Em relação ao sentido político do artigo do vice-presidente
Hamilton Mourão [O Estado de S. Paulo, 14 de maio], creio que se deverá
especular muito sobre o seu sentido diretamente político, ou seja, de
conjuntura e de ação política. O ambiente bolsonarista instaurou uma “guerra de
movimento” em que o confronto é o tom mais habitual (no mesmo 14 de maio,
Bolsonaro foi explícito ao falar com empresários contra o governador de São
Paulo João Doria: “É guerra”).
A complexidade da situação pode ser mobilizada sugerindo
que, em certo sentido, Mourão revela que sob o bolsonarismo estaríamos imersos
naquela metáfora dos “45 cavaleiros húngaros” comentada por Gramsci em
referência a situações abertas ou que são maturadas para um possível assalto ao
poder por parte de um grupo minoritário [cf. o texto de Gramsci no post
abaixo]. A fala de “um jipe, um cabo e um soldado para fechar o STF”,
pronunciada pelo Eduardo Bolsonaro, bem como os “300 de Brasília” são
exemplares dessa situação.
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O artigo de Mourão faz, no essencial, uma defesa do governo
e cita várias vezes os “pais fundadores” do federalismo norte-americano. É
possível especular sobre as fontes, sua validade, correção ou mesmo
instrumentalização. Mas é preciso considerar que o artigo tem nível e Bolsonaro
seria incapaz de escrever algo minimamente similar.
Bastante preocupante talvez seja aquilo que se pode inferir
em termos de ação política, ou seja, a ênfase de que as FFAA, que foram
colocadas por Bolsonaro para dentro do sistema político, parece que serão os
principais atores a resolver a nossa profunda e enorme crise, já que o autor
condena veementemente a imprensa e os outros poderes, notadamente o judiciário,
além de eximir inteiramente o presidente de qualquer responsabilidade. Mourão
sugere que as FFAA são “o ator” capaz de, novamente, salvar o Brasil de “tanto
mal” que se faz contra o País. Creio que Mourão alerta para o fato de que está
se aproximando o momento em que as FFAA terão que cumprir, novamente, um papel
estabilizador: nem Bolsonaro nem as forças de oposição a ele. Podem até manter
Bolsonaro (que terá que pagar o seu preço), mas se abrirá uma luta interna
forte entre grupos militares.
O artigo de Mourão seria destinado aos generais que estão no
governo, seria uma advertência para salvá-los, ao mesmo tempo que indicaria um
caminho para salvar as FFAA de um desenlace desastroso deste governo. No fundo,
Mourão adverte que há possibilidade de salvar o país: com eles no comando. Se
vai se dar por um golpe clássico ou não, só se saberá no momento certo. Creio
que nessa hipótese de análise do artigo de Mourão o País poderia deixar o clima
de “45 cavaleiros húngaros”, que é o movimento de Bolsonaro, para entrar numa
lógica mais próxima daquela do regime militar brasileiro.
No essencial, o artigo é, por ora, uma advertência. Mas
pode-se depreender um sentido maior: sair da guerra de movimento, da lógica que
levaria inevitavelmente aos “45 cavaleiros húngaros”. Os atores para isso são
os militares. Não há outra sugestão no artigo, nem mesmo a presidência da
República: Bolsonaro não é sequer mencionado. Creio que, de acordo com Mourão,
os militares assumiriam o poder diretamente, com ou sem Bolsonaro, e não seriam
moderadores. Esse seria o preço a ser pago por Bolsonaro. Por ora, há uma
advertência, mais à frente pode-se montar as condições para isso. Talvez aí
Bolsonaro pague o preço para não ser defenestrado. E, com certeza, essa
história não terminaria assim.
*Alberto Aggio, historiador é professor titular da Unesp

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