O presidente Jair Bolsonaro confirmou ter dado aval ao
Ministério da Economia para estudar a criação de um imposto sobre movimentações
financeiras nos moldes da antiga CPMF. Bolsonaro fez questão de frisar, como já
havia feito em outras oportunidades, que não haverá aumento da carga
tributária, ou seja, o novo tributo só será lançado em substituição a outros já
existentes. E o presidente também salientou que o novo imposto não será criado
“se o povo não quiser”, porque “nós e o Parlamento somos subordinados ao povo”
– ou seja, tudo vai depender da repercussão nas redes sociais, lugar onde vive
o “povo” de Bolsonaro.
Os cuidados de Bolsonaro ao abordar o assunto são
compreensíveis em muitos aspectos. O primeiro, mais óbvio, é que o presidente,
desde a campanha eleitoral, negava veementemente a intenção de recriar a CPMF.
Quando parlamentar, por exemplo, foi um dos que votaram pela derrubada do
imposto em 2007, durante o governo do petista Lula da Silva.
Em 2015, quando a presidente petista Dilma Rousseff propôs a
volta da CPMF, o então deputado Bolsonaro vinculou o imposto ao propósito de
“cubanizar” o País, já que ajudaria a bancar o programa Mais Médicos e assim,
indiretamente, serviria para financiar a ditadura cubana. Na mesma ocasião,
atribuiu a ideia de ressuscitar a CPMF a uma “crise de autoridade” por parte de
Dilma. Já na campanha presidencial, Bolsonaro desmentiu categoricamente que
recriaria a CPMF e chamou de “mentiroso” e “irresponsável” quem lhe atribuía
essa intenção. Uma vez na Presidência, Bolsonaro mandou demitir Marcos Cintra
da Receita Federal depois que o secretário falou abertamente da possibilidade
de reedição desse imposto.
O problema é que, desde a campanha eleitoral, o maior
defensor da criação de um imposto semelhante à CPMF é o ministro da Economia,
Paulo Guedes, que sempre tratou publicamente dessa preferência – e continua no
cargo. Logo, sempre foram frágeis as negativas do presidente em relação ao
espinhoso assunto.
Em sua metamorfose, Bolsonaro passou de feroz opositor a
reticente apoiador da volta da CPMF talvez porque tenha sido convencido pelo
seu ministro da Economia de que não há outra maneira, mantidas as atuais
circunstâncias e sem cortes profundos de despesas, de fechar as contas federais
e ainda entregar um governo minimamente popular para manter suas chances de
reeleição ante o descalabro econômico.
É essa a grande, talvez única, preocupação de Bolsonaro. O
presidente entende tanto de impostos quanto de física quântica. Não tem ideia
do que propor para financiar o Estado – só vive a repetir que “o povo”, sempre
ele, “não aguenta mais” tantos tributos. Agora, no entanto, há um imperativo:
Bolsonaro parece ter afinal entendido que somente a volta de alguma variante da
CPMF será capaz de viabilizar o programa Renda Brasil, substituto vitaminado do
Bolsa Família, grande aposta do presidente para angariar clientela eleitoral
nas regiões pobres do País.
O problema é que a CPMF dá com uma mão, mas tira com a
outra: se por um lado ajudará a financiar o programa assistencialista, por outro
afetará toda a cadeia produtiva e pressionará os preços, afetando especialmente
os mais pobres. Na propaganda eleitoral, contudo, só metade dessa história será
contada – aquela em que Bolsonaro aparecerá como o mais novo candidato a pai
dos pobres.
O presidente jura que, se vier, a nova CPMF será compensada com corte de impostos, talvez por meio da desoneração da folha de salários das empresas e do aumento da isenção de Imposto de Renda. Ou seja, Bolsonaro ainda não sabe o que fazer para convencer o Congresso – o “povo” que politicamente importa – de que não haverá aumento da carga tributária com a volta da CPMF ou com a criação de um imposto semelhante “com um nome em inglês, um nome bonito, para enrolar a sociedade”, como disse recentemente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Assim, o governo terá de ser mais claro sobre o que planeja, sem esperar que apenas a lábia do ministro Paulo Guedes e as promessas confusas do presidente bastem para que o Congresso apoie a reedição daquele infame encargo.

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