O ministro do Meio Ambiente quer floresta no chão e fumaça
no ar. Em plena crise de imagem do Brasil por causa do desmatamento, que gerou
uma onda de alertas dos investidores contra o país, ele propõe suspender a meta
de diminuição de queimada e desmatamento ilegais. O que o Brasil perde se
Ricardo Salles ganhar? Riqueza natural, qualidade do ar, investidores
internacionais, biodiversidade, futuro. Além de Salles, quem ganha com o
desmatamento? Alguns poucos criminosos, como mostrou a revista “Veja” na edição
desta semana, dando seus nomes e endereços.
A impressionante reportagem fez o ranking dos dez maiores
desmatadores segundo as multas do Ibama. Imagens de satélite indicaram o antes
e o depois. O campeão é Edio Nogueira, da Fazenda Cristo Rei, em Paranatinga,
Mato Grosso, onde ele derrubou 24 mil hectares de mata nativa, equivalente a 22
mil campos de futebol. Ele usou aviões para jogar gigantescas quantidades de
agrotóxico para matar as árvores, o que faz o fogo espalhar mais rapidamente.
Edio recebeu uma multa de R$ 50 milhões, que dificilmente
pagará, até porque o presidente Bolsonaro critica isso que ele chama de
“indústria da multa”. A empresa de Nogueira, a Agropecuária Rio da Areia,
coloca no site que fornece para a JBS, Marfrig e Minerva. A “Veja” procurou os
frigoríficos, que negaram compras recentes. A Minerva disse que a última compra
foi feita em 2015, a JBS admite que comprou, mas de outra empresa do mesmo
grupo em Mato Grosso do Sul. A Marfrig parou de comprar deles em 2017. Seja
como for, está lá no site. E como disse a revista, na reportagem de Edoardo
Ghirotto e Eduardo Gonçalves, “é esse tipo de confusão que está estraçalhando a
imagem do Brasil lá fora”.
O ponto é: quem ganha com o abandono da meta de reduzir o
desmatamento e as queimadas ilegais? Esse empresário, que joga agrotóxico para
matar as árvores antes de queimá-las, ganha. Não é o único, a revista dá a
lista dos 10 maiores. No Pará, Amapá e Mato Grosso. Quem perde? O resto da
sociedade brasileira.
O repórter Mateus Vargas, do “Estado de S. Paulo”, teve
acesso ao documento em que Salles tenta contornar a meta de reduzir até 2023 o
desmatamento e a queimada ilegais em 90%. Em troca, ele quer a aprovação do seu
projeto, que definiu de Floresta+. Seria melhor chamá-lo de Floresta-, porque é
proteger uma área de 390 mil hectares. O documento quer urgência na aprovação
dessa ideia. Os técnicos do Ministério da Economia não gostaram. Oficialmente,
o Ministério concordou com a proposta de redução da meta. A lorota que eles
contam é que será para “adequar aos compromissos de zerar o desmatamento ilegal
até 2030”. Ou seja, o plano plurianual pode ir mais devagar, em vez de ter a
meta de reduzir a 90% em 2023 o desmatamento ilegal.
No Acordo de Paris, o Brasil propôs zerar em 2030, mas tem
metas intermediárias. Em 2020, o Brasil teria que ter derrubado o desmatamento
para o nível de 3 mil km2. Hoje, está em 10 mil e subindo. Mesmo se tivesse
cumprindo o compromisso que firmou com outros países, destruiria uma área
equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo. O Ministério da Economia
deveria pensar duas vezes antes de concordar.
Ricardo Salles também completou o trabalho de desmonte da
presença de qualquer representação nos conselhos ambientais. Desta vez foi reduzida
a participação de entidades civis e conselhos estaduais e municipais na
comissão executiva para o controle do desmatamento ilegal e recuperação de
vegetação nativa, Conaveg. Eles poderão ir, se convidados, mas sem direito a
voto.
Esse é só mais um passo do programa “mais Brasília e menos
Brasil” em cada conselho ambiental. Uma das decisões acabou travando o Fundo
Amazônia. Salles tirou todas as ONGs, entidades científicas, empresariais e
representantes dos nove estados amazônicos do conselho. Resultado: demoliu a
governança.
O vice-presidente Hamilton Mourão recebe educadamente os
investidores, empresários, banqueiros. Promete a todos que o governo vai
melhorar o combate ao desmatamento ilegal. Com isso, ele ganha tempo e tenta
reconstruir a credibilidade do governo. Quando saem propostas assim, de reduzir
a meta que foi estabelecida no plano plurianual de redução do desmatamento
ilegal, Mourão fica falando sozinho. Ou ele está falando só para inglês ver?

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