Não se atreva a discordar ou fazer críticas ao presidente.
Você entra na mira das milícias digitais do capitão. Nem mesmo ministros do seu
próprio governo escapam dessa perseguição destruidora de reputações. São
ataques anônimos que veiculam mentiras, falseiam a realidade e seguem um
método: primeiro sua credibilidade é atacada, depois eles te intimidam; com sua
reputação minada, os ataques virtuais se transformam em ameaças físicas e aos
seus familiares.
Para atacar seus desafetos, o presidente e seus filhos
montaram dentro do Palácio do Planalto uma espécie de Agência Brasileira de
Inteligência paralela, que elabora dossiês contra adversários e opositores.1 Essas
informações vão para o Gabinete do Ódio, instalado no terceiro andar do
Planalto. É aí que são produzidas as fake news e as campanhas
do ódio, segundo a relatora da CPI das Fake News, deputada Lídice da Mata
(PSB-BA).
Numa concepção de que estão em guerra na defesa de uma pauta
de costumes e do próprio governo, e de que na guerra vale tudo, o importante é
destruir os inimigos políticos, mesmo que para isso se utilizem de mentiras e
ataques ultrajantes.
Segundo a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), o Gabinete do
Ódio é coordenado pelos filhos Carlos e Eduardo, e conta com a participação do
assessor especial da Presidência, Felipe Martins, e de três assessores de
Carlos: Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz.
Conta também com a colaboração de Olavo de Carvalho.
As informações digitais se converteram em armas e são usadas
sem nenhuma ética por essa extrema direita. Pessoas são bombardeadas com
desinformação sobre os “inimigos do poder”. São conteúdos racistas, sexistas,
calúnias e falsas acusações. E para disseminá-los usam contas falsas e robôs.2
Desinformação é o conteúdo destinado a confundir.
Cibermilícias são parte de campanhas mais inclusivas, envolvendo novos websites
que parecem independentes, mas que se abastecem das mesmas fontes, todos
impulsionando a mesma agenda. Um exército de trolls, cyborgs e bots,
que se fazem passar por pessoas e replicam as mesmas mensagens.3
Ainda segundo a denúncia da deputada Joice Hasselmann, Jair
Bolsonaro conta com 1,4 milhão de robôs que impulsionam seu Twitter, e Eduardo,
com 468 mil.4
Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro e pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo analisando
os apoiadores de Jair Bolsonaro no Twitter no dia 15 de março, que o
homenageavam com a expressão #BolsonaroDay, identificou que, das 66 mil menções
favoráveis ao presidente, 55% eram produzidas por robôs programados para
viralizar suas mensagens. Foram identificadas 1.700 contas que reproduziram a
mensagem #BolsonaroDay e foram desativadas horas depois da mensagem emitida. As
contas foram utilizadas por robôs, bots, que emitiram 22 mil
mensagens a favor de Bolsonaro.5
O Gabinete do Ódio, essa estrutura de manipulação da opinião
pública, não foi montado depois da eleição. Ele foi trazido para dentro do
Planalto, mas sua atuação vem de antes, e foi determinante para a própria
eleição do capitão.
Há indícios de que a Cambridge Analytica, empresa
especializada em manipular a opinião pública com base nos dados pessoais dos
usuários do Facebook, teve atuação na campanha de Bolsonaro. Segundo Brittany Kaiser,
ex-funcionária da Cambridge Analytica, a empresa chegou a negociar com um
candidato à Presidência nas eleições de 2018.
Segundo o ex-presidente da Cambridge Analytica, Alexander
Nix, as táticas de microssegmentação de anúncios podem garantir o sucesso de
uma campanha política se usadas desde o início. Se o trabalho de convencimento
começar dois anos antes, a vitória é praticamente garantida. Com um período de
um ano a nove meses, as chances de vitória são muito boas. Mas os efeitos já se
podem sentir com seis meses de trabalho, e você pode vencer o pleito.
Steve Bannon, o mentor da Cambridge Analytica, tem uma
relação próxima com a família Bolsonaro. É possível que ele tenha orientado a
campanha presidencial e continue apoiando a ação do Gabinete do Ódio pela via
da microssegmentação das fake news.
A instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as
Fake News no Congresso já teve resultados curiosos. Segundo Dias Toffoli,
presidente do Supremo Tribunal Federal, com a instalação do inquérito, os ataques
a ministros reduziram 80%.6 Mais uma evidência da centralização
das iniciativas.
1 “Bebianno acusa Carlos Bolsonaro de montar Abin paralela
para espionar opositores”, Blog do Ricardo Antunes, 3 mar. 2020. Reproduz
declaração feita por Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria Geral da
Presidência do governo Bolsonaro, no programa Roda Viva, da TV
Cultura de São Paulo.
2 Peter Pomerantsev, “This is not propaganda – Adventures in
the War Against Reality” [Isto não é propaganda – Aventuras da guerra contra a
realidade], Faber & Faber, Londres, 2019.
3 Ibidem.
4 “O que é o ‘gabinete do ódio’ que virou alvo da CPMI das
Fake News”, Gazeta do Povo, 23 abr. 2020.
5 Conversa Afiada, 3 abr. 2020.
6 “Ministro do STF cobra explicações de Bolsonaro”, Valor, 23 mar. 2020.

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