Nem sempre tenho chance de falar sobre tudo isso que está
acontecendo. Quero dizer, limito-me a comentar todos os dias apenas alguns
aspectos de uma realidade que me desafia, ou, se quiserem, me atropela.
Nesta semana tive a chance de conversar com o embaixador
Marcos Azambuja, num encontro promovido pelo Centro Brasileiro de Relações
Internacionais. Além da amizade, partilhamos um certo senso de humor, que
sobrevive mesmo nestas horas sombrias.
Trabalho com a questão ambiental desde a década de 1970. Sei
que as pessoas têm certa dificuldade em reconhecer um perigo invisível. Foi
assim no desastre de Chernobyl. Muitos europeus não acreditavam que o próprio
leite que consumiam poderia estar contaminado. Em Goiânia não era tanto a
invisibilidade, mas a sedução de uma pedra brilhante (césio-137) que enganava
as pessoas na Rua 57.
Com Chernobyl acentuou-se o declínio das classes dirigentes
soviéticas. A epidemia de coronavírus não trouxe desgaste do mesmo nível para o
PC chinês. Há um vácuo da presença americana, uma vez que o país abandonou suas
pretensões de liderança e refugiou-se no lema America first. Coube a uma
potência média, a Austrália, com apenas 25 milhões de habitantes, lançar uma
iniciativa internacional para apurar a responsabilidade da China.
Quem gostava muito de comparar a Austrália com o Brasil era
Lionel Brizola. Não é minha intenção. A Austrália tem um governo conservador e
a China como seu maior parceiro comercial. No entanto, encarou o problema e
ainda por cima unificou as forças políticas internas, num esforço comum.
O governo brasileiro censura a China nos bastidores e nas
redes sociais, algo bastante imaturo. Nesse caso, o melhor seria ficar calado.
Mas o pior foi a incapacidade de encontrar uma resposta
nacional e solidária no combate ao coronavírus. A política de negação da
extrema direita internacional acabou encontrando no Brasil sua face mais rude.
Bolsonaro negou a importância da pandemia, afirmando que não
passava de uma gripezinha. Consequentemente, negou toda a política de
isolamento social, estimulando seus seguidores a combatê-la.
Quando surgiram as primeiras mortes e depois elas foram se
acumulando, o processo de negação estendeu-se aos próprios mortos. Seria mesmo
tanta gente ou estava havendo uma superestimação?
Com as imagens dos caixões vieram novas dúvidas: existe
gente dentro ou são caixões cheios de pedras? Em Minas foi divulgado o vídeo de
uma testemunha vendo pedras em caixão. Certamente, uma militante paga. Uma
deputada federal chegou a afirmar que um caixão no Ceará estava vazio.
Assim como nega o coronavírus em todas as etapas, Bolsonaro
quer passar para a nova fase, como se ele não tivesse devastado a saúde dos
brasileiros, sem planos de transição. O Brasil tornou-se um caso internacional.
Reportagens, memes, comentários escandalizados na TV estrangeira, Bolsonaro aos
poucos se transforma em vilão mundial. Essa é uma das razões por que o título
da nossa conversa é a tempestade perfeita. O vírus no Brasil metamorfoseou-se
em molécula política.
Muitos dizem que a pandemia é o grande drama que vivemos
desde a 2.ª Guerra Mundial. Mas, se observamos aquele período, a situação do
Brasil é pior. Vargas custou, mas encontrou seu rumo. Bolsonaro simplesmente
não consegue sintonia com o esforço nacional na luta contra o coronavírus. O
Brasil não era um dos principais protagonistas da guerra, mas está se tornando
uma das principais vítimas da pandemia.
Estamos, como todo mundo, sepultando sonhos. Não importa que
tipo de futuro o coronavírus nos permitirá, também ficaremos mais pobres.
Pela minha experiência, a pobreza não é tão terrível quando
mantemos nossa vida amorosa e intelectual em bom nível. O problema será viver
num país em que a pobreza material inevitável é seguida de um debate político
desolador, uma permanente troca de insultos. De qualquer maneira, a alegria de
se descobrir vivo quando atravessarmos este túnel talvez compense todo o susto
e a tristeza.
A ideia de que o coronavírus nos tornaria a todos melhores
pessoas é uma ilusão. Todos os grandes problemas do Brasil, incluída a
corrupção, estão em vigor neste período. Ao lado de um louvável movimento de
solidariedade, é bom lembrar.
O que pode acontecer, entretanto, é uma chance de
negociarmos prioridades, uma vez que a pandemia revelou não apenas a profunda
desigualdade social, mas como ela bloqueia o futuro. Quem sabe, também, no
final do processo, será possível restabelecer o papel da ciência e do esforço
intelectual, ambos tão estigmatizados pelo populismo de direita.
Quando digo papel da ciência não estou pensando em
mitificá-la ou transformá-la em nova religião, apenas reconhecer sua
importância e continuar trabalhando nas esferas em que atuamos, cheias de
incertezas e imprecisões.
Somos uma geração de risco, em todos os sentidos. Espero que
possamos sair de casa bem rápido, pois ainda há muito que fazer. Sobretudo
depois que nos apegamos tanto à vida, “à vida apenas, sem mistificação”, como
dizia o poeta.
Dito isso, creio que, por algum tempo, posso voltar aos
detalhes cotidianos.
Artigo publicado no Estadão em 15/05/2020

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