Richard Nixon já estava com o mandato por um fio quando
pronunciou a frase mais célebre de seus 2.027 dias na presidência dos EUA. Numa
entrevista em novembro de 1973, ele disse que nunca havia obstruído a Justiça
ou embolsado dinheiro público. “I’m not a crook”, afirmou. Em português: “Eu
não sou um vigarista”.
Ontem o governador do Rio, Wilson Witzel, repetiu o número
do republicano. Em vídeo gravado com o próprio celular, ele alegou que “todas
essas acusações levianas que estão sendo feitas contra mim é (sic) por parte de
gente que não quer um juiz governando”. “Não sou ladrão”, arrematou. O
pronunciamento foi divulgado nas redes sociais. Pelo tom das respostas, não
convenceu.
Antes de recitar as três palavras mágicas — Nixon precisou
de cinco — o governador fez uma breve autobiografia. “Fui juiz federal por 17
anos. Na minha carreira, tive uma vida ilibada. Fui considerado linha dura”,
disse. O discurso pode não combinar com os fatos, mas explica por que sua
imagem derreteu tão velozmente.
Witzel se elegeu com a promessa de redimir um estado
devastado pela corrupção. Em menos de um ano e meio, foi acusado de reproduzir
as práticas dos antecessores. Na semana passada, seu ex-secretário de Saúde foi
preso por desvios de verbas na pandemia. Na operação, a polícia apreendeu R$
8,5 milhões em dinheiro vivo.
A sabedoria popular ensina que o pecado do pregador choca
mais que o pecado do pecador. Quando políticos notórios se envolvem em trambiques,
ninguém se surpreende. Se um paladino da ética é pego em flagrante, todos param
para ver. Foi o que aconteceu em maio, quando a PF fez buscas na residência
oficial do governador.
Na segunda-feira, a revista “Veja” revelou que o
ex-secretário de Saúde acertou uma delação premiada. Edmar Santos prometeu
entregar provas da participação do chefe no esquema. Seria o prego final no
caixão de Witzel, para usar outra expressão de Nixon.
Em junho, a Assembleia Legislativa abriu processo de impeachment por 69 votos a 0. Isolado, o governador agora apela ao tapetão judicial. O 37º presidente americano renunciou em agosto de 1974, quando constatou que seria cassado. Witzel poderia imitar essa também.

Nenhum comentário:
Postar um comentário