Ninguém pode dizer que está surpreso. Em 2018 elegeu-se um
presidente com um prontuário bem fornido. Como indisciplinado, arruaceiro, com
dificuldades para cumprir ordens ou bater continência. Foi expulso do Exército
por insubordinação. Enquanto na ativa, quis jogar bombas em quartéis e se preocupou
em agitar a tropa. Contra o que? Contra tudo, em nome de ideias vagas e de
simpatia explícita pela violência, pela tortura e pela ditadura.
Elegeu-se assim uma pessoa que ao longo da vida se mostrou
despreparado para as batalhas mais simples. Um personagem tosco, sem qualquer
refinamento intelectual, que durante 30 anos montou um bunker com os filhos e
alguns fanáticos para tomar de assalto o Estado brasileiro. O quartel-general
foi a Câmara dos Deputados, de onde a malha se expandiu, envolvendo políticos
tradicionais, milicianos e uma chusma de desqualificados. Nenhum técnico,
nenhum intelectual, mas muitos oportunistas, à espreita para descolar uma
boquinha quando a hora chegasse.
2018 foi um ponto fora da curva. Há quem prefira analisá-lo
como decorrência do impeachment de Dilma Rousseff, visto como um “golpe” que
teria aberto a estrada para a extrema-direita. Não é uma visão majoritária,
especialmente porque não leva na devida conta a decomposição política que vinha
em marcha desde antes e a responsabilidade do PT na ausência de governo, que
encorpou a ponto de provocar verdadeira metástase no sistema político,
misturando-a com doses cavalares de corrupção e instrumentalização da máquina
pública.
Naquele ano, o desencanto do eleitorado com o PT e a esquerda
somou-se à incompetência dos políticos democráticos, que se deixaram consumir
pela vaidade e pela arrogância, não foram capazes de articular um programa de
ação e acabaram por entregar a Presidência de mão beijada para o personagem que
estava ali, pronto para agitar, na hora certa, uma hora agônica, que
simbolizava o fim de uma época política.
O que assistimos hoje é só um desdobramento desse quadro. O
personagem continua solto, com o mal crescendo dentro dele. Piorou muito depois
que chegou ao poder. Sentiu-se em condições de fazer tudo e mais um pouco.
Contou com militares a seu lado, que aderiram a ele com a expectativa de
conseguir controlá-lo. Organizou uma rede de robôs e influencers para espalhar
suas mensagens, suas mentiras, seu veneno. Beneficiou-se da covardia de tantos
políticos, da falta de clareza dos partidos, da reprodução na opinião pública
de uma ideia de que a “política tradicional” era inútil, um desperdício para o
País. Foi-se mantendo, ora esperneando, ora agitando os fanáticos, ora minando
as instituições. De governo mesmo, não se teve notícia.
O personagem se isolou no seu novo bunker, o Palácio do
Planalto. Foi perdendo a guerra que se prontificou a lutar. Manteve a pose de
que estava vencendo com a ponta da caneta, demitindo e nomeando. Fazendo lives
diárias com os seguidores amontoados na porta do Palácio. Agredindo e ofendendo
os que ousavam discrepar ou fazer fluir a informação, como os jornalistas.
O monstro passou a dominar por completo o personagem.
Encontrou na pandemia a oportunidade que acalentava para produzir caos, morte,
desunião, desencontro, horror, confusão. Adubou esse habitat e fez dele a rampa
de lançamento para seguir atacando a população, os políticos, o STF.
Manteve a ressonância entre os fanáticos, como era de se
esperar. Eles são como o rebanho que se deixa arrastar para lá e cá. Batem
bumbos, fazem carreatas, agridem e ameaçam.
O personagem foi sendo levado pelos aplausos fáceis, tirando
vantagem da lentidão das instituições, que não reagem com rapidez, jogando um
partido contra outro, governadores contra prefeitos, povo contra povo.
Agora que o caldo está entornando, algumas perguntas ficam
soltas no ar.
Como foi possível que um País como o nosso tenha chegado a
esse ponto?
Onde estão as figuras “responsáveis” que integram o governo,
que nada falam, nada fazem, a tudo assistem como se se tratasse de uma comédia
bufa ou de um drama de horror? Continuarão escondidos atrás da “prudência”, da
“minimização de danos”, enquanto o fogo se alastra na Esplanada e invade
recônditos inesperados?
Onde estão os democratas ativos e responsáveis, permanecerão
adormecidos, confusos, olhando para urnas, fazendo cálculos mesquinhos, bem
nessa hora em que boa parte do destino nacional pode estar sendo definida? Onde
estão os grandes da República, os chefes das instituições, os defensores das
melhores tradições?
E os eleitores que sufragaram o personagem em 2018,
continuarão a vê-lo como uma solução, como o “mal menor”, agora que o monstro
tomou conta daquele corpo e daquela mente de modo irremediável?

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