Dói ver a bagunça de nossa reação à covid-19. Ela chegou
aqui depois de a outros países, nos dando tempo de nos prepararmos. Mas, em vez
disso, vimos o presidente, líder político de parte da população, defender
atitudes favoráveis ao contágio e contrárias aos controles que governadores
tentam instituir. Imagina a confusão na mente das pessoas, já apavoradas pela
perda de renda e trabalho.
O resultado será uma dinâmica mais desfavorável da epidemia.
Enquanto a coisa melhora em muitos países, no Brasil batemos novos recordes a
cada dia. A rede hospitalar não dará conta da demanda e os médicos terão de
escolher quem salvar, uma situação terrível e desnecessária. Teremos muitas
mortes evitáveis.
O mais paradoxal, porém, é que essa bagunça prejudicará
ainda mais a economia, justo o que os contrários à quarentena e ao
distanciamento social estariam querendo evitar. Em vez de uma curta e forte
paralisação, seguida de uma gradual reabertura dos negócios, teremos uma
paralisação parcial por um longo período, com muita gente evitando sair de
casa. A economia continuará deprimida e o desemprego elevado, afetando a saúde
do sistema financeiro, comprimindo as receitas tributárias e elevando a pressão
por mais gastos públicos.
É um cenário assustador, não só por si, mas pelo que trará
para o futuro do Brasil. Já entramos na crise com baixa coesão social, o que
ajuda a ter bagunça. Sairemos dela ainda menos coesos, uns culpando os outros.
Isso trará mais incerteza política e mais dificuldade para recuperar a
economia.
Por isso precisamos começar logo a planejar o pós crise. E,
quem sabe, aproveitar as oportunidades que esta abrirá. Eu penso que isso passa
por construir uma narrativa que, ao contrário do que vimos nos últimos 10 anos,
una os brasileiros em torno de um objetivo comum, tirando-nos do “nós contra
eles”.
Precisamos encontrar uma narrativa própria, que reflita
nossa realidade, alinhada com nossos interesses, ou seremos capturados pelas
narrativas que outros países estão desenvolvendo com foco em seus próprios
interesses. Vemos isso nos EUA, que estão construindo uma narrativa anti-China,
de parcial marcha a ré na globalização. É uma estratégia para unir o país
contra o inimigo externo, que funcionou bem no passado e pode evitar que a
covid-19, e os erros com que se lidou com ele, agrave a polarização que também
há por lá. Para pensar sobre isso, fui reler duas referências a que sempre
volto.
Uma é um artigo de Irma Adelman sobre como alguns países
conseguiram se desenvolver no século XX (bit.ly/3cdFwhf). . Adelman começa
alertando que desenvolvimento econômico não é só crescimento, mas combina: “(1)
crescimento auto-sustentável; (2) mudança estrutural nos padrões de produção;
(3) atualização tecnológica; (4) modernização social, política e institucional;
e (5) melhoria generalizada da condição humana”.
Ela também realça o papel da liderança política em focar no
desenvolvimento econômico, na necessidade de alinhar a burocracia pública com
esse objetivo, na importância de considerar os condicionantes históricos e a
compreensão de que “o que é bom para uma fase do processo de desenvolvimento
pode ser ruim para a fase seguinte”. Adelman também enfatiza o papel do capital
social, que “reflete a extensão da confiança social, das normas de cooperação e
da densidade das redes interpessoais”. Não precisa dizer que reconstituir o
capital social terá de ser uma prioridade no pós-covid.
A outra referência é o debate entre Roberto Simonsen e
Eugênio Gudin, como compilado e bem introduzido por Carlos Von Doellinger e, na
sua 3ª edição, pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Veloso (bit.ly/2SH4pKf). .
Dois aspectos desse debate me atraem muito.
Primeiro, a importância do contexto histórico, caracterizado
não só pela Grande Depressão e a II Grande Guerra, mas também pela difusão
global do ideário a favor de um Estado totalitário, capaz de se antepor às
tradicionais elites agrícolas, que dominavam a política desde o Império. Para
alguém com forte inclinação liberal, é interessante ver como o fim do
liberalismo que marcou o Império e a República Velha foi, nesse contexto, um
passo à frente. Importa também reconhecer que o debate Simonsen x Gudin
simbolizou uma disputa intelectual e política mais ampla e antiga.
Segundo, que, quase leigo em economia, Simonsen venceu o
debate, por ter construído uma narrativa que uniu as novas elites, mais urbanas
e com um pé na indústria, além de se alinhar com o pensamento dos militares de
então. De fato, é fascinante ver como, até hoje, a intelectualidade brasileira
segue presa a esse debate, se dividindo entre as posições de Gudin, mais
liberal, e as de Simonsen, mais pró intervenção estatal. De fato, é o que vemos
no debate sobre o programa Pró-Brasil, defendido por uma parte do governo e
criticado pela outra.
O Brasil de hoje é muito diferente do de há 80 anos.
Precisamos de uma nova narrativa, mais apropriada ao presente e à necessidade
de conciliar mais crescimento com melhor distribuição de renda e avanço
institucional. E precisamos disso logo, ou a crise iniciada pela covid-19 pode
se estender por muitos anos.
*Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, professor da Direito-Rio/FGV e do IE/UFRJ

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