Se você espremer bem toda a vasta obra do escritor Olavo de
Carvalho, vai perceber que, no fundo, trata-se de uma imensa teoria da
conspiração. Não há lá muita filosofia. O que há, mais que tudo, são camadas e
camadas de acusações contra uma suposta elite, que inclui toda a esquerda
mundial, toda a mídia, toda a academia, toda a arte, toda a cultura, todo o
ambientalismo, todo o ativismo, toda a ciência, todas as organizações
transnacionais e - acredite - alguns dos maiores bilionários do capitalismo
global, que na verdade querem impor o comunismo ao mundo.
Trata-se da teoria conspiratória do marxismo cultural - ou
do politicamente correto. Em linhas gerais, o que ela diz é que alguns
filósofos marxistas de um século atrás, entre eles os alemães da Escola de
Frankfurt e o italiano Antonio Gramsci, fizeram um plano para dominar o mundo,
não pela política, mas pela cultura. O plano consiste em ocupar todos os
espaços culturais - por exemplo, a mídia, a arte e a universidade - de forma a
controlar não simplesmente os governos, mas a mente de todo mundo, inclusive de
quem governa.
A principal estratégia desses conspiradores é dominar a
linguagem, através da “ditadura do politicamente correto”, termo meio que
inventado por eles. Segundo a teoria, essa ditadura é uma opressão do
pensamento: os marxistas culturais estão impondo uma nova linguagem ao mundo, e
essa linguagem carrega em si, como um vírus, o comunismo.
Essa conspiração teria chegado a nós acima de tudo através
do Foro de São Paulo, que seria uma aliança entre ditadores comunistas,
narcotraficantes e - adivinha - o PT para conquistar a América Latina e sua
cultura.
O objetivo é simplesmente destruir as bases da civilização
ocidental. Como tudo o que eles querem é destruir nosso mundo, o único modo de
lidar com eles é destruindo-os. É impossível - e absolutamente ingênuo - tentar
dialogar com eles.
A essa altura, todos sabemos que a família Bolsonaro
acredita nessa teoria, assim como a chamada “ala ideológica” do seu governo.
Ernesto Araújo, por exemplo, tem toda sua visão de mundo e de política de
governo moldada por essa alucinação.
Quando ele brada contra o tal “globalismo”, ele está se
referindo a dois braços importantes do tal “marxismo cultural”: as organizações
supranacionais e os tais “bilionários comunistas” - gente como o especulador e
filantropo húngaro George Soros, inimigo de ditadores como Vladimir Putin e
Viktor Orbán, que estaria financiando a revolução comunista. (A teoria
evidentemente não explica por que Soros investiu tanto dinheiro em projetos
como o fortalecimento da oposição civil ao comunismo, durante a Guerra Fria, e
contra a autocracia de esquerda na Venezuela, hoje em dia.)
O que menos gente percebe é que essa teoria é mais
disseminada do que parece. Se você prestar atenção, vai notar que toda a alta
cúpula das Forças Armadas Brasileiras acredita - me parece que sinceramente -
que essa conspiração é real. Isso é mais evidente em generais extremistas, como
o vice-presidente Mourão, que vive delirando sobre o Foro de São Paulo (uma
organização real, de esquerda, mas que está longe de ser essa maluquice
ultra-poderosa e secreta de suas descrições).
Pegue por exemplo o general Villas-Boas, ex-comandante do
Exército, tido como um moderado. Realmente ele não tem um discurso tão
abertamente delirante como os de Olavo, Araújo ou Mourão. Mas, se você for
procurar entre suas entrevistas e palestras, vai ter dificuldade de encontrar
alguma na qual ele não aponte para o “politicamente correto” como sendo a
origem de todos os nossos males.
Geralmente ele fala do politicamente correto em termos
vagos, mas uma vez, numa entrevista, ele expressou em detalhes o que ele
acredita. Ele explicou assim: “quanto mais temos de ambientalismo mais dano
ambiental, quanto mais indigenismo mais os coitados dos nossos índios estão
abandonados, quanto mais essa preocupação racial mais preconceito temos…,
quanto mais essa questão de gênero mais preconceito homofóbico”. Enfim, ele não
nega os problemas da nossa sociedade (devastação ambiental, genocídio indígena,
racismo, homofobia): o que ele faz é culpar por as vítimas por eles. É o
ativismo contra esses problemas que gera os problemas.
É uma ideia maluca, mas bastante disseminada, e não apenas
nos círculos mais extremistas. Boa parte da direita que se diz “liberal”, na
verdade, talvez sem saber, repete a exatíssima mesma teoria desvairada que
Olavo vem tecendo há décadas. O MBL, por exemplo, fala disso todos os dias.
Recentemente, num artigo, o economista político Eduardo
Costa Pinto, da UFRJ, encontrou as origens desse desvario em alguns ativistas
americanos do final dos anos 1980. Se você gosta de teorias conspiratórias
malucas, vai curtir este vídeo aqui (em inglês), gravado há mais de 30 anos
pelo americano William Lind. Lind era um doido: ele defendia políticas como o
uso de lança-granadas pela polícia em zonas urbanas e a volta dos enforcamentos
públicos nos bairros violentos (em outras palavras, bairros negros).
Nesse vídeo, ele conta uma história idêntica àquela pela
qual depois Olavo ficou famoso - Olavo nega conhecer Lind. Essas teorias
conspiratórias americanas bebem de um anti-comunismo antigo, mas foram
atualizadas pela Queda do Muro de Berlim, quando o comunismo subitamente perdeu
quase todo seu poder político e deixou de ser uma ameaça. Fazia sentido,
portanto, procurar um inimigo novo: não é à tôa que setores ultrarradicais das
forças armadas americanas e da indústria bélica ajudaram a financiar Lind.
Pronto: o inimigo agora não era mais Moscou, mas sim o comunismo que está
diluído em toda a cultura.
Olavo copiou essas teorias, mas não foi só ele: teóricos
dentro das Forças Armadas Brasileiras, um tradicional celeiro de paranoia,
fizeram o mesmo.
Conhecer essa teoria da conspiração é importante para
entender o que está acontecendo no Brasil agora. Sem ela, é impossível
compreender racionalmente um governo que parece atacar tudo aquilo que deveria
defender. O Ministério dos Direiros Humanos é inimigos dos direitos humanos, o
do Meio Ambiente persegue ambientalistas, das ONGs ao Leonardo diCaprio, o da
Educação é inimigo dos professores, o da Ciência é contra cientistas, o das
Relações Internacionais trabalha todos os dias contra os interesses do Brasil
no mundo. Isso só faz sentido se entendermos que as pessoas que estão
implementando essas políticas acreditam (ou talvez, em alguns casos, fingem
acreditar) que estão livrando esses setores da sociedade de marxistas culturais
que fingem trabalhar pelo Brasil mas na verdade querem destruir a civilização
ocidental. Como notou o economista político Costa Pinto, é uma loucura, mas tem
método.
Ah, vale lembrar que a teoria do marxismo cultural, que é americana na origem, mutou ao longo dos anos e virou outra coisa, ainda mais louca: a teoria do QAnon, sobre a qual ainda volto a falar. Nessa nova versão, o projeto final dos marxistas culturais é legalizar a pedofilia. Considerando a influência desses teóricos da conspiração sobre as pessoas que estão no poder no Brasil hoje, não é surpresa que boatos sobre pedofilia estejam cada dia mais presentes no debate público brasileiro também.

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