Ao abrir a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal na
quarta-feira (6), o ministro Dias Toffoli definiu a corte que preside como
última trincheira da sociedade na defesa dos direitos assegurados pela
Constituição.
Pregou a harmonia entre os Poderes, condenou as agressões
sofridas por jornalistas numa manifestação de apoiadores de Jair Bolsonaro no
domingo (3) e cobrou respeito às decisões do tribunal, alvo predileto da turba
golpista.
Tratou-se de uma resposta adequada às provocações do
presidente, ainda que tardia —como corretas e demoradas, por sinal, têm sido as
reações de Toffoli.
Fazia dias que, inconformado com o veto do STF à nomeação de
um apaniguado para o comando da Polícia Federal, Bolsonaro ameaçara desafiar a
determinação judicial e atacara o ministro Alexandre de Moraes, que assinara a
liminar.
Na segunda (4), coube ao ministro da Defesa, Fernando
Azevedo, reiterar o compromisso das Forças Armadas com a Constituição, numa
nota em que classificou a independência e a harmonia entre os Poderes como
imprescindíveis para a governabilidade.
Embora manifestações políticas das Forças Armadas sejam
inconvenientes numa democracia, ainda mais quando se referem às ações do chefe
do Executivo, a nota revestiu-se de caráter tranquilizador.
À boca pequena, militares do primeiro escalão do governo
vinham expressando desconforto com a ingerência do STF na escolha do novo
diretor-geral da PF —e o próprio Bolsonaro vangloriara-se do apoio das Forças
Armadas ao participar do ato insolente de domingo.
Reafirmar constantemente as balizas estabelecidas pela
Constituição, como Toffoli e Azevedo fizeram nesta semana, é necessário para
conter os instintos autoritários de Bolsonaro, que não cansa de desafiar esses
limites.
Ele voltou a demonstrá-lo nesta quinta (7), ao liderar uma marcha
patética na direção do Supremo para fazer uma visita surpresa a
Toffoli, à frente de uma delegação formada por ministros e dirigentes de
associações empresariais.
A encenação, transmitida por redes sociais, transformou o
STF em palco para Bolsonaro defender mais uma vez o relaxamento das medidas de
distanciamento social adotadas contra o coronavírus.
Como ninguém tinha plano a apresentar nem pedido a fazer,
ficou claro que a intenção do presidente era apenas constranger Toffoli e
transferir responsabilidades, em vez de buscar a cooperação.
Em decisão unânime, o Supremo já esclareceu que estados e municípios têm autonomia para tomar providências para lidar com a pandemia. Tratando-se de Bolsonaro, a inação federal é o menor dos males.

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