Ciência serve para políticos fugirem à responsabilidade por
suas decisões
O físico Neils Bohr, um dos fundadores da teoria quântica,
sabia o que não sabia. “A predição é muito difícil, especialmente sobre o
futuro”, afirmou ironicamente, para explicar que a ciência cuida,
essencialmente, da descrição. É útil recordar sua frase, nesses tempos em que
líderes políticos —com o apoio de não poucos cientistas presunçosos— enchem a
boca para dizer que suas decisões sobre a emergência sanitária fundamentam-se
“na ciência”.
João Doria decidiu, “com base em ciência”, conservar regras
lineares de isolamento social no estado de São Paulo, até 10 de maio. Já
Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, resolveu flexibilizar as restrições no
interior de seu estado —claro, “com base em ciência”. Os cenários são
similares, embora não idênticos. A ciência também poderia ser invocada por cada
um deles para adotar as iniciativas do outro.
O finado Mandetta justificou o isolamento social com o
argumento de evitar o colapso hospitalar, um raciocínio que propicia
flexibilizações em áreas de baixa pressão sobre leitos e UTIs.
O neurocientista Miguel Nicolelis, que assessora os
governadores do Nordeste no mapeamento da epidemia, discorda veementemente.
Segundo ele, em entrevista à TV, o isolamento social tem a finalidade muito
mais ambiciosa de “evitar contágios”, o que exigiria rígidas quarentenas em
todos os lugares, por período indefinido. Os dois falam —adivinhe!— em nome “da
ciência”.
A ciência está na moda —o que é sempre bom, e melhor ainda
nessa era de Bolsoneros, rezas coletivas para assustar o vírus, presidentes que
receitam remédios, teorias conspiratórias veiculadas por ignorantes com cargo
público. Contudo, o fetiche da ciência não ajuda a ciência e, sobretudo, serve
como vereda para os políticos fugirem à responsabilidade por suas decisões, que
são sempre políticas.
A ciência faz descrições e, no limite, formula hipóteses
probabilísticas sobre o futuro. Um modelo sobre a pandemia da Universidade de
Washington recomenda que nenhum estado dos EUA reabra a economia antes de maio
—e que alguns deles só o façam no longínquo julho. Mas, rejeitando o
fetichismo, o responsável pelo estudo disse que “se fosse um governador,
certamente não tomaria decisões baseadas apenas no nosso modelo”.
O modelo da Universidade de Washington reflete,
exclusivamente, uma especialidade científica: a epidemiologia. Não
desapareceram, contudo, na tempestade viral, outros campos do conhecimento,
como a sociologia e a economia (a “ciência sombria”, na definição de Thomas
Carlyle). Essas ciências têm algo a dizer sobre os efeitos não epidemiológicos
do congelamento prolongado de amplos setores da produção e do consumo.
A maior depressão mundial desde a Grande Depressão terá
fortes implicações sobre a saúde pública. A ONU alerta para o risco de uma
“fome de proporções bíblicas” em países pobres, como resultado da ruptura do
sistema econômico. Investigações (científicas!) realizadas nos EUA indicam que
o desemprego de longa duração corta a expectativa de vida em algo entre cinco e
dez anos. Há mais coisas sob o sol do que o vírus.
O fundamentalismo epidemiológico (“evitar contágios”) pode
ser tão desastroso quanto a negligência criminosa (“uma gripezinha”). A saída
encontra-se na ciência desfetichizada —ou seja, numa visão holística da
emergência sanitária.
A Alemanha, com folga no sistema de saúde, reduz
paulatinamente as restrições na hora em que ainda se registram milhares de
novos contágios diários. É uma decisão política, certa ou errada, tomada pelos
representantes eleitos, não por epidemiologistas.
Na guerra, o poder deve ser transferido aos generais? Na
emergência sanitária, devemos recorrer ao “governo dos epidemiologistas”? A
resposta democrática é duas vezes “não”. No segundo caso, inclusive, para não
converter a ciência em superstição.
*Demétrio Magnoli é sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue:
História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.

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