O governo de São Paulo anunciou ontem a prorrogação da
quarentena no Estado. O fechamento do comércio e de serviços não essenciais,
que poderia ser suspenso no próximo dia 22 de abril, agora se estenderá até o
dia 10 de maio. Segundo o governador João Doria, a medida é necessária em razão
do iminente colapso do sistema hospitalar público ante a pandemia de covid-19.
Em outros Estados, esse colapso já ocorreu.
Ou seja, o País começa a entrar na fase aguda da crise, com
perspectivas funestas, o que demanda a ação rápida, decisiva e inteligente das
autoridades no sentido de preservar vidas, mesmo que isso prejudique a economia
– afinal, empresas podem superar prejuízos e trabalhadores podem recuperar
empregos, mas, como é terrivelmente óbvio, mortos não ressuscitam.
Nenhum esforço regional, por mais competente que seja, é
capaz de substituir a liderança federal no combate à pandemia. Por isso, a
responsabilidade primária, irrenunciável e intransferível pela condução do País
na crise é do presidente da República, Jair Bolsonaro, e ele terá de arcar com
o peso de suas decisões sobre a vida de todos os cidadãos. O novo ministro da
Saúde, Nelson Teich, assumiu essa mesma responsabilidade quando aceitou o
cargo, e por isso mesmo o País acompanhou, atento, suas primeiras palavras, na
esperança de encontrar ali um compromisso cristalino com a ciência e o bom
senso.
O que se viu até aqui, porém, foi um ministro ciente de que
ocupa um cargo político, a ele designado por questões exclusivamente políticas.
Tratou de equilibrar-se entre a demanda de seu chefe para determinar o fim do
isolamento social e o fato incontornável de que esse isolamento é a única
forma, hoje, de enfrentar a pandemia.
O ministro Teich se diz em “completo alinhamento” com o
presidente Bolsonaro, que considera exageradas as medidas de isolamento social,
mas dias antes de ser nomeado publicou um artigo em que defendeu o isolamento
como “a melhor estratégia no momento”. Ou seja: enquanto era apenas um
profissional de saúde, o doutor Teich reafirmava aquilo que todos os gestores
de saúde sabem; quando se tornou ministro, assumiu o típico discurso político –
que muito fala para nada dizer.
Para começar, o novo ministro declarou que é preciso
“conhecer melhor” a doença a fim de criar estratégias para a volta à normalidade.
Ora, é exatamente isso o que o mundo inteiro está tentando fazer há meses,
ainda sem resultados. Segundo o ministro Teich, será necessário elaborar um
amplo “programa de testes”, embora o Brasil esteja muito atrasado na aplicação
desses exames, por variados motivos, e nada indica que essa situação mudará num
futuro previsível.
Para piorar, Bolsonaro mandou suspender uma iniciativa do
Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria com operadoras de celular, para
monitorar o fluxo de pessoas pelo País e assim identificar o nível de adesão à
quarentena. Alegando um risco à privacidade inexistente nesse caso, o
presidente dificulta a produção de informações necessárias para preparar o
sistema de saúde. Desse jeito fica difícil “conhecer melhor” a doença, como
quer o ministro da Saúde.
Assim, justamente no momento em que o País mais precisa de
determinação e rumo, ante a expansão exponencial da pandemia, o novo ministro
da Saúde tem a oferecer apenas palavras ditas sob medida para satisfazer
Bolsonaro, que só confia naqueles que o adulam e cultiva antagonistas como
método de governança.
A missão do ministro Teich já não seria fácil de qualquer
maneira, pois se está diante de um dos maiores desafios globais de saúde
pública em um século. Mas essa missão será ainda mais árdua porque é preciso
lidar também com um presidente que não acredita em resultados eleitorais
chancelados pela Justiça Eleitoral, tampouco nos números da devastação na
Amazônia, mas diz acreditar piamente na eficácia de um remédio contra a covid-19
que ainda está em testes; e esse presidente, ademais, encara o novo coronavírus
não como uma emergência de saúde pública, mas como arma invisível usada por
seus supostos inimigos – dos governadores de Estado ao presidente da Câmara,
Rodrigo Maia – para derrubá-lo.
Temos, no entanto, grandes esperanças de que o ministro
Nelson Teich saberá ultrapassar todos os obstáculos que contra ele já se erguem
no caminho da superação desta crise global.

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