Levante a mão quem nunca teve de desmentir as fake news mais
absurdas, até grotescas, em grupos de família, amigos, às vezes até de
trabalho? De repente, do nada, aquela pessoa que convive com você há anos, que
parece (ou parecia) razoável, antenada e inteligente, passa a compartilhar
mentiras tão primárias e sem nexo que qualquer um deveria jogar automaticamente
no lixo. É como lavagem cerebral, crença religiosa, negação da verdade. A
pessoa perde a racionalidade e entra no vale-tudo a favor do seu mito e contra
os adversários desse mito.
As redes de fake news atingiram uma audácia inaceitável,
apesar de não terem começado com os Bolsonaros – porque o PT também era craque
nisso no poder – nem serem exclusivas do Brasil – porque a eleição de Donald
Trump nos EUA e a vitória do Brexit no Reino Unido são exemplos de como a
internet é usada para transformar mentira em verdade. Se impacta tão
decisivamente a vida, o voto e as eleições, pode mudar o mundo. E para pior.
Depende de quem tenha mais dinheiro, recursos tecnológicos e falta de
escrúpulos.
Assim como é fundamental distinguir “democratice” de
democracia, é preciso evitar a confusão entre liberdade de expressão e de
opinião, de um lado, e agressão e mentira, de outro. Não uma mentirinha
inocente, mas uma arma feroz contra a verdade e a realidade, para propaganda
enganosa, destruição de biografias e até ameaça à segurança física de cidadãos
e autoridades. Armas, de qualquer espécie, não podem ficar em mãos de pessoas
perigosas, de instinto criminoso.
Uma coisa é censura, proibir a opinião, a livre
manifestação. Outra é o ministro do Supremo Alexandre de Moraes bloquear contas
usadas como armas para espalhar o ódio, criar realidades paralelas, confundir
incautos, destruir reputações, disparar injúria, calúnia, difamação e até convocação
para estuprarem filhas de ministros do Supremo. Moraes não concluiu nada disso
da cabeça dele, mas, sim, com provas concretas, cópias de mensagens e dados
sobre contas reais e inventadas, inclusive levantados pelo próprio Facebook.
Alvo de um furioso ataque em massa e acusado criminosamente
até de pedófilo pelas redes que são alvo de Alexandre de Moraes, o youtuber
Felipe Neto deu uma entrevista à GloboNews, no domingo, condenando o “momento
de validação do negacionismo e do obscurantismo” e comparando os autores desse
tipo de ataque a “ratos que saíram do esgoto, de forma violenta e grotesca”. E
ele também fez questão de destacar: “Não estou falando de opiniões divergentes,
sim de negacionistas científicos, péssimos revisionistas históricos, pessoas
que intencionalmente deturpam, manipulam e negam o que a ciência diz”.
O bom da história é que, como no mundo todo, o Brasil também
debate intensamente a liberdade de expressão e a internet, na mídia, na
sociedade, no Congresso e no Supremo, que, aliás, tem um segundo semestre bem
animado pela frente. Um semestre que começou ontem, com o ministro Edson Fachin
suspendendo o compartilhamento de dados da Lava Jato com a Procuradoria-Geral
da República (PGR). A decisão confirma o que previmos aqui: os absurdos do
governo Bolsonaro uniram o Supremo, os ataques à Lava Jato vão desunir.
E é assim, desunida e com pauta quente, que a Corte vai se
posicionar quanto ao falso dilema entre fake news e liberdade de expressão,
além de passar por uma dança de cadeiras. Em setembro, a presidência vai de
Dias Toffoli, tido como ministro mais próximo de Bolsonaro, para Luiz Fux,
considerado o mais suscetível às pressões da opinião pública. E, em novembro,
sai o supertécnico Celso de Mello e entra o primeiro ministro da lavra de
Bolsonaro. Só “terrivelmente evangélico” ou também terrivelmente bolsonarista?

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