A crise nos permite distinguir entre as verdadeiras e as
falsas lideranças. A verdadeira liderança mobiliza as pessoas para enfrentar os
reais problemas e não minimiza os sacrifícios e as perdas que a sociedade terá
de enfrentar para construir um futuro melhor. O verdadeiro líder usa a sua
influência para fomentar a cooperação entre os setores público e privado e
orquestra o esforço coletivo do governo e da sociedade civil na busca de
soluções concretas para superar os desafios da crise.
As falsas lideranças minimizam os reais problemas e sufocam
as iniciativas dos seus liderados porque não querem perder o protagonismo. Elas
se preocupam em cultivar o aplauso dos seus seguidores, em vez de desafiarem as
pessoas a se engajar na resolução dos reais problemas. Infelizmente, a crise
produziu uma supersafra de falsas lideranças. São toneladas diárias de decisões
e declarações irresponsáveis que agravam a já debilitada situação econômica e
social de um país dilapidado pelo populismo de esquerda e de direita. Mas a
crise revelou também verdadeiras lideranças, como o governador do Rio Grande do
Sul, Eduardo Leite.
Discreto, Leite evitou os holofotes das contendas nacionais
com o governo federal e focou sua atenção e seu esforço em seu Estado. Enquanto
o governador do Rio de Janeiro aprovou um aumento salarial do funcionalismo
público, o governador do Rio Grande do Sul cortou o próprio salário em 30% e
pediu a seu secretariado que lhe seguisse o exemplo. Enquanto o presidente da
República polemizava com o seu ex-ministro da Saúde e os governadores, na
imprensa, e tornava inviáveis as ações coordenadas dos governos federal e
estaduais, Eduardo Leite buscou o diálogo e a união entre o governo estadual, o
setor privado e as lideranças da sociedade civil.
Essa união foi vital para o Estado enfrentar a crise. O
governador criou o Conselho da Sociedade, para dar respaldo ao gabinete de
crise do governo. Falsas lideranças criam conselhos para fazer propaganda de
seus feitos e pedir dinheiro ao setor privado. Verdadeiras lideranças concebem
esses fóruns para escutar as demandas e preocupações da sociedade e explicar as
ações do governo. O Conselho da Sociedade reuniu informações, conhecimento,
recursos para ajudar o governador a tomar decisões importantes.
A diferença entre o verdadeiro e o falso líder é que o
primeiro toma decisões com base em dados, fatos e evidências, enquanto o
segundo se baseia nas sondagens da opinião pública, no termômetro das redes
sociais e no seu feeling pessoal. No Rio Grande do Sul foi
realizada uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas para
averiguar o número de gaúchos infectados pela covid-19. Foram testadas 4.189
pessoas em diversas cidades; apenas duas delas deram positivo. Com esses dados,
estima-se que existam 5.560 pessoas infectadas num Estado de 11 milhões de
habitantes. Criou-se também um painel de controle com os principais indicadores
de saúde, segurança, econômico e social do Estado para balizar as decisões do
governo. Esses indicadores servirão de base para o governador promover a
abertura controlada do Estado a partir de 1.º de maio.
Essa relação de confiança, transparência e diálogo franco do
governador com o poder público e a sociedade civil nasceu muito antes da crise.
Assim que assumiu o governo do Estado, Eduardo Leite enviou à Assembleia
Legislativa um orçamento deficitário, que abriu um debate importante sobre as
necessidades, prioridades e os cortes orçamentários que teriam de ser feitos
para conciliar o desejo dos deputados com a realidade dramática das finanças
estaduais. Com firmeza, paciência e muito diálogo com os parlamentares e
diversos segmentos da sociedade, Eduardo Leite construiu consenso político em
torno do corte de despesas e da aprovação das reformas previdenciária e
administrativa no Estado.
O governo gaúcho incluiu todas as categorias do
funcionalismo público na reforma previdenciária, os militares incluídos. A
reforma administrativa determinou um novo estatuto dos servidores públicos que
acaba com privilégios, como as gratificações por incorporação, os acréscimos
dos anuênios e reajustes automáticos de salários. Além disso, alterou o
estatuto do magistério, permitindo estancar o aumento em cascata do
salário-base para toda a categoria - inclusive os inativos - e oferecer um
salário melhor para os professores entrantes na carreira. As reformas do Rio
Grande do Sul foram as mais profundas e ousadas de todos os Estados
brasileiros.
Exemplos como o governador Eduardo Leite revelam que as
verdadeiras lideranças do País emergirão dos governos locais e da sociedade
civil. São líderes que estão na ponta, enfrentando os reais problemas,
inspirando as pessoas com suas ações e seus exemplos, mobilizando a sociedade
civil em torno de soluções inovadoras. As verdadeiras lideranças renovam a esperança
de sairmos da crise mais confiantes na democracia e na nossa capacidade de
sepultar as falsas lideranças pelo voto.
* FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA (CLP),
É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS - DO PAÍS QUE SOMOS PARA O BRASIL
QUE QUEREMOS’

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