Na confusão de vozes inflamadas que quebraram, ontem, o
silêncio dominical da Esplanada dos Ministérios para renovar seu apoio ao
presidente Jair Bolsonaro, destacaram-se três, duas delas masculinas, que de
cima de um carro de som, decorado com a faixa “Fora Maia”, em alusão ao
presidente da Câmara dos Deputados, dispararam as frases mais emblemáticas da
manifestação.
Um homem disse:
“Querem botar a culpa no povo por que pediu ajuda ao
Exército? Para quem vamos recorrer? Será que temos que recorrer aos Estados
Unidos? Se for preciso vamos recorrer ao Exército dos Estados Unidos”.
Outro falou, certamente sem saber que Bolsonaro deposita sua
esperança de completar o mandato justamente na ala mais fisiológica do
Congresso, o conjunto de partidos conhecido como Centrão:
“Moro nunca passou de uma ferramenta do PSDB e do Centrão
para tomar de volta o Palácio do Planalto. Mas Bolsonaro atrapalhou o esquema
deles”.
A mulher foi mais explícita no seu repúdio ao que fez o
ex-ministro da Justiça ao sair do governo atirando no presidente da República:
“O ex-ministro Moro, que é sujo e comunista, nunca fez nada
pelo Brasil. Ficou lá sentado e acovardado”.
Rodrigo Maia (DEM-RJ) dividiu com Moro a fúria expressa em
faixas e cartazes exibidos pelos apoiadores de Bolsonaro. Mas Moro, mais do que
Maia, foi o principal alvo dos insultos e xingamentos. A manifestação atraiu
pouca gente.
Desta vez, Bolsonaro não compareceu. Passou o dia em
reuniões no Palácio do Alvorada para decidir quem substituirá Moro no
Ministério da Justiça e da Segurança Pública, e o delegado Maurício Valeixo na
direção da Polícia Federal.
Se não arredar pé do que quer, Jorge Oliveira, advogado que
nunca se destacou por seus conhecimentos jurídicos, irá para o lugar de Moro. E
o delegado Alexandre Ramagem, diretor da Agência Brasileira de Inteligência
(ABIN), sucederá a Valeixo.
É a solução mais caseira possível e a que dará ao clã
Bolsonaro a proteção que ele se queixa de não ter recebido da dupla
Moro-Valeixo. O pai de Oliveira foi empregado de Bolsonaro. Oliveira também foi
na Câmara dos Deputados.
Atual ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da
República, Oliveira cresceu ao lado dos filhos de Bolsonaro. Serviu a um deles,
Eduardo, o Zero Três, como chefe do seu gabinete na Câmara. É como se fosse um
membro da família presidencial.
Ultimamente, tem admitido a parentes e amigos sua irritação
com a maneira como Bolsonaro trata os ministros que o cercam mais de perto e
com os quais tem maior intimidade. Trata aos gritos e muitas vezes dá ordens
que mais tarde revoga sem aviso prévio.
Faria bem para Oliveira distanciar-se fisicamente de
Bolsonaro. É o máximo que ele pode ambicionar. Sabe que não terá autonomia para
tocar o Ministério da Justiça. Ali, será um pau mandado de Bolsonaro como
sempre foi ao longo de sua vida.
Igual papel está reservado para Ramagem que cuidou da
segurança pessoal de Bolsonaro depois da facada em Juiz de Fora. Graças a
Carlos, o Zero Dois, foi parar na ABIN e virou interlocutor diário do
presidente, informando-o sobre o que possa lhe interessar.
A indicação de Oliveira para a vaga de Moro ainda encontrava
a resistência dos generais do Palácio do Planalto que preferem preenchê-la com
um jurista de reconhecida competência. A de Ramagem para a vaga de Aleixo é
prego batido, ponta virada.
É sempre arriscado afirmar algo quando o dono da caneta é
Bolsonaro. Moro viu seu nome abaixo do nome do presidente na portaria de
demissão, a pedido, de Aleixo publicada no Diário Oficial. Nem ele assinou a
portaria nem Aleixo pediu demissão.
Feito de bobo, Moro se prepara para depor no Congresso
Onde ele estava com a cabeça quando aceitou ser ministro?
Jamais o ex-juiz Sérgio Moro admitirá em público. Pegaria
mal para ele. No mínimo seria chamado de ingênuo ou de coisas piores. Mas em
conversas com amigos e antigos auxiliares, ele bate no peito e diz que acabou
fazendo papel de bobo.
Acreditar em Jair Messias Bolsonaro, um ex-capitão afastado
do Exército por indisciplina e conduta antiética, um político do baixíssimo
clero nos seus 28 anos como deputado federal, que só se destacava por sua estridência…
Onde estava a cabeça de Moro quando aceitou o convite de
Bolsonaro transmitido pelo futuro ministro da Economia Paulo Guedes? Moro votou
em Bolsonaro no segundo turno para evitar a volta do PT ao poder. A maioria de
sua turma da Lava Jato votou.
Mas renunciar à toga para servir a um político ao qual deu
as costas no aeroporto de Brasília durante a campanha? Bolsonaro só queria
cumprimentá-lo e, se possível, gravar um vídeo do abraço. Moro nem trocou
palavras com ele naquela ocasião.
Nega, por tudo o que é mais sagrado, que tenha aceitado o
convite em troca de ser nomeado para a primeira vaga de ministro que se abrisse
no Supremo Tribunal Federal. Se não houve a proposta explícita da vaga,
insinuada ela foi.
Ao contrário do que corre, não está decidido a entrar para a
política candidatando-se à sucessão de Bolsonaro. Primeiro porque não sabe se
Bolsonaro chegará a 2022 no cargo. Segundo porque não está convencido de que
seria uma boa para ele.
Está sendo assediado para filiar-se a partidos. No momento,
só pensa no que deverá dizer quando for chamado a depor no Congresso sobre as
acusações que fez a Bolsonaro. Não está preocupado com provas. Ele as tem em
quantidade suficiente.

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