O choque entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da
Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é a face mais visível de uma crise de maiores
proporções entre a União e os estados, numa recidiva da velha contradição
centralização versus descentralização. A epidemia de coronavírus e a recessão
mundial dela decorrente exacerbaram o conflito, que se manifesta na discussão
sobre aprovação do chamado Plano Mansueto, ou seja, a ajuda a estados e
municípios. Bolsonaro está em litígio aberto com os governadores e prefeitos
que estão na linha de frente do combate à epidemia de coronavírus e não esconde
o incômodo com o alinhamento entre eles e o ministro Mandetta.
Uma decisão de Bolsonaro é emblemática quanto às
dificuldades que cria para os governadores na implementação da estratégia de
distanciamento social adotada pelo Ministério da Saúde para conter a velocidade
da epidemia. No fim de março, as operadoras de telecomunicações ofereceram ao
Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) um mapa de
calor para mostrar a geolocalização da população. O intuito era identificar
aglomerações e situações de risco de contaminação do novo coronavírus. Bolsonaro
vetou o uso das informações, que seria mais uma arma no combate à Covid-19,
pois o georreferenciamento permite a pronta atuação das autoridades locais para
reduzir essas aglomerações.
O ministro Marcos Pontes chegou a gravar um vídeo anunciando
a implantação do sistema nesta semana. No sábado, porém, Bolsonaro ligou para
Pontes e suspendeu tudo. Alegou que há riscos para a privacidade do cidadão e
que a Presidência precisa estudar melhor o tema, apesar de um parecer da
Advocacia-Geral da União (AGU) aprovar o uso da ferramenta proposta pelas
teles, uma solução semelhante à que foi adotada pela Coreia do Sul, um dos
países com menores taxas de mortalidade pela Covid-19.
A decisão de Bolsonaro tem endereço certo: o governador
tucano João Doria, que está controlando o nível de isolamento social no estado
de São Paulo pelo monitoramento dos celulares. Para se ter uma ideia de como
isso é útil, a diferença de 50% para 70% da população em regime de
distanciamento social, para efeito da propagação da epidemia por pessoa, salta
de uma média de dois para quatro novos contaminados, ou seja, um crescimento
exponencial.
Nada disso importa. A tese que empolga Bolsonaro é a do
ex-ministro da Cidadania Osmar Terra, para quem a epidemia já atingiu o seu
pico e entrará em declínio, acabando em maio, o que não bate com os modelos
matemáticos da equipe do Ministério da Saúde. Segundo Terra, que é médico, o
isolamento social não tem eficácia e apenas aprofunda a recessão, além de
retardar a autoimunização da maioria da população. A tese também está sendo
endossada pelo líder do governo na Câmara, deputado Victor Hugo (PSL-GO), que
vem defendendo abertamente a saída de Mandetta do governo. Ontem, Mandetta não
falou com a imprensa. Sua permanência no governo é incerta.
Ajudas
A estrela da entrevista de ontem no Palácio do Planalto foi a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que anunciou medidas destinadas a proteger grupos de risco, como indígenas, quilombolas, ciganos, moradores de rua e idosos em asilos. Damares também contrariou a orientação do Ministério da Saúde e defendeu o chamado isolamento vertical, ou seletivo, focado nesses grupos. Na ocasião, anunciou a distribuição de cestas básicas e o confinamento de tribos indígenas, quilombolas e acampamentos ciganos, além de uma rede de proteção aos moradores de rua e outras populações de risco, formada por instituições filantrópicas e religiosas.
A estrela da entrevista de ontem no Palácio do Planalto foi a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que anunciou medidas destinadas a proteger grupos de risco, como indígenas, quilombolas, ciganos, moradores de rua e idosos em asilos. Damares também contrariou a orientação do Ministério da Saúde e defendeu o chamado isolamento vertical, ou seletivo, focado nesses grupos. Na ocasião, anunciou a distribuição de cestas básicas e o confinamento de tribos indígenas, quilombolas e acampamentos ciganos, além de uma rede de proteção aos moradores de rua e outras populações de risco, formada por instituições filantrópicas e religiosas.
Mas o maior conflito é mesmo a negociação do Plano Mansueto.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, convenceu Bolsonaro a não ceder a
governadores e prefeitos, que pedem socorro financeiro em razão da queda da
arrecadação. Eles são responsabilizados pela recessão e o desemprego. A queda
na arrecadação é tratada por Bolsonaro como uma espécie de castigo aos
governadores que estão defendendo o isolamento social.
As negociações entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), e os líderes partidários com o governo, nos últimos dias, foram muito
tensas. Guedes foi duro: “O desenho deste projeto é muito perigoso, é um cheque
em branco para governadores e prefeitos fazerem uma gestão descuidada, levando
todo ônus para o contribuinte, justamente no momento em que mais precisamos da
boa gestão para proteger os mais vulneráveis”, declarou.
Rodrigo Maia, entretanto, articulou mudanças no projeto para
garantir a aprovação da nova versão do chamado Plano Mansueto, que foi limitada
à instituição de um seguro-garantia de arrecadação para estados e municípios,
com impacto estimado de R$ 80 bilhões. “A posição que ouvi majoritária entre os
líderes é que nós façamos como se fosse um seguro. Se arrecadação era 100 e
caiu pra 70, o governo recompõe 30. Se daqui a quatro meses a arrecadação era
100 e foi 100 (novamente), o governo não precisa dar um real”, afirmou Maia.

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