A queda de braço entre o procurador-geral da República,
Augusto Aras, e os procuradores das forças-tarefas da Lava-Jato ganhou mais um
capítulo ontem. Relator da Lava-Jato, o ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo
Tribunal Federal (STF), revogou a decisão liminar (provisória) do presidente da
Corte, ministro Dias Toffoli, que determinou o compartilhamento de dados da
Operação Lava-Jato no Paraná, no Rio de Janeiro e em São Paulo com a
Procuradoria-Geral da República (PGR).
Toffoli havia atendido a um pedido da PGR, que relatou ter
enfrentado “resistência ao compartilhamento” e à “supervisão de informações”
por parte dos procuradores da República. A decisão retirava praticamente toda a
autonomia das forças-tarefas para gerenciamento dos dados e corroborava a
intenção de centralizar as investigações na cúpula da Procuradoria-Geral,
extinguindo as forças-tarefas. Pela decisão do presidente do STF, as
forças-tarefas deveriam repassar todos os dados à Secretaria de Perícia,
Pesquisa e Análise do gabinete do procurador-geral da República.
Fachin desfez tudo, em caráter retroativo. Com isso, os
dados compartilhados não poderão ser mais acessados pela PGR. Aras já anunciou
que recorrerá da decisão, o que deve levar a polêmica para o pleno do Supremo.
Fachin questionou a justificativa adotada pela PGR ao pleitear a decisão de
Toffoli: “Decisão sobre remoção de membros do Ministério Público não serve, com
o devido respeito, como paradigma para chancelar, em sede de reclamação,
obrigação de intercâmbio de provas intrainstitucional. Entendo não preenchidos
os requisitos próprios e específicos da via eleita pela parte reclamante”,
escreveu. Fachin também quebrou o sigilo da ação.
A decisão acirra as contradições dentro da
Procuradoria-Geral da República, onde há uma rebelião dos subprocuradores
gerais, por causa da forma como Aras pretende conduzir sua gestão, e aprofunda
divergências no Supremo Tribunal Federal (STF), onde os métodos da Lava-Jato
enfrentam forte oposição. Mas também mostra que ninguém pode tudo nessa
questão, ou seja, é preciso chegar a um denominador comum. Uma das acusações
contra a Lava-Jato é investigar autoridades da República, como os presidentes
do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), sem a devida autorização do STF. Segundo Aras, 38 mil pessoas teriam
sido investigadas pela força-tarefa de Curitiba.
Arapongas
A propósito de investigações ilegais, o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, cancelou sua ida ao Senado, hoje, para explicar o trabalho da Secretaria de Operações Integradas (Seopi) da pasta. A audiência chegou a ser programada para que o ministro pudesse falar sobre o monitoramento de opositores ao governo de Jair Bolsonaro. Mendonça alegou que o assunto é sigiloso e não poderia ser tratado em um encontro virtual aberto ao público, como previsto. O ministro é acusado de investigar indevidamente professores e policiais que participam de movimentos antifascistas.
A propósito de investigações ilegais, o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, cancelou sua ida ao Senado, hoje, para explicar o trabalho da Secretaria de Operações Integradas (Seopi) da pasta. A audiência chegou a ser programada para que o ministro pudesse falar sobre o monitoramento de opositores ao governo de Jair Bolsonaro. Mendonça alegou que o assunto é sigiloso e não poderia ser tratado em um encontro virtual aberto ao público, como previsto. O ministro é acusado de investigar indevidamente professores e policiais que participam de movimentos antifascistas.
Mendonça revelou certa surpresa com a denúncia e passou a
impressão de que havia perdido o controle sobre o grupo de arapongas que atuam
na pasta. Ontem, anunciou uma sindicância e suspendeu sua participação na
audiência, que havia sido combinada com o presidente da Comissão de Controle
dos Serviços de Inteligência do Congresso, presidida pelo deputado Nelsinho
Trad (PSD-MS). A comissão mista tem 12 membros, com uma composição bastante
heterogênea: os senadores Eduardo Braga (MDB-MA), Randolfe Rodrigues (Rede-AP),
Daniella Ribeiro (PP-PB), Jaques Wagner (PT-BA), Marcos do Val (Podemos-ES); e
os deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), José
Guimarães (PT-CE), Claudio Cajado (PP-BA); Carlos Zarattini (PT-SP); e Edio
Lopes (PL-RR). É a primeira vez que seus integrantes se veem diante de um
problema dessa ordem, pois o trabalho de inteligência no governo é
regulamentado e está a cargo da Abin e do GSI.
Como se sabe, no episódio da demissão do ex-ministro da
Justiça Sergio Moro, o presidente Jair Bolsonaro revelou que mantinha seu
próprio serviço de inteligência, sem explicar o que era nem como funcionava. A
existência de uma equipe de arapongas para fazer espionagem política no
Ministério da Justiça é uma aberração administrativa e jurídica, porque
configura uma polícia política.

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