Enquanto o sr. Jair Bolsonaro finge (e mal) ser um
presidente da República preocupado com o destino de todos os brasileiros, e não
só com o dele e o dos que estão no seu círculo afetivo, o Brasil ultrapassou a
marca de 12 mil mortos por covid-19 no início desta semana. Já são quase 178
mil casos confirmados da doença no País, fora a subnotificação.
Em vez de demonstrar empatia e juízo diante de um quadro tão
desolador, Bolsonaro reforçou sua opção pela afronta e pela irresponsabilidade.
Sem apresentar à Nação qualquer planejamento seguro para a retomada das
atividades econômicas, o presidente tornou a vociferar contra governadores que
mantêm a quarentena em seus Estados e exigiu, em termos rasteiros, a imediata
volta ao trabalho. “O povo tem de voltar a trabalhar. Quem não quiser trabalhar
que fique em casa, porra. Ponto final”, disse Bolsonaro à saída do Palácio da
Alvorada na manhã de ontem, para delírio da meia dúzia de apoiadores que batem
ponto no local.
Autoridades em saúde pública alertam que o ritmo de
crescimento do número de óbitos por covid-19 no Brasil é bastante similar ao
dos EUA, país que hoje lidera o triste ranking de vítimas fatais do novo
coronavírus, com mais de 83 mil mortos. A continuar assim, não é improvável,
dizem os especialistas, que o Brasil iguale ou até ultrapasse essa nada honrosa
posição, a depender das medidas de combate à pandemia que sejam adotadas no
País. A partir da confirmação do primeiro óbito (26/2), o País levou 74 dias
para atingir a marca de 10 mil mortes. Os EUA, 73 dias. Embora esta diferença
de apenas um dia seja desprezível, conta em desfavor do Brasil o fato de o
primeiro óbito nos EUA ter ocorrido mais de um mês antes (22/1). Ou seja, ao
que parece, o novo coronavírus matou mais rápido aqui do que lá, por uma série
de razões.
De acordo com uma projeção feita pelo Instituto de Métricas
e Avaliação de Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Universidade de Washington,
o País deverá chegar a agosto com quase 90 mil mortos em decorrência da
covid-19, caso o porcentual de cidadãos que se mantêm em isolamento não
aumente. Independentemente dos números projetados, que variam a depender da
instituição e da metodologia, é dever do Estado, em todas as esferas de
governo, e da sociedade agir, cada um na medida de suas responsabilidades, para
evitar que as projeções mais funestas se tornem realidade.
É chocante ver ruas País afora apinhadas de gente, como se
um vírus potencialmente mortal não estivesse em franca disseminação. Municípios
que decidiram flexibilizar as regras de isolamento observaram um salto no
número de casos de covid-19. Não é hora de relaxar. Mínimos descuidos podem ser
fatais. “Estou vendo governadores ameaçarem a população com lockdown (bloqueio
total). Isso é um absurdo”, reclamou o presidente Bolsonaro. Não é, caso as
medidas adotadas até agora pelos governos locais para preservar a saúde das
pessoas e a capacidade de atendimento do sistema público de saúde se mostrem
ineficazes.
O País já vive as agruras das crises sanitária e econômica
sem precedentes na história recente. Incapaz de ajudar, por má vontade e
incompetência, Bolsonaro ainda atrapalha ao adicionar ao quadro uma crise
política e federativa. O presidente ameaçou processar os governadores e
prefeitos que insistem em ser responsáveis e ignoram os decretos inconsequentes
que brotam do Palácio do Planalto. A autonomia dos entes federativos para tomar
as ações necessárias ao combate à pandemia foi reconhecida pelo STF.
O continente americano ultrapassou a Europa em número de casos confirmados de covid-19. Os EUA têm 1,4 milhão de infectados. O Brasil, quase 178 mil. Os dois países representam 85% dos casos registrados nas Américas. Tamanha concentração de casos não é coincidência. Tanto Donald Trump como Jair Bolsonaro, este praticamente um ventríloquo daquele, desde o primeiro momento desdenharam do potencial ofensivo do novo coronavírus e fazem de tudo para sobrepor seus interesses particulares ao interesse público. Mal ou bem, os EUA já passaram pela fase mais crítica da pandemia. Triste Brasil.

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