Ao ver as imagens de um homem vestido de verde e amarelo agredir
um casal com camisetas vermelhas, nas manifestações de domingo (19), pensei:
como permitimos que a extrema direita sequestrasse nossos maiores símbolos
nacionais?
Professor de relações internacionais da FGV, Oliver
Stuenkel, escreveu no ano passado sobre essa tendência ao redor do mundo.
"Os radicais têm se apropriado de bandeiras nacionais para poder chamar
vozes discordantes de inimigos da pátria". Não por acaso, é assim que Jair
Bolsonaro, parlamentares aliados e apoiadores se referem a qualquer pessoa que
faça oposição ao presidente.
Stuenkel dá como exemplo o leão e a cruz, imagens nacionais
na Finlândia, hoje associados a grupos xenófobos. A tentativa de Trump em se
apropriar da bandeira americana. A mesma tática do partido de extrema direita
AfD, na Alemanha, que acusa os demais de terem vergonha dos símbolos alemães.
No Brasil, nossas cores encheram as ruas em favor do
impeachment de Dilma como contraponto ao vermelho, marca registrada do PT. A
partir daí, bandeira, hino e o verde e amarelo passaram a ser evitados por
pessoas contrárias ao afastamento e hoje também por opositores do governo,
atitude que acabou dando de bandeja parte da identidade do país aos radicais,
que os fizeram reféns da estética cafona-bolsonarista.
A maioria dos perfis bolsonaristas nas redes sociais tem
nossa bandeira como marca registrada. Tomamos horror ao uniforme verde e
amarelo. O hino
nacional virou trilha sonora de passeatas que pedem intervenção
militar e também resposta às panelas que gritam "fora, Bolsonaro".
Ao nos afastarmos dos símbolos, segundo o que escreveu
Stuenkel, "facilitamos o trabalho da extrema direita, a qual busca
estabelecer uma falsa dicotomia entre cidadãos 'verdadeiros' e aqueles menos
comprometidos com a nação". Ainda que não seja uma competição, talvez
esteja na hora de mudar esse jogo.
Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

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