O procurador-geral da República, Augusto
Aras, abriu guerra contra a força-tarefa da Lava Jato e a hipertrofia
dos procuradores
federais comandados por Deltan Dallagnol na “República de Curitiba”.
Aras e Dallagnol, no entanto, são faces da mesma moeda: a do aparelhamento
político das instituições de Estado.
O sempre necessário e importante combate ao crime encontrou
na vocação messiânica e na agenda política dos procuradores e do juiz Sérgio
Moro terreno fértil para distorções, abusos e excessos da operação que
pretendia acabar com a corrupção no país.
Não acabou. E deixou vasto legado de desrespeito a marcos
legais. Moro divulgou ilegalmente um grampo
telefônico envolvendo a então presidente Dilma, o que mereceu apenas
uma reprimenda do STF ao juiz.
Este pediu “escusas” e ficou por isso mesmo. A Vaza
Jato, do site The Intercept, mostrou como o juiz orientou os procuradores,
tornando-se parte da acusação e violando seu compromisso ético e legal de
imparcialidade.
Deu no que deu. A Lava Jato teve impacto decisivo na chegada
de Bolsonaro ao poder, trazendo Moro a tiracolo, não por acaso. Como o mundo dá
voltas, o candidato que se beneficiou do “lavajatismo” foi o mesmo presidente
que deu a rasteira em Moro e agora comanda a ofensiva contra a “República de
Curitiba”.
Ao atacá-la, Aras faz um favor ao centrão e ao chefe, que
andam de braços dados desde que Bolsonaro entendeu que precisava de um escudo
no parlamento, depois da prisão do amigão Fabrício
Queiroz. Aras, porém, pode não ter calculado bem um efeito colateral de sua
truculência. A perseguição à Lava Jato poderá levar Moro a disputar com o
ex-chefe a narrativa do combate à corrupção, acirrando a concorrência no campo
da direita nas eleições de 2022.
Há, contudo, uma pedra no caminho de Moro. A Segunda Turma
do STF precisa terminar o julgamento, iniciado em 2018, sobre a suspeição do
magistrado na condução da Lava Jato. Ao que parece, suas excelências não estão
com a menor pressa.
Cristina Serra é jornalista.

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