O que eu gosto mais, francamente, é que toda crise é cheia
de oportunidade.” A platitude foi dita pelo empresário suíço-brasileiro Jorge
Paulo Lemann, referindo-se à pandemia de coronavírus, do alto de seus bilhões
de dólares. O pessoal saiu correndo atrás de uma oportunidade. Pois o último a
chegar é mulher do padre.
Um grupo de chineses foi preso em São Paulo tentado vender a
preços milionários 15 mil testes rápidos para detectar a Covid-19; os testes
tinham sido furtados. Funerárias cariocas estão cobrando por um enterro
simples, em cova rasa, até R$ 3,8 mil. A médica Ligia Kogos, conhecida como “a
rainha do botox”, invocou o juramento de Hipócrates para manter aberta a sua
clínica de estética.
Estes são casos menores e particulares diante da farra de
dinheiro que pode ocorrer sob o disfarce de compras emergenciais para combater
a pandemia. O governo do Rio fez trocas suspeitas na estrutura da Secretaria de
Saúde em meio à crise e dificulta o acesso a informações sobre contratos.
Wilson Witzel aproveitou para enviar mensagem à Assembleia Legislativa
retomando um programa de desestatização. O novo projeto de lei contempla
sociedades de economia mista (como a Cedae), empresas públicas, fundações e até
universidades (Uerj, Uezo e Uenf).
Cada um aproveita a chance a seu modo doentio. Weintraub, o
ministro da Educação, fez piada no Twitter debochando da morte de pessoas. O
chanceler Ernesto Araújo, para não ficar atrás, escreveu no seu blog que o
“comunavírus” é mais perigoso que a Covid-19.
Mas quem está “oportunizando” a valer é Bolsonaro. Corta
cabeças como a Rainha de Copas (decapitado, Moro retorna à República de Curitiba),
age para proteger os filhos de investigações na PF, realimenta as milícias
liberando munições e avança no seu projeto autocrático. Outra grande
oportunidade, para ele, é o impeachment.
Alvaro Costa e Silva é jornalista, atuou como repórter e editor.
É autor de “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”.

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