De Genebra, o embaixador Roberto Azevêdo me disse ontem que
o comércio no mundo vai cair 13% em 2020. Em volume, o comércio encolheu 18% no
segundo trimestre e ele acha que a recuperação será modesta nos próximos meses.
Ao final, o mundo terá no ano uma crise maior do que a de 2008/2009. Ficou
claro esta semana o tamanho do tombo. O número americano parece cataclísmico, mas
o 32,9% é anualizado. O PIB americano diminuiu, na verdade, 9,5% em relação ao
trimestre anterior, no indicador a que estamos acostumados.
A Alemanha caiu 10,1%, ou seja, um pouco mais do que os 9,5%
dos Estados Unidos. Nos EUA, a maneira de apresentar o número é pegar o
resultado do trimestre e extrapolá-lo para o ano inteiro, como se aquele
resultado fosse se repetir por quatro trimestres. Aí deu esse fim de mundo. Mas
a queda, mesmo vista na comparação com o trimestre anterior, já assusta. O PIB
americano havia encolhido no começo do ano. A dúvida é se as tensões entre os
Estados Unidos e a China vão aprofundar ainda mais a recessão.
— O impacto da pandemia, com a virtual paralisia das
principais economias, é tão expressivo que o efeito das tensões entre Estados
Unidos e China, ainda que importante, fica apequenado. A redução das tensões
entre as duas potências terá um papel bem mais importante durante a etapa de
recuperação econômica. Uma distensão entre os dois países ajudaria a economia
global a crescer mais fortemente no pós-pandemia — diz Azevêdo.
No Brasil, há vários problemas extras. Um deles é qual é o
limite dos erros que o governo Bolsonaro pode cometer na sua relação com a
China? Na quinta-feira, houve a demonstração pública de desprezo por parte do
presidente. Ele elogiou a vacina que está sendo desenvolvida, mas avisou que
falava da Universidade de Oxford, “e não daquele outro país”. Bom, aquele outro
país é o responsável por ter amortecido o tombo do nosso comércio no primeiro
semestre. O mundo comprou menos 15% do Brasil, a China comprou mais 15%. A
economia chinesa apresentou números positivos no segundo trimestre, de 3,2%. Depois
de ter encolhido 6,8%.
Do ponto de vista de investimentos, eles são importantes
também. Esta semana mesmo o Ministério da Infraestrutura começou um roadshow
virtual para atrair investidores para a Ferrogrão, projeto que liga Sinop (MT)
a Mirituba (PA). Dois dos investidores contatados foram a CCCC e a CRCC.
Chinesas.
Não é a primeira vez, não será a última, que o governo
Bolsonaro lança ofensas gratuitas sobre os chineses. Parece um teste para saber
até que ponto eles aguentarão. Mas nessa roleta chinesa nós somos a parte
vulnerável. Dos ataques racistas de Abraham Weintraub aos delírios
persecutórios de Ernesto Araújo, passando pelas grosserias de
Bolsonaro&Filhos, o governo agride diariamente o nosso maior parceiro.
Na saída dos escombros deste ano difícil, o Brasil precisará
também dos organismos financeiros multilaterais. Abraham Weintraub é inimigo
confesso das boas maneiras, do foco em questões relevantes, e do que ele define
como “globalismo”. Os bancos multilaterais seriam instrumentos desse inimigo. O
ministro Paulo Guedes cedeu às pressões para indicá-lo. Ele ficará no cargo até
outubro, pelo menos.
Ontem saíram os dados de outras economias europeias. No
segundo trimestre, a França caiu 13,8%, acumulando 19% de queda no ano, a
Itália, 12,4%, a Espanha, 18,5%, acumulando 22%. Na Espanha, o único setor a
crescer foi a agricultura, como aqui no Brasil. A zona do euro encolheu 12%.
Segundo o “Financial Times”, a retomada está sendo ameaçada pelos riscos de
novas ondas e será “lenta e desigual”.
O ano está difícil para todos. A China, que teve indicadores
melhores no segundo trimestre, voltou a ter alta de casos de Covid-19 em
algumas áreas. Diante desse quadro, Azevêdo disse à Christiane Amanpour, na
CNN, que o mundo está assistindo à maior contração em tempos de paz desde os
anos 1930. E a grande questão que está posta é quão rapidamente o mundo pode se
recuperar. Perguntei ao embaixador, que está deixando a OMC, como ele vê a
situação do Brasil:
— Com muita preocupação, porque o desempenho econômico do
país no futuro imediato estará inevitavelmente ligado à sua capacidade de
controlar a pandemia, cujo quadro atual no país é muito inquietante.

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