A resposta, é claro, não dá para ser diferente: além de
anti-higiênico, o cidadão comete eventual crime contra a saúde pública
envolvendo a disseminação de doença. Trata-se, obviamente, de Jair Bolsonaro, o
presidente abstrato. Abstrato porque vive alienado ou se faz de alienado da
realidade; abstrato porque está politicamente isolado; abstrato porque perdeu a
racionalidade; abstrato porque enquanto aumenta o número de mortos no País, ele
declarou, em teleconferência com evangélicos, que “o vírus está indo embora”.
Curiosamente, no mesmo dia em que disse isso, o Brasil batia o triste recorde
de duzentos e quatro mortos e seguia para quase três mil óbitos, enquanto o
abstrato presidente declarara lá atrás que os falecimentos não chegariam a
oitocentos. “Jair Bolsonaro é um criminoso de guerra, fazendo o que faz”,
define o economista francês Pierre Salama.
Decidiu, assim, Jair Bolsonaro mais uma vez desrespeitar e
desprezar as recomendações de distanciamento social reiteradas a cada dia pelo
Ministério da Saúde como forma de conter a pandemia. Bolsonaro saiu
borboleteando por Brasília, provocando aglomerações, ironizando de modo absurdo
aqueles que defendem a quarentena. Ele já tinha feito isso em ocasiões
anteriores, mas como não tem limites na deseducação, sempre surge uma novidade:
a mão no nariz. Ele saía do prédio onde mora seu filho Jair Renan quando
ocorreu o episódio nasal. Antes disso, visitara o Hospital Militar, declarando
cheio de gracinhas (sem graça) e tolas que fora “fazer teste de gravidez”. Daí
seguiu para uma farmácia e então resolveu visitar o filho. Ah, também esteve m
Goiás, na inauguração do primeiro hospital de campanha do estado, na cidade de
Águas Lindas. Também estiveram presentes o governador Ronaldo Caiado, que
higienizou as mão do preisdente, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.
Houve muita gente reunida, é bem melhor, nos dias presentes, construir hospital
mas deixar de lado a vaidade de estar presente na inauguração. Enfim, mais
saúde e menos política. Pois bem, enquanto aguardam-se cenas dos próximos
capítulos da abstração presidencial, o mandatário ganhou surpreendentemente um
aliado. É Augusto Aras, procurador-geral da República, de quem se espera, até
por dever de ofício, que zele pelo bem-estar de toda a sociedade.
Nada disso está ocorrendo. O presidente abstrato recebeu o
apoio de Aras, para quem o presidente da República tem a prerrogativa de
flexibilizar ou mesmo extinguir o profilático distanciamento social. Ou seja:
segundo o procurador-geral, pode o mandatário intervir nas decisões dos estados
e municípios. O argumento de Aras é tão abstratinho quanto as falas do
presidente abstratão justificando a quebra da quarentena em nome do direito de
ir e vir. É claro que tal direito faz parte das garantias fundamentais
estabelecidas na Constituição, mas também é claro que em situações de
calamidade pública, como a que tragicamente se vivencia, tal direito pode ser
legalmente relativizado: é a vida humana que está em jogo. Aras também
estabeleceu, ou, melhor, tentou estabelecer, que todas as sugestões que cheguem
às mãos do ministro da Saúde, advindas do Ministério Público, sejam
imediatamente encaminhadas à Procuradoria-Geral da República para exame. Aras
foi duramente criticado nas duas inciativas que tomou. As sabotagens de
Bolsonaro já são velhas conhecidas; a entrada de Aras em cena foi a estreia
desastrada de quem almejava ser ao menos coadjuvante. Em meio à
irresponsabilidade do presidente, a Câmara de Deputados anunciou na
quarta-feira 15, que Bolsonaro terá um mês para tornar público o resultado de
seu teste para coronavírus.
“Jair Bolsonaro é um criminoso de guerra, fazendo o que
faz” Pierre Salama, economista francês especializado
em América Latina
em América Latina
“Vivemos em uma Federação”, disse o ministro do Supremo
Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, na segunda-feira 13. “Os estados têm
certa autonomia, e a legitimação para atos voltados à saúde é comum a todos,
incluídos os municípios. Seria um ato despropositado sob o ângulo
constitucional”. Em duas ocasiões, o também ministro do STF Alexandre de Moares
já decidiu nesse sentido. Esse foi o primeiro ponto negativo para Aras. O segundo
veio de seus próprios colegas de Ministério Público, que veem até como uma
tentativa de censura a exigência do procurador-geral para que as inúmeras
propostas de combate ao novo coronavírus desembarquem em sua mesa. Também o
ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que defende até a prisão
se a não adesão à quarentena chegar a ínfimos índices alarmantes, falou em
defesa dos brasileiros. E foi direto ao ponto, ou seja, na terça-feira 14
colocou a mão na fogueira das vaidades. Em recado implícito ao presidente que
está em realidade paralela e a todos que igualmente disputam holofotes, Moro
disse: “nesse momento, não pode existir ninguém em sã consciência preocupado
com popularidade”. O ministro está em boa fé democrática. Já o abstrato dono do
concreto nariz antirrepublicano…

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