Era sabido que o ingresso dos militares no governo Jair
Bolsonaro, com papel político central e presença em praticamente todas as áreas
da administração, seria um marco histórico, para o bem ou para o mal. A narrativa
de que os papéis da instituição e de seus integrantes (da ativa ou da reserva)
não se confundem já era falsa em tempos de normalidade democrática e sem uma
emergência de saúde pública e econômica instalada.
Na atual conjuntura, em que o presidente afronta o bom
senso, as regras sanitárias, as decisões judiciais, os Poderes e a própria
Constituição dia sim, outro também, sem descansar nem nos fins de semana, a
presença dos generais em postos de comando apequena o papel que as Forças
Armadas, disciplinadamente, vinham cumprindo desde a redemocratização: o de
zelar pela ordem constitucional.
Esses generais se sentiram afrontados por terem sido
arrolados como testemunhas num inquérito que investiga se Bolsonaro cometeu
graves violações a essa mesma Constituição ao exigir de Sergio Moro controle da
Polícia Federal com fins inconfessáveis.
Mas não demonstraram a mesma indignação com esses e outros
atos do presidente que, se esperava, iriam aconselhar e guiar, mas que, hoje se
vê, apenas adulam, como avôs amorosos que agem com condescendência diante das
diabruras de netos levados.
Em plena crise, o Palácio do Planalto se transformou em
creche presidencial. A AGU passou a semana dedicada a tirar da cartola toda
sorte de recursos para:
1) impedir que Bolsonaro tenha de mostrar à nação seus
exames para covid-19, como decidiu a Justiça;
2) impedir que o vídeo de uma reunião do presidente da
República e do vice com todos os ministros em meio a uma emergência nacional
fosse entregue ao Supremo, e 3) insistir com o STF pela inexplicável (pela
ótica republicana) obsessão presidencial em colocar Alexandre Ramagem à frente
da Polícia Federal, mesmo depois de já ter nomeado seu preposto para o cargo.
É papel subalterno, que não condiz com uma estrutura de
Estado. O advogado-geral deveria ter a independência de dizer ao presidente que
certas batalhas são inócuas do ponto de vista jurídico e tóxicas do político.
Mas não: Bolsonaro troca as peças de modo a que os novos ocupantes de cargos
entendam que ou atendem seus desejos ou estão fora.
O que nos devolve ao triste papel dos generais. Diante das
decisões tomadas, eles se verão nos próximos dias em duas circunstâncias
constrangedoras, que em nada condizem com os princípios rígidos da hierarquia
militar, pautada pela disciplina e pela seriedade.
Além de terem de depor num inquérito e defender Bolsonaro,
podem ser expostos aos olhos do País participando de uma reunião ministerial
que, segundo relatos dos presentes, mais se assemelhou a um show de horrores,
com o presidente vociferando seus caprichos e instando auxiliares e cometerem
infrações e ministros batendo boca entre si, xingando integrantes do STF ou
afrontando a China.
E o que esses supostos conselheiros fizeram diante dessa
cena dantesca, ou quando seu tutelado anunciou que faria churrasco para 30
pessoas quando 10 mil já morreram numa pandemia? Baixam a cabeça, batem
continência, juram lealdade a um governo que já se mostrou incapaz de conduzir
o País em meio à maior crise da Humanidade em 100 anos.
Não é bonito o retrato histórico dos homens de farda que resultará da associação voluntária com um capitão reformado que, antes de ser escolhido como solução para vencer o PT, era ridicularizado nas mesmas Forças Armadas. Que os senhores generais percebam, antes tarde do que nunca, que não se espera deles que sejam babás. Mas que honrem as medalhas que ostentam no peito.

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