num momento tão dramático da vida nacional. O gesto de domingo,
como não poderia deixar de ser, aprofundou o isolamento político de Bolsonaro.
Foi repudiado pelos ministros do Supremo, pelos líderes da Câmara e do Senado,
por instituições da sociedade civil e provocou um pedido do procurador-geral da
República, Augusto Aras, para que o STF apure as responsabilidades pela
organização do ato, que atenta contra a democracia, nos termos da Lei de
Segurança Nacional. Bolsonaro foi poupado pelo Ministério Público Federal, mas
o presidente do Cidadania, Roberto Freire, e o líder do partido na Câmara,
deputado Arnaldo Jardim (SP), se encarregaram de requerer à PGR que investigue
também os que participaram do ato.
Ontem, ao sair do Palácio da Alvorada, Bolsonaro minimizou
os acontecimentos de domingo. Disse que em nenhum momento endossou os pedidos
de fechamento dos demais poderes e de intervenção militar. Ironizou: “O pessoal
geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Eu já sou
presidente da República (…). Eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu?
Falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial. O
que eu tomei de providência contra a imprensa? Contra a liberdade de
expressão?”
Mas Bolsonaro revelou preocupação com o que aconteceu,
quando nada porque sabe que seu gesto pode ser interpretado como crime de
responsabilidade, sobretudo se houver ligações efetivas entre os organizadores
do ato e o chamado “gabinete do ódio”, o grupo ideológico que o assessora na
Presidência. “Em todo e qualquer movimento tem infiltrado, tem gente que tem a
sua liberdade de expressão. Respeite a liberdade de expressão. Pegue o meu
discurso, dá dois minutos, não falei nada contra qualquer outro poder, muito
pelo contrário. Queremos voltar ao trabalho, o povo quer isso. Estavam lá
saudando o Exército brasileiro. É isso, mais nada. Fora isso, é invencionice, é
tentativa de incendiar uma nação que ainda está dentro da normalidade”, disse
Bolsonaro, em defesa prévia.
Bolsonaro estimula uma militância fanatizada, que defende
claramente um golpe de Estado. Militarizou seu governo a tal ponto que hoje
existem mais generais na Esplanada do que em todos os governos do regime
militar. Toda vez que tem um problema e não consegue resolver, apela aos
ex-colegas de farda. Seu problema não é chegar ao poder, é a ambição de ter
poderes absolutos, pois não consegue administrar a institucionalidade da
própria Presidência, em situações emblemáticas, como a de domingo, desrespeitando
a liturgia do cargo que ocupa. Não digere o sistema de pesos e contrapesos que
normatiza as relações com o Congresso e o STF. No fundo, como um Luís XIV, tem
uma visão absolutista da Presidência: “Eu sou realmente a Constituição”.
Isolamento
Enquanto isso, a epidemia avança. No balanço do Ministério da Saúde divulgado ontem, já são 2.575 mortes (no domingo, eram 2.462, aumento de 5,6%, ou seja, 113 óbitos a mais), num universo de grande subnotificação: apenas 40.581 confirmados (no domingo, eram 38.654, aumento de 5%, sendo a taxa de letalidade de 6,3% de letalidade). São Paulo tem 1.037 mortes e 14.580 casos confirmados. Bolsonaro minimiza a progressão da epidemia, diz que 70% da população será contaminada e “não adianta querer correr disso”. Lida com a morte como aquele general que manda seus soldados resistir apenas para ganhar tempo para a própria retirada, sabendo que o front está perdido e eles voltarão para casa dentro de um saco plástico: “Aproximadamente 70% da população vai ser infectada. Não adianta querer correr disso. É uma verdade. Estão com medo da verdade?”, afirmou.
Enquanto isso, a epidemia avança. No balanço do Ministério da Saúde divulgado ontem, já são 2.575 mortes (no domingo, eram 2.462, aumento de 5,6%, ou seja, 113 óbitos a mais), num universo de grande subnotificação: apenas 40.581 confirmados (no domingo, eram 38.654, aumento de 5%, sendo a taxa de letalidade de 6,3% de letalidade). São Paulo tem 1.037 mortes e 14.580 casos confirmados. Bolsonaro minimiza a progressão da epidemia, diz que 70% da população será contaminada e “não adianta querer correr disso”. Lida com a morte como aquele general que manda seus soldados resistir apenas para ganhar tempo para a própria retirada, sabendo que o front está perdido e eles voltarão para casa dentro de um saco plástico: “Aproximadamente 70% da população vai ser infectada. Não adianta querer correr disso. É uma verdade. Estão com medo da verdade?”, afirmou.
Bolsonaro dobra a aposta de altíssimo risco: “Espero que
esta seja a última semana desta quarentena, desta maneira de combater o vírus,
todo mundo em casa. A massa não tem como ficar em casa, porque a geladeira está
vazia”, disse. Assim, estimula a população a desrespeitar a quarentena,
culpando governadores e prefeitos pela retração econômica e pelo desemprego,
embora a situação esteja se agravando no sistema público de saúde, como em
Manaus e Fortaleza, à beira do colapso. Seu novo ministro da Saúde, Nelson
Teich, foi eclipsado. Não pode abrir a boca pra falar sobre o aconteceu no
domingo. Não pode criticar Bolsonaro nem endossar suas ideias equivocadas.

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