Jair Bolsonaro parece estar chegando àquele ponto de não
retorno da trajetória em que alguns presidentes ou caem e ou viram
patos-mancos. Claro, há governantes — ainda bem — que não passam por isso. Mas
o presidencialismo à brasileira vive hoje uma espécie de maldição depois de ter
expelido do cargo, sob o pretexto da prática de “pedaladas fiscais”, uma
presidente da República porque o establishment queria vê-la pelas costas. De lá
para cá, mudou a altura do sarrafo no Planalto — e os que foram beneficiários
do processo também correm o risco de queda.
Há dúvidas em torno do que fará o procurador geral da
República, Augusto Aras, em relação às acusações de Sergio Moro contra
Bolsonaro de interferência na Polícia Federal. O vazamento de trechos do vídeo
da reunião ministerial em que o presidente fala da proteção aos filhos fez
subir a temperatura de tal forma que Aras terá que encontrar uma boa desculpa
para arquivar o inquérito. Mas, segundo observadores, pode sair pela tangente,
talvez alegando não ter encontrado elementos concretos de crime comum, mas
apenas de crimes de responsabilidade, uma questão do Congresso.
Se incluído no conjunto da obra de Bolsonaro, que contempla
investigações por envolvimento na disseminação de fakenews e participação em
manifestações antidemocráticas, esse caso é mais do que suficiente para
deflagrar um julgamento político no Legislativo. Assim como a hipotética
denúncia de Aras por crime comum, o processo por crime de responsabilidade
teria que ser autorizado por dois terços da Câmara — só que, em vez de ter
lugar no STF, o julgamento seria feito pelo Senado, como ocorreu com Fernando
Collor e com Dilma Rousseff.
Dilma caiu porque não teve 172 votos na Câmara para barrar o
impeachment, diferentemente de Michel Temer, que derrotou duas denúncias por
corrução apresentadas pela então PGR, Raquel Dodge. É o que Bolsonaro quer
repetir — única razão pela qual se dobrou ao Centrão e passou a distribuir
cargos. Pode ser que sim, pode ser que não, dada a volubilidade do grupo nessas
horas, quando costuma dar preferência ao poder futuro em relação ao passado.
Vai depender da negociação com Hamilton Mourão.
Mas é fato que, a partir de agora, em meio ao drama da
pandemia que mata milhares e arrasta o país para a recessão, o sistema político
entrou definitivamente no “modo crise”. As acusações ao presidente, e cada
passo das investigações, terão centralidade, indicando que Bolsonaro dedicará o
resto de seus dias no governo a se defender e articular votos no Congresso —
não para aprovar projetos, mas para escapar do impeachment.
Ninguém consegue governar assim. Michel Temer, por exemplo, não caiu mas virou pato-manco, incapaz de governar efetivamente, depois de gastar todas as energias políticas na sobrevivência. É cedo para saber se Bolsonaro cairá ou virará pato manco, mas dificilmente escapará dessas opções. É altamente improvável que, acuado como está, consiga marcar o item “nenhuma das alternativas anteriores” nessa prova, recompondo-se politicamente ou obtendo apoio militar a medidas autoritárias para se manter no poder.

Nenhum comentário:
Postar um comentário