Não é só a vitamina D, tão necessária nesses tempos em que
vivemos confinados, que precisa da luz do sol para ser ativada. Só a claridade
vai tirar o Brasil do impasse cada vez mais grave em que Jair Bolsonaro joga o
País.
O agente capaz de escancarar as janelas e cortinas e
iluminar dois cômodos que o presidente gostaria de manter nas trevas é o mesmo:
o Supremo Tribunal Federal.
O presidente da Corte, José Antonio Dias Toffoli, bem que
demonstrou, em sua densa, porém cautelosa, entrevista ao Roda Viva, minimizar
os riscos para a democracia que Bolsonaro representa com seus atos e palavras.
Apostou em diálogo e união de todos os Poderes para enfrentar a crise.
Menos de 24 horas depois, a sessão de cinema determinada
pelo decano Celso de Mello parece ter entornado a pipoca da concertação
nacional: segundo relatos em off de alguns dos espectadores, a reunião
ministerial de 22 de abril se assemelhou mais a um filme de gângsteres.
Dada a gravidade dos spoilers de quem viu o filme, Celso de
Mello precisa torná-lo público. Se há exortações à prisão de membros da mais
alta Corte da Justiça e de governadores por parte de ministros e a explicitação
verbal pelo próprio chefe de governo de que quer proteção da Polícia Federal
para familiares e aliados, além da admissão de que a revelação de seu exame
para covid-19 poderia alimentar um impeachment, as razões de segurança nacional
obrigam à publicidade total da reunião, e não à manutenção de seu sigilo, como
insiste o Executivo.
A outra persiana de informação pública que precisa ser
erguida é justamente a do exame, ou dos exames, de Bolsonaro para o novo
coronavírus. Quando o surto ainda não começara no Brasil, o presidente foi com
uma grande comitiva à Flórida para confraternizar com Donald Trump. Boa parte
da trupe testou positivo para covid-19. Outros que tiveram contato com os
descuidados viajantes foram acometidos depois.
Bolsonaro disse ter testado negativo, mas tripudiou: mesmo
que pegasse, para ele seria só uma “gripezinha” ou “resfriadinho”, dado seu
“histórico de atleta”.
Uma coisa é dizer que foi acometido pelo vírus e ficou
assintomático, algo comum. Outra completamente diferente, e de extrema
gravidade em se tratando de um chefe de Estado em meio a uma crise de
calamidade pública decretada a seu próprio pedido, é mentir sobre o resultado
de um teste enquanto fura a necessária quarentena e prega contra as medidas de
isolamento social recomendadas pelas autoridades de saúde.
Não se sabe se Bolsonaro fez isso. Mas a insistência em
esconder resultados de um simples exame (negativo!) por parte de alguém que, há
alguns anos, exibia orgulhoso uma bolsa de colostomia, aliada à frase dita por
ele na reunião ministerial, segundo os relatos, deveria fazer o STF obrigar a
Presidência a divulgar o resultado dos testes, sem essa história de nome falso
ou de sigilo.
Na mesma linha da mentira de Estado, Bolsonaro se jacta de
ter entregado a fita da reunião, sendo que poderia tê-la “destruído”, se
quisesse. Balela! A partir do momento em que um depoente em um inquérito
afirma, após jurar dizer a verdade, que um documento oficial existe e pode
provar infrações, sua destruição é crime.
Episódios anteriores como o áudio de Joesley Batista com
Michel Temer mostram a importância de se ver e ouvir esse tipo de documento
antes de cravar conclusões. Naquela ocasião, fui dos que acharam que a fala de
Temer não permitia chancelar a conclusão de que ele avalizou o suborno a
Eduardo Cunha.
Agora, só a luz do sol sem filtro permitirá que se saiba se o que ocorreu em 22 de abril foi uma reunião de trabalho de um governo democraticamente eleito ou uma conspiração contra os preceitos do estado democrático.

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