A soturna Londres da era vitoriana foi o cenário ideal para
tecer um dos mais inquietantes clássicos do terror psicológico da literatura
universal: “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson. As ruelas opacas
e subterrâneos mal iluminados da capital inglesa eram palcos de violência
cotidiana e vícios de toda ordem. Economicamente havia um profundo contraste
entre mais os ricos e os pobres no final do século XIX.
Há estratos de leitura e parábolas no “The strange case of
Dr. Jekyll and Mr. Hyde”. As mais assíduas se reportam à transtornos de
personalidade, teorias psicanalíticas ou embates psicológicos, opondo bem/mal,
sobrevivência/morte, civilização/barbárie, vício/virtude, ciência/crença,
conhecimento/ignorância, luz/trevas. É a eterna dicotomia que aflige as
civilizações.
A bipolaridade fabulada por Stevenson desafiou os anos, atravessou continentes, descoloriu os trópicos, conservando a atmosfera crepuscular.
A bipolaridade fabulada por Stevenson desafiou os anos, atravessou continentes, descoloriu os trópicos, conservando a atmosfera crepuscular.
Jair Bolsonaro é a alegoria de Edward Hyde: é antípoda da
ciência, abomina a luminosidade, insulta o conhecimento, escarnece da
informação e empaca em convicções tão vaporosas quanto entranhas flatulentas. A
reiteração patológica é face mais degenerada e mórbida do obscurantismo. Os
ineptos estão desenvoltos e multiplicando o infame trote da estupidez.
A atmosfera da trama gótica de Stevenson é intencionalmente
lúgubre. O terror transcorre em ambientes tenebrosos, personagens sombrios e
sussurros acobertadas pelo véu da escuridão. A sociedade fuliginosa retratada
por Stevenson é refém da desconfiança e de muitas suspeitas. O medo e a
incerteza infectaram todos os personagens em um enredo recheado de ingredientes
de terror, suspense e calafrios.
A inspiração do escritor escocês foi real. Trata-se de um
tal William Brodie. Cidadão de bem que, durante o dia, exercia o nobre ofício
de marceneiro, mas, protegido pela penumbra noturna, se esgueirava para rapinar
residências. A dualidade de Brodie é a mesma que libertou Henry Jekyll, criando
Edward Hyde. A feição mais repulsiva da literatura se corporificou no monstro
após uma poção fumegante em uma ‘noite maldita’.
Um século e meio depois, em plena pandemia, a ciência é
novamente a mediadora do conflito entre a boa e má conduta. Jair Bolsonaro é
rudimentar, insidioso e potencialmente maligno. Encarna a outra face da moeda,
aquela que sabota a ciência. Contrariando Hipócrates, despreza o bem-estar e
ambiciona substituir os médicos. Encurralado na penumbra da incompreensão, quer
prescrever medicações. Bolsonaro exerce a medicina ilegal. Como Brodie ameaça
pilhar – não casas – mas vidas.
Hyde é uma das personagens mais repugnantes da ficção.
Homicida, é apresentado como um hedonista aterrorizante. Conformam sua índole
desprezível as vilanias em série, cólera, perversão, fúria, aspecto selvagem e
abominável. Seu espectro e aparição causam náuseas e aversão. Jekyll é um
médico cordato, moderado, mas escravizado por uma besta interior. “Essa
criatura infernal não tinha nada de humano, apenas era habitado pelo ódio e
pelo medo”, descreveu Jekyll sobre seu duplo, Hyde.
Médicos ministram receitas e doses certas de medicamentos.
Erros, debilidades políticas ou hesitações institucionais serão, no mínimo, as
consequências funestas das contraindicações. Doutor Henry Jekyll avaliava que
poderia exterminar Edward Hyde no momento que desejasse. O presidente Jair
Bolsonaro é a antítese da ciência e, por isso, quer silenciar o contraditório
na canetada: “A hora dele vai chegar”.
Em um surto de pajelança, o presidente se voluntaria a
prescrever curas cientificamente desamparadas. O curandeirismo é curiosamente
seletivo. Embora haja centenas de remédios em estudo, testes e pesquisas
científicas pelo mundo, se atem a um único. Inexplicável. A ilusão de que é um
mito, um messias, o transformou em xamã extemporâneo, um profeta em transe
pontificando que inexiste febre se não há termômetro.
Evocando os mascates ancestrais e seus elixires milagrosos
propagandeia beberagens de curas inexistentes. Se transformou em um bruxo
infectado, deslocado no tempo, vagando na geografia, vendendo garrafadas
milagrosas e espalhando um rastro de necrofilia e pestilência. Seguida a
catequese demoníaca da “gripezinha” estaríamos recolhendo corpos empilhados
pelas ruas, como no Equador.
O capitão e suas receitas foram interditadas em seus
próprios consultórios – as redes sociais – por colocar a saúde pública em risco
em suas predicações. Na justiça o receituário é rechaçado, no Legislativo
desprezado, no mundo exorcizado. Isolado, incita seus ‘diabinhos” remanescentes
a hostilizar a correta informação. Bolsonaro é capitão. Não é médico.
O desprezo pelo lastro científico lhe conferiu uma palidez
política, uma arritmia institucional temporária e acelerou a atrofia do
presidencialismo. Como todo espasmo autoritário é inservível à saúde
institucional e pode necrosar o estado de direito. Em breve terá sido uma febre
passageira. As vacinas democráticas são mais fortes do que as mixilangas. Os
anticorpos, ao seu tempo, se encarregarão de expelir transeuntes febris e
charlatães.

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