Em um mito grego, um monstro chamado Esfinge
aterroriza a cidade de Tebas com um enigma: “Que criatura pela manhã tem quatro
pés, à tarde tem dois e à noite tem três?” Ao que adiciona: “Decifra-me ou
devoro-te.” O mesmo faz Jair Messias Bolsonaro nos dias que correm: lança um
enigma às instituições para ver se elas respondem. Se não o fizerem, serão
devoradas.
Nas últimas semanas, o presidente fez acenos aos seus
seguidores e os encorajou a participar das manifestações de 15 de março contra
o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Ele próprio compareceu em uma delas e
cumprimentou o público. Chegou a compartilhar um vídeo em que elogiava a
iniciativa ao se dirigir a militares, policiais e empresários. Não fosse o coronavírus,
teríamos visto um número muito maior de pessoas manifestando-se a favor do
presidente e contra as instituições da República.
A atuação de Bolsonaro foi criticada pelo estamento
político. O ministro Celso de Mello, do STF, declarou que o presidente não
estava à altura do cargo; o governador de São Paulo, João Doria, criticou
aquilo que chamou de “governo de ódio”. No dia da manifestação, Davi
Alcolumbre, presidente do Senado, e Rodrigo Maia, presidente da Câmara,
criticaram a atuação de Bolsonaro na saúde pública, uma vez que, ao participar
dos protestos e saudar os manifestantes, o presidente da República desrespeitou
os protocolos do próprio Ministério da Saúde para conter a epidemia de
coronavírus.
Em entrevista à CNN Brasil, foi dado ao presidente um largo
tempo de tevê para que esclarecesse sua atitude. Bolsonaro provocou Alcolumbre
e Maia convidando-os a comparecerem nas manifestações também, dizendo que
política se faz por intermédio do povo. Por fim, disse que as negociações
políticas não poderiam ser feitas nos bastidores e sim publicamente, com a
participação da população. O discurso da ligação direta entre o líder e o povo,
que ignora a intermediação das instituições, é a definição mais clássica de
populismo.
O fato de o presidente incitar subversão aos poderes
instituídos pela Constituição faz parte de um movimento mais antigo, que
remonta aos tempos de campanha, quando, repetidas vezes, ele desacreditou os
procedimentos, os pesos e contrapesos da República. Esse movimento coloca as
instituições diante de um enigma: como evitar que Bolsonaro destrua as
instituições sem estimular, com isso, a adesão popular ao presidente?
Repreender exemplarmente Bolsonaro pode aumentar o ódio da
parcela da população que o apoia. Deixá-lo falar abertamente contra as
instituições democráticas pode levar descrédito a essas mesmas instituições.
Mas o enigma de Bolsonaro subiu um degrau quando ele próprio, presidente do
país, apoiou manifestações que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo. É
um ponto-limite que exige uma resposta firme do Congresso.
Do ponto de vista institucional, a resposta mais adequada
talvez seja o impeachment, como sugeriu o governador do Rio de Janeiro, Wilson
Witzel – ex-aliado do presidente, eleito graças ao poderio cibernético do clã Bolsonaro.
O Congresso instauraria um processo de impedimento como resposta para mostrar
que as instituições não tolerarão qualquer discurso e ação golpista por parte
do Executivo.
Tal medida configuraria uma decisão acertada, que
reafirmaria o equilíbrio de poderes: impedir que um eleito de perfil
totalitário se torne um totalitário de fato. A medida transmitiria em alto e
bom som ao país a mensagem de que as instituições de controle são mais fortes
do que os arroubos ditatoriais do Executivo, e por conseguinte as instituições
sairiam mais fortalecidas. Existe, inclusive, embasamento jurídico para
fundamentar o pedido, segundo juristas. No entanto, do ponto de vista político,
aos olhos dos simpatizantes do presidente, um pedido de impedimento confirmaria
a tese de que o Congresso e o STF querem inviabilizar o seu governo.
Consequentemente, esses seguidores se voltariam contra as instituições em
definitivo, abrindo ainda mais espaço para a radicalização.
Uma alternativa, que evitaria a radicalização do movimento
anti-Congresso e anti-STF, seria criticar publicamente essas posturas, sem
tomar qualquer medida concreta contra as ações do presidente – caminho que,
aparentemente, os líderes do Congresso decidiram seguir. Dessa maneira, a
bandeira principal do séquito bolsonarista não encontraria fundamentação, e o
discurso que teima na tese da perseguição ao presidente seria esvaziado.
Entretanto, essa medida coloca as instituições numa postura passiva,
contribuindo para a normalização do discurso antidemocrático.
O enigma, portanto, não pode ser esclarecido recorrendo às
ferramentas clássicas da ciência política. É melhor analisá-lo à luz do
ativismo digital.
A história política dirá se Bolsonaro prepara um
golpe de Estado, um autogolpe, para ser mais preciso. Como qualquer líder
populista, ele cria uma conexão direta com a população, visando colocá-la
contra o Congresso, enquanto busca o apoio das Forças Armadas para fechá-lo. O
presidente peruano Alberto Fujimori, populista eleito como outsider da
política, deu um autogolpe em 1992 e fechou o Congresso.
Mas não acho que Bolsonaro busque um autogolpe, que é um
estratagema daqueles que falharam em criar um movimento verdadeiramente popular
e precisam recorrer a uma força desproporcionalmente maior que a do regime
vigente. Militares dão golpes, pois são politicamente medíocres. Empresários
dão golpes, pois também são politicamente medíocres. O udenismo (corrente
política relacionada à União Democrática Nacional, legenda de direita que
existiu de 1945 a 1965) precisou de golpes para sobreviver, pois sempre foi
incapaz de conquistar a maioria da população.
A ciência política nos mostrará, no entanto, que basta olhar
o mundo atual para verificar que golpes de Estado não são mais dispositivos
úteis para subverter as democracias liberais. No livro Como as
Democracias Morrem, os professores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, da
Universidade Harvard, traçam paralelos entre as táticas hoje utilizadas por
lideranças iliberais em diferentes partes do mundo. Nas Filipinas, o presidente
Rodrigo Duterte persegue jornalistas e prende adversários políticos. Na Índia,
o premiê Narendra Modi, oriundo do grupo nacionalista hindu responsável pelo
assassinato de Mahatma Gandhi, aproveitou sua reeleição para estimular expurgos
e limitar os direitos da minoria muçulmana (que é do tamanho da população
brasileira). Na Turquia, o presidente Recep Erdoğan censura acadêmicos que
ousam falar do genocídio da população armênia realizado pelo governo otomano na
segunda década do século XX. Na Venezuela, Nicolás Maduro mantém seus
adversários políticos na prisão. Nos Estados Unidos, Donald Trump avança sobre
as regras do bom convívio democrático. No Reino Unido, o premiê Boris Johnson
desafia a convenção política, colocando em risco a credibilidade da monarquia.
Casos semelhantes ocorrem em El Salvador, Egito, Hungria, Polônia e, é claro,
no Brasil. Nenhum desses governantes precisou recorrer ao golpismo militar,
bastando a eles ir erodindo pouco a pouco as instituições, com método, rito e
calma.
O liberalismo está morrendo em todas as partes, e no Brasil
não é diferente. Bolsonaro se diferencia, porém, dos outros líderes iliberais
por ter se recusado a estabelecer uma aliança sólida com o estamento político,
ainda que esse fosse o desejo mais íntimo desse estamento. Se tivesse comprado
o apoio de parte das pessoas que ocupam posições estratégicas, por meio da
distribuição de cargos, de emendas ou de doações eleitorais, teria certamente
conseguido acelerar de maneira mais eficiente a erosão democrática. Bolsonaro
fez isso apenas com o Exército agraciando centenas de militares com cargos
comissionados e outros privilégios. O caminho da cooptação do estamento
político foi seguido pelas principais lideranças radicais no mundo, menos pela
nossa. Há quem atribua falta de capacidade de negociação a Bolsonaro, mas eu
concluo que se trata de uma estratégia extremamente calculada da parte dele.
Bolsonaro não quer que a democracia morra como aspiram
outros líderes, em diferentes países. Ele apenas busca outro formato de
democracia. Bolsonaro não precisa dar um golpe porque pode fazer uma revolução
autoritária. A primeira revolução verdadeira da história do Brasil. Muito mais
profunda do que a ocorrida em 1930, quando, apesar da bagunça, no fundo tudo se
resumia a uma disputa entre elites estaduais. Muito mais verdadeira que o golpe
de 1964, em que as Forças Armadas apenas cumpriram o papel daquilo que é
esperado de quase todos os Exércitos que, como o brasileiro, não lutam guerras:
derrubar regimes democráticos e populares. Trata-se de uma revolução de fato, e
não apenas da transformação de um regime democrático em regime autoritário,
como ocorre nos países acima citados.
O presidente está conectado, mas difere de outros
arquétipos de políticos autoritários. Em um texto que publiquei no site da
piauí (“Bolsonaro traz o futuro prometido”) pouco antes do segundo turno da
eleição de 2018 e quando já se apontava a dominância eleitoral de Bolsonaro,
escrevi o seguinte: “O marco zero do futuro será o dia 28 de outubro de 2018.
Um futuro que se desenha também para outras nações, mas do qual os pioneiros
somos nós. O Brasil é a vanguarda de um novo modo de fazer política, da
concretização de um novo programa de verdade que encerra o ciclo histórico do
Iluminismo. A destruição do liberalismo global começa aqui.”
O filósofo Luciano Floridi, da Universidade de Oxford,
defende a tese de que sociedades hiperconectadas vivem a transição da história
para a hiper-história, uma nova era da humanidade em que as categorias de
pensamento e de exercício da política são refundadas à luz das novas
tecnologias. De acordo com o pensador, nessa nova era não há mais distinção
entre o real e o virtual, entre o offline e o online, e as pessoas já não
confiam tanto nas instituições, mas confiam nos perfis das redes sociais.
Seguindo essa lógica, afirmei no texto de 2018 que Bolsonaro seria o primeiro
chefe de Estado da hiper-história, em todo o mundo.
A ciência política institucional foi incapaz de prever o
fenômeno Bolsonaro porque ele não se enquadra em nenhuma evidência que consta
da literatura acadêmica, mas acredito que as ferramentas do ativismo digital
são úteis para compreender o fenômeno. Sua vitória eleitoral se deu
exclusivamente graças às redes sociais, contradizendo os cinco pontos
determinantes para o sucesso eleitoral usualmente apontados pelos politólogos.
Até 2018, a empiria demonstrava que, para um candidato sair vencedor,
precisaria ter uma boa performance durante seu tempo de televisão, firmar-se na
memória dos eleitores, saber lidar com a estrutura partidária, construir alianças
regionais e obter uma boa estrutura de financiamento da campanha. E de
preferência conseguir sair-se bem em todos esses itens.
Bolsonaro tinha muito menos dinheiro, menos tempo de
televisão e uma estrutura partidária praticamente nula se comparada à da maioria
dos candidatos. Tampouco dispunha de um histórico de gestão memorável que
pudesse impulsionar os votos. Dentre os líderes iliberais do mundo, tanto
Erdoğan quanto Modi haviam feito gestões de sucesso em governos locais antes de
serem eleitos para o Executivo nacional. O húngaro Viktor Orbán tinha uma
estrutura partidária formada há décadas e com larga participação em governos
locais e no Parlamento. Duterte contava com o apoio de uma ampla coalizão, que
incluía até partidos de esquerda.
Donald Trump ao menos tinha financiamento, exposição e
alianças durante as prévias do Partido Republicano e fez uso extensivo das
redes sociais para vencê-las. Mas a imagem de Trump como empresário
bem-sucedido foi construída pela televisão, sendo ele portanto muito mais um
depositário da videocracia do que da era digital. Uma vez escolhido nas
prévias, Trump foi abraçado pelos republicanos e teve à sua disposição toda a
máquina do partido nas eleições gerais de 2016.
Bolsonaro é o primeiro líder a governar exclusivamente por
meio das redes sociais. Sua postura beligerante não tem similar, mesmo entre
outros líderes iliberais, que acabaram por estabelecer alianças com o estamento
político para ir corroendo a democracia por dentro. Se o Partido Republicano
ofereceu resistência a Trump durante a campanha de 2016, isso deixou de ocorrer
depois que ele assumiu a Presidência. Apesar das barbaridades cometidas por
ele, apenas os senadores Mitt Romney e John McCain, este já falecido, foram
capazes de enfrentá-lo. O mesmo se pode dizer do estamento político em países
como a Turquia e a Hungria.
Ao contrário desses exemplos externos, Bolsonaro não fez
essa aliança. E isso ocorreu não por resistência do Congresso ou dos partidos
políticos, mas por decisão deliberada dele próprio. O presidente não apenas
nunca teve um partido e uma base legislativa sólidos, como atualmente nem
sequer está filiado a um partido. Como se elegeu graças ao fenômeno digital, é
neste que ele constrói seu modo de governar. Se for bem-sucedido, o Brasil
definitivamente será o primeiro país a ter sua vida política determinada pelos
parâmetros da hiper-história.
Bolsonaro provou haver uma nova forma de ser eleito,
e agora tateia na busca de uma nova forma de governabilidade própria à era
digital. Sua estratégia – típica do ativismo – é tentar converter o apoio que
tem nas redes online em mobilização offline e constante. Existem três grandes
desafios para quem pratica o ativismo em tempos de mídias sociais: primeiro, a
formação de uma base de apoio que chamaremos de constituency;
segundo, de canal; e terceiro, de continuidade e profundidade do engajamento.
No tempo da tevê e da comunicação de massa, o importante era
falar para o maior número de pessoas, seguindo a lógica do broadcasting –
de um para muitos. As redes sociais funcionam a partir da lógica do multicasting –
de muitos para um. Ou seja, o que importa é conseguir falar com constituencies específicas.
É complexo chegar nelas, pois as redes sociais replicam a atomização da
sociedade em uma plataforma. Cada pessoa é um perfil que se relaciona a
distância e transacionalmente com outro perfil – um e outro refletindo os seus
gostos particulares, sua personalidade e sobretudo sua opinião. A arquitetura
de redes sociais está desenhada de tal modo que elas estimulam a
hiperindividualização: por um lado, o perfil (a pessoa) é estimulado a revelar
constantemente suas preferências, por outro tende a apenas se comunicar com
aqueles que pensam de forma parecida com ele – fenômeno chamado pelo empresário
e ativista Eli Pariser de filter bubble (bolha de filtro).
Do ponto de vista do ativista que quer formar um movimento,
as redes sociais são difíceis de penetrar. Mas existem duas estratégias para
romper a filter bubble e alinhar audiências diferentes. A
primeira é conquistar seguidores a partir de suas opiniões. Sabe-se que algumas
plataformas de redes sociais privilegiam o conteúdo que gera mais interação
logo depois de sua postagem. Isso favorece postagens que chamem muito a
atenção, entre outros motivos por serem sensacionalistas ou contrariarem o
“senso comum” e o “politicamente correto”. Quanto mais absurdo o conteúdo da
mensagem, mais interações ela gera. Quanto mais interações, maior o seu
alcance. Quanto mais numerosa a audiência, maior a capacidade de reunir seguidores.
A segunda estratégia é fidelizar esses seguidores, criando
proximidade com ele. A partir do momento em que obtém muitos seguidores, o
perfil se torna um influencer, isto é, um perfil seguido por muitos
perfis. Manter esses seguidores ativos e sempre em interação é fundamental. De
modo que o melhor a fazer é compartilhar tudo que se pode, o tempo todo,
trazendo o seguidor para mais perto, quase como se ele assistisse a um reality
show do qual o influencer é a estrela, capaz de dar opiniões
instantâneas sobre tudo que está sendo debatido, de compartilhar momentos
íntimos de sua vida e aproximar os seguidores cada vez mais de seu dia a dia.
Bolsonaro se constituiu como um brilhante influencer,
e foi assim que se elegeu. Para fidelizar o público e mantê-lo constantemente
engajado foi necessário criar uma trajetória de herói que as pessoas pudessem
acompanhar: com adversários, obstáculos, provações e grandes emoções. Mas não
basta ser apenas um influencer extraordinariamente ativo: o
segredo é fundir diversas filter bubbles em uma só, cujo único
denominador comum é o influencer. Assim, este se transforma em
canal de comunicação e principal fonte de informação. É como se fosse um mundo
paralelo, um simulacro de realidade, em torno do qual giram uma miríade de blogs,
perfis e influencers. Durante as eleições, Bolsonaro se constituiu
como um canal assim e soube habilmente fundir bolhas diferentes: dos
neoudenistas da luta contra a corrupção aos neopentecostais e aos fascistas.
Desde sua eleição, Bolsonaro tem como meta se constituir
como canal dominante de uma parcela importante da população. Cada ato seu na
Presidência é pensado como um modo de consolidar e expandir uma
gigantesca filter bubble que dele dependa. Para isso foi
necessário abrir uma guerra contra a imprensa e contra as instituições,
transformando qualquer crítica ou denúncia de corrupção a ele dirigida em
mensagem inválida para seu público. O objetivo da Presidência com suas
“pautas-bomba” não é aprová-las, mas apenas gerar discórdia.
Todas seguem sempre o mesmo fio lógico: quanto mais
propostas absurdas são apresentadas, mais a imprensa e as demais instituições
são obrigadas a criticar e tentar impedir os atos do presidente. Dessa maneira,
a narrativa de Bolsonaro de que é perseguido pela mídia e as instituições se
confirma o tempo todo para o público de seus canais na internet. Dentre todas
as pautas-bomba, talvez a mais reveladora tenha sido a tentativa de nomear
Eduardo Bolsonaro embaixador dos Estados Unidos. Não acredito, sinceramente,
que Bolsonaro quisesse nomear o filho embaixador: queria apenas forçar uma
enxurrada de críticas de seus previsíveis opositores. Fato é que nenhuma das
“pautas-bomba” foi aprovada pelo Congresso, o que leva a nossa elite
intelectual e a imprensa a elogiarem a resistência das instituições.
Alguns analistas políticos dizem que as instituições
estão resistindo, dado que Bolsonaro não conseguiu emplacar nada além de parte
da agenda econômica – e isso é verdade. Outros afirmam que as instituições não
estão aumentando o custo do golpismo de Bolsonaro: as declarações do presidente
e de seus ministros não costumam surtir nenhum efeito prático – e estes também
têm razão. As instituições estão bloqueando as ações concretas, mas deixando
passar declarações totalmente absurdas. Ou seja, exercem o contrapoder de um
lado, e deixam de exercê-lo de outro.
O ano de 2019 foi marcado por esse estranho equilíbrio
geral. Detrás das aparentes batalhas se justapuseram confortavelmente dois
conceitos diferentes de comunicação e dois conceitos diferentes de poder. As instituições
saíram ganhando nesse conflito, mas Bolsonaro também foi vencedor. O importante
para Bolsonaro não é aprovar políticas públicas, apenas autorizar um horizonte
aspiracional às suas bases políticas. Bolsonaro ganha apenas propondo. O
Congresso ganha apenas impedindo que seja aprovado. Todos ganham.
No ativismo digital, trabalha-se com a noção de “curva de
engajamento”: sabe-se que para manter as pessoas engajadas e a audiência atenta
é necessário oferecer ações sempre mais profundas para seus seguidores. Se no
início um seguidor curtiu os posts de Bolsonaro, ele rapidamente passou a
assistir todos os vídeos de Bolsonaro, para em seguida se informar unicamente
por meio de blogs bolsonaristas, e por fim ir às ruas no dia 15 de março
defender o presidente. Essa foi a curva traçada por Bolsonaro: começar
como influencer, que em seguida se torna canal dominante para, ao
final, galvanizar esse canal em uma infraestrutura de mobilização constante.
“Infraestrutura de mobilização” é aquilo que permite conformar maiorias
políticas. Na revolução bolsonariana, as eleições não servem para conformar
maiorias, apenas para legitimar institucionalmente a capacidade de organização
e mobilização dessas infraestruturas armadas na internet. É por meio delas que
pretendem viabilizar uma nova forma de governo que não passe pelas
instituições, mas apenas pela vontade de minorias politicamente organizadas.
Governar para aqueles que gritam mais alto.
As bases às quais Bolsonaro acena são sempre as compostas
por pessoas em posição de poder: brancos, homens, heterossexuais e gente
armada, como militares e policiais. O denominador comum desses grupos é o poder
que exercem sobre a sociedade.
De um lado, Bolsonaro se aliou aos pequenos poderes; de
outro, aos grandes, como o empresariado e o mercado financeiro. Ele teve a
inteligência de entender que seria necessário deixar os grandes poderes agirem
livremente, de modo que não impedissem a sua revolução. Apesar de nacionalista
e intervencionista, Bolsonaro entregou as chaves da economia a esses grandes
poderes como jamais nenhum governo liberal e conservador foi capaz de fazer. A
aliança dos pequenos poderosos da sociedade com os grandes poderosos do
capital, numa sólida formação de maioria política conectada e engajada 24 horas
por dia, tornou-se um movimento impossível de ser detido.
A crise do coronavírus abriu uma possibilidade
extraordinária para o presidente expandir a sua bolha para camadas mais
populares. Consciente de que a única chance de o país não viver um colapso na
saúde pública são as medidas de distanciamento social implementadas por
governos locais, Bolsonaro faz uma aposta arriscada porém certeira: criticar
essas medidas para tomar a frente da revolta popular que, na ausência de uma
política assistencial para compensar as perdas de renda provocadas pelas
medidas de contenção ao vírus, inevitavelmente emergirá. Bolsonaro joga com
essa convulsão e, quando ela ocorrer, poderá dizer que ele sempre alertou para
os perigos da “histeria” dos governadores e da imprensa, canalizando a onda de
revolta em favor de sua figura. Os vilões que causaram a crise econômica serão
as instituições e a imprensa que exageraram e agiram com paranoia.
O equilíbrio geral de 2019 não pode se sustentar em 2020,
pois todo engajamento de rede social é superficial e efêmero. Se a internet
permite falar com um público muito mais diverso, também traz uma dificuldade
extra: a fragilidade e a superficialidade do engajamento. Como manter as
pessoas engajadas ao longo do tempo? Para engajar seus seguidores de maneira
concreta e profunda, Bolsonaro precisa subir mais um degrau.
Uma lição básica de todo ativismo digital é que, para
converter uma audiência passiva em um movimento ativo, é necessário que exista
um ponto de tomada de decisão real. Esse ponto imprime urgência e gera no
público o que os ativistas chamam de “medo de perder”, isto é, o medo que as
pessoas têm de ver uma situação se deteriorar, seja por uma perda de direito,
de status ou ainda de poder. No ativismo, as pessoas se cansam quando são
instadas a se mobilizar em cima de suposições e teorias conspiratórias. Para
fazer o caldo entornar, é preciso uma ameaça concreta e urgente. Bolsonaro
perderá tração sobre sua filter bubble se ficar repetindo o
mesmo discurso em que se faz vítima da perseguição do Congresso, do STF e da
mídia sem ter nenhuma fundamentação concreta. É necessário que um fato novo
emerja e gere urgência nas bases do bolsonarismo.
A instauração de um processo de impeachment é o ponto de
decisão urgente que Bolsonaro precisa para conseguir mobilizar de maneira
profunda e constante a integralidade de seus apoiadores. Com isso, ele ganhará
seis meses de intensa mobilização de suas bases, com engajamento cada vez mais
profundo dos seguidores. Terá vilões perfeitos que estarão explicitamente
engajados em derrubá-lo. Com o impeachment, Bolsonaro coloca as instituições
contra a parede e põe em marcha a revolução.
Assim deve ser lido o pronunciamento de Bolsonaro da noite
do dia 24 de março: como um apelo desesperado à instauração do processo de
impeachment contra ele. A sua atuação na crise do coronavírus, contrariando as
recomendações das autoridades sanitárias e científicas, segue o mesmo vetor
estratégico das pautas-bomba, das suas declarações anti-democráticas, da
convocação de manifestações contra as instituições. A cada nova polêmica, ele
elege um novo adversário e o instiga a uma atuação mais enérgica. Se suas
ameaças contra as instituições democráticas ou nosso patrimônio ambiental não
foram motivos suficientes para o impedimento, Bolsonaro dobra a aposta agora e
se apresenta como uma ameaça sanitária. Desse modo, obriga os adversários que
ele mesmo escolhe – o Congresso, o Supremo, a imprensa, e agora também os
governadores – a tomarem uma medida mais drástica contra a sua atuação.
O enigma colocado ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal
é ingrato. Se estes promoverem o impedimento de Bolsonaro, fortalecerão o
movimento revolucionário do presidente, levando o país ao caos geral. Se não
instaurarem logo um processo de impeachment, terminarão por normalizar mais uma
medida autoritária de Bolsonaro, deteriorando a credibilidade das instituições
e pavimentando o solo para a construção orgânica da revolução. Não há outro
desfecho possível do bolsonarismo que não a guerra. Se for derrotado em 2022,
Bolsonaro não aceitará o resultado das urnas. Qualquer que seja a resposta dada
pelas instituições, o presidente-esfinge as devorará.
O ano de 2020 parece um remake do 1938 europeu, com atores
de qualidade inferior. A ambição colonial de Hitler e Mussolini na Europa já
estava clara quando o primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain concedeu à
Alemanha nazista a anexação da Tchecoslováquia em troca da paz no continente.
Naquele momento, o então parlamentar Winston Churchill fez uma afirmação que se
confirmaria: “Entre a desonra e a guerra, eles [os ingleses] escolheram
a desonra e terão a guerra.” Resta saber se Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre
estão mais para Chamberlain ou Churchill.
Cientista político, é cofundador da rede Meu Rio e diretor
da ONG Nossas

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