Dizer que Jair Bolsonaro frauda o discurso em defesa da
ética que ostentou na campanha presidencial é muito pouco para traduzir o que
sucede em Brasília. O presidente executa uma metódica e gradativa investida
contra o aparato do Estado que ajudou a escancarar a roubalheira nacional.
Depois de retirar o Coaf da vitrine, escondendo-o nos
fundões do organograma do Banco Central, Bolsonaro coloca a Polícia Federal num
respirador, inoculando na instituição o vírus da esculhambação. O processo de
asfixia conta com a luxuosa cumplicidade de um grupo de generais.
Nesta quarta-feira, ao depor no inquérito que apura as
denúncias de Sergio Moro contra Bolsonaro, o delegado Alexandre Saraiva, chefe
da PF no Amazonas, disse ter sido sondado, "no início do segundo semestre
de 2019", para assumir o comando do órgão no Rio de Janeiro. Respondeu que
"evidentemente aceitaria o convite."
A sondagem não veio de Maurício Valeixo, então diretor-geral
da PF. Tampouco foi feita por Moro, então ministro da Justiça. Quem sondou
Alexandre Saraiva foi o xará e também delegado Alexandre Ramagem, chefe da Abin
e amigo da família Bolsonaro.
O delegado Saraiva contou em seu depoimento detalhes sobre
um encontro que teve com Moro no aeroporto de Manaus. Disse ter sido
"inquirido" pelo então superior hierárquico da PF. "Saraiva, que
história é essa de você no Rio de Janeiro?", indagou Moro. O delegado
relatou, então, o telefonema que recebera de Ramagem.
Quer dizer: Bolsonaro testava os limites de Moro desde o ano
passado. Fez picadinho da imagem do ex-juiz da Lava Jato porque encontrou
material. Moro poderia ter chamado o caminhão de mudança quando Bolsonaro
declarou, em agosto de 2019, no cercadinho do Alvorada, que seria "um
presidente banana" se não pudesse trocar o chefe da PF do Rio e, no
limite, até o diretor-geral do órgão.
A pressão exercida por Bolsonaro no ano passado resultou
numa solução intermediária. O então superintendente da PF no Rio, Ricardo
Saadi, foi transferido para Brasília. Mas assumiu o posto não o preferido de
Bolsonaro, mas um delegado escolhido pelo então diretor-geral Valeixo: Carlos
Henrique Oliveira.
Carlos Henrique também prestou depoimento nesta quarta.
Ecoando o que Valeixo e o antecessor Saadi disseram ao depor na véspera,
confirmou que não havia problema de baixa produtividade na PF do Rio, como
alegou Bolsonaro na ocasião. Ao contrário, a superintendência estadual obteve
"sua melhor classificação durante a gestão do delegado Saadi."
O doutor acaba Carlos Henrique de sofrer uma queda para o
alto. Com a saída de Moro da pasta da Justiça, foi convidado a trocar a chefia
da PF no Rio pela diretoria-executiva do órgão em Brasília. Talvez não dure
muito na nova função, pois desmentiu Bolsonaro num segundo ponto do seu
depoimento.
Há dois dias, Bolsonaro declarou aos repórteres, numa
inusitada aparição vespertina na rampa do Planalto: "A Polícia Federal
nunca investigou ninguém da minha família, certo? Isso não existe no vídeo [que
exibe a reunião ministerial de 22 de abril, peça central do inquérito]. Estão
sendo mal informados."
De acordo com Carlos Henrique, houve, sim, uma investigação
eleitoral relacionada a Flávio Bolsonaro, o primogênito do presidente. Envolvia
suspeita de enriquecimento ilícito. O inquérito foi encerrado sem indiciamento.
No caso da rachadinha, o Zero Um também é investigado pelo Ministério Público
do Rio por enriquecimento desmesurado. Varejam-se transações imobiliárias
suspeitas.
A despeito das evidências em contrário, Bolsonaro empenha-se
no momento em negar que tenha emparedado Moro na reunião ministerial de 22 de
abril. Construiu uma versão que não fica em pé. "Não existem as palavras
Polícia Federal em todo o vídeo", disse Bolsonaro aos repórteres,
referindo-se à filmagem do encontro. "Não existe a palavra
superintendência. Falo sobre segurança da família e meus amigos."
Relator do caso Moro versus Bolsonaro no Supremo Tribunal
Federal, o ministro Celso de Mello decidirá se a gravação da reunião será
divulgada na íntegra ou apenas parcialmente. Enquanto o conteúdo não vem à luz,
Bolsonaro sustenta que a cobrança que fez no encontro não era dirigida a Moro, mas
ao general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional,
responsável pela segurança do presidente e de seus familiares.
Quem assistiu ao vídeo diz que Bolsonaro soltou um palavrão
e declarou que não esperaria que sua família e amigos fossem prejudicados para
fazer mudanças no Rio de Janeiro. De fato, usou a expressão "segurança no
Rio" em vez de superintendência da Polícia Federal. Mas o contexto não
deixa dúvidas de que ele se dirigia a Moro, não ao general Heleno.
A versão de Bolsonaro ofende a inteligência alheia duas
vezes. Na primeira, embora reconheça que fez menção à segurança da família e de
amigos, o presidente se abstem de explicar um detalhe: o GSI fornece proteção a
Bolsonaro e sua família, mas não fornece guarda-costas para amigos. Significa
dizer que não era de segurança pessoal que o presidente falava na reunião.
No segundo atentado,
Bolsonaro ignora o Diário Oficial. Não há vestígio de mudança na equipe de
seguranças do GSI. O general Heleno continua comandando uma mesa de ministro no
Planalto. Na Polícia Federal, entretanto, todas as ameaças de Bolsonaro se
concretizaram.
O presidente exonerou o diretor-geral Maurício Valeixo.
Sergio Moro trocou a função de ministro pela de delator. Bolsonaro nomeou
Alexandre Ramagem, o amigo da família, para o lugar de Valeixo. A troca só não
foi efetivada porque o STF barrou a posse. Foi alçado ao cargo Rolando
Alexandre de Souza, que era subordinado de Ramagem na Abin.
O primeiro ato de Rolando como chefão da PF foi mexer na
superintendência do Rio. Alvejado por uma investigação no Supremo, Bolsonaro
ainda não se animou a acomodar no seu Estado, berço das aflições familiares, o
preferido Alexandre Saraiva, do Amazonas. Sob holofotes, teve de digerir outro
nome: Tácio Muzzi.
Numa tabelinha com Bolsonaro, os generais do Planalto
esforçaram-se para enfiar nos autos do inquérito versões compatíveis com o
lero-lero segundo o qual o presidente falou na fatídica reunião de 22 de abril
sobre segurança pessoal, não sobre troca da chefia da Polícia Federal.
Os generais Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos
(Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (GSI) tropeçaram em algumas
contradições. Mas, no geral, deram cobertura à versão do chefe, que tem a
consistência de uma porção de gelatina.
Bolsonaro e seus auxiliares não parecem preocupados com os
rumos do inquérito. Há no Planalto uma sólida, uma consistente, uma inabalável
confiança na disposição do procurador-geral da República Augusto Aras de enviar
o caso para o arquivo.
Confirmando-se essa percepção, Bolsonaro terá completado o ciclo do abafamento. Já desligou o Coaf da tomada. Esculhamba a autonomia funcional da PF. Só falta a confirmação de que, ao indicar Aras para a chefia da Procuradoria, valorizou uma área do Ministério Público que a Lava Jato havia desativado: o setor do arquivo. O barulhinho que se ouve ao fundo são os aplausos do centrão.

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