O governo definiu seu lado na corrida global pela vacina
contra a covid-19. Fez uma análise técnica e optou por associar-se ao projeto
desenvolvido pela Universidade de Oxford, que foi licenciado para a
farmacêutica britânica AstraZeneca e terá a Fiocruz como parceira.
A notícia é capaz de produzir um relativo alívio psicológico
à população, em meio à certeza de que nos próximos dias será alcançada a
assombrosa marca de 100 mil vítimas do coronavírus no país. Por outro lado,
poderá conturbar novamente as relações político-federativas, se essa agenda não
for conduzida com moderação.
O presidente Jair Bolsonaro deve evitar a tentação de
politizar o assunto. A vacina é esperada por milhões de famílias, por empresas
e investidores que aguardam as condições necessárias para a retomada das
atividades. Apenas a massificação de uma ou mais vacinas garantirá
previsibilidade aos agentes econômicos.
Só ela permitirá o retorno completo de trabalhadores e
consumidores às ruas em segurança, sem o risco de sistemas de saúde entrarem em
colapso. Por isso está em curso uma corrida mundial protagonizada tanto por
empresas quanto por governos. A imprensa americana aponta risco político
semelhante por lá.
Segundo o jornal “The New York Times”, cientistas de dentro
e de fora das agências oficiais temem que o presidente Donald Trump aumente a
pressão para que autoridades sanitárias aprovem uma vacina contra a moléstia no
máximo até outubro. Um mês antes do pleito nacional, quando o presidente
buscará a reeleição.
Nos EUA, a vacina pode servir de trunfo político para um
presidente que relativizou os riscos representados pelo novo coronavírus e,
agora com dificuldades na disputa, parece tentar se reposicionar no debate e
melhorar sua imagem entre os eleitores. Aqui, a controvérsia apresenta nuances.
Tem como pano de fundo a rivalidade entre Bolsonaro e o governador de São
Paulo, João Doria.
O presidente também menosprezou o vírus. A área técnica,
contudo, tinha uma estratégia traçada desde o início do ano e logo definiu que
não entraria para valer na corrida pelo desenvolvimento de uma vacina própria.
O plano desenhado ainda na gestão do ex-ministro Luiz
Henrique Mandetta foi preparar o parque tecnológico brasileiro para produzir em
massa alguma das vacinas a serem desenvolvidas no exterior, assim que ela
estivesse pronta e testada.
Essa visão tem como fundamento a certeza de que, embora
legítimos, os esforços para a produção de uma vacina “made in Brazil” poderiam
deixar o país para trás no combate à pandemia e desperdiçar recursos públicos
durante uma grave crise econômica.
Os números mostram que essa opção estratégica foi racional.
Hoje há, segundo o Ministério da Saúde, 231 vacinas contra covid-19 sendo
desenvolvidas no mundo. Dessas, 33 já estão em fase clínica – etapa em que a
testagem começa em seres humanos e são feitas análises de segurança e em
grandes grupos de amostragem.
É um momento essencial para que os pesquisadores obtenham as
informações mais concretas sobre a segurança de se massificar essas vacinas. Os
Estados Unidos têm 58 vacinas em desenvolvimento. Dessas, 6 em fase clínica de
testagem. A China possui um total de 32 projetos desenvolvidos, sendo 11 em
fase clínica.
O Canadá conta com 16, mas apenas 1 em fase adiantada. O
Reino Unido dispõe de 2 vacinas em fase clínica de teste de um total de 9,
enquanto a Rússia tem 1 uma em estágio mais avançado e outras 7 em fase
pré-clínica.
O Brasil tem 6 vacinas em desenvolvimento, mas nenhuma
dessas em fase clínica de pesquisa. Autoridades do governo gostam de dizer que
a vacina Oxford/AstraZeneca está na fase mais adiantada de testes com seres
humanos.
Citam, inclusive, o reconhecimento da Organização Mundial da
Saúde (OMS) quanto a esse estágio. E aqui cabe um registro: valem-se justamente
do respaldo de um organismo internacional tão criticado por integrantes do
próprio Executivo, principalmente pela ala ideológica e antiglobalista da
administração federal.
Pode ser um sinal positivo de despolitização do tema. O
governo também considerou a garantia de acessar a vacina de forma segura,
eficaz e rápida, além da possibilidade de fortalecer o complexo industrial e a
transferência de tecnologia.
A medida provisória que tratará do assunto irá prever
recursos para pagar a AstraZeneca e, também, investir no Instituto Tecnológico
em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos). Outro ponto positivo, ainda de acordo com
integrantes do Executivo, é o Brasil poder participar da atual etapa de
pesquisa clínica. Isso permitirá que se verifique como o produto interage com o
clima local e reage na população brasileira, a qual tem as suas especificidades
e características genéticas.
Mesmo assim, na semana passada Bolsonaro ironizou, nas redes
sociais, a parceria conduzida pelo governo de São Paulo com a China para a
produção de uma outra vacina. O Instituto Butantan, de São Paulo, também mantém
conversas com a Rússia no mesmo sentido e com a declaração o presidente acabou
por alimentar os questionamentos que já vinham sendo feitos por seus apoiadores
na internet. “Se fala muito da vacina da covid-19. Nós entramos naquele
consórcio lá de Oxford.
Pelo que tudo indica, vai dar certo e 100 milhões de
unidades chegarão para nós. Não é daquele outro país não, está OK, pessoal? É
de Oxford”, afirmou o presidente. Os apoiadores foram além, escrevendo nas
redes que paulistas serviriam de cobaia para uma vacina chinesa.
A politização dessas tratativas destoa do status das
relações que o Ministério da Saúde conseguiu construir nos últimos meses com
Estados e municípios. A pasta tem garantido que insumos e equipamentos cheguem
para todas as administrações locais de acordo com suas necessidades, mesmo que
governadas por adversários de Bolsonaro.
É esse o relato elogioso que secretários estaduais,
municipais e também parlamentares estão fazendo chegar ao Planalto – um apoio
que dá tranquilidade ao presidente na sua decisão de manter o general Eduardo
Pazuello como ministro interino da Saúde.

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