Começo a escrever estas linhas lembrando a afirmação contida
numa linda canção para sempre em meus ouvidos, Porto dos Casais: é sempre bom
lembrar coisas passadas! Maravilhosamente, mais e mais quando elas permanecem
no presente.
Retomo em minhas mãos nossa edição do dia 13 de junho
passado e lá reencontro o que escrevi sobre o Itamarati. De repente me dou
conta de que bom mesmo é relembrarmos o todo, sobretudo quando alguns pedaços
do passado são parcelas do presente! Restaurando o tempo – uso o verbo restaurar
sorrindo! –, uma encantadora porção do tempo cá em minha memória é o
restaurante (!) La Casserole, no Largo do Arouche.
Retornando ao passado é, agora, como se eu lá estivesse,
caminhando pela chácara de José Arouche de Toledo Rendon, primeiro diretor –
entre 1827 e 1833 – das minhas velhas e sempre novas Arcadas do Largo de São
Francisco. Passeio por esse espaço e, concomitantemente, pelo Tempo. Em
seguida, no início dos anos 60, ao lado de meu amigo Prado Veppo, poeta de
Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul, ouvindo-o declamar os primeiros versos de
um dos seus mais belos poemas: Largo do Arouche, praça do amor, amplo mercado,
sexo e flor.
A vida não apenas pode ser, a vida é maravilhosa!
Novamente transitando pelo tempo, retorno à São Paulo do
início dos anos 50 e caminho por ali com meu pai, carregando flores que
compramos para minha mãe numa barraca em frente ao La Casserole. Depois, 1954,
aos domingos almoçávamos nós três, lá nos instando para sempre, no Casserole. O
tempo veio passando e permanecemos juntos. Hoje também por conta da Academia
Paulista de Letras, ao seu lado, onde encontro meus confrades, elas e eles,
todas as quintas-feiras nos finais de tarde. Nestes últimos meses via Zoom, em
razão da pandemia que estamos a suportar.
E lá está o Casserole, há 66 anos. Roger e Touna, sua
esposa, o abriram em maio de 1954. Depois que Roger se foi para o Céu, em 2005,
encontrei-a algumas vezes por lá. Serena, elegante, sorrindo para mim, sempre
na mesa 21. Ela também se foi em 2009. Sua filha Marie, minha amiga generosa, o
dirige desde 1987. Hoje ao lado de seu filho, Leo.
De repente é como se seu tio, Georges Henry, estivesse
também ao nosso lado. Diretor musical da TV Tupi lá no passado, amigo próximo
de Tito Madi e Henri Salvador, escreveu um belo livro que tenho entre as mãos
agora, Um Músico… Sete Vidas. Ao envelhecer passou a viver em Amparo, em 2017
de lá também partindo para o Céu.
Recanto de afeto, desfruto o Casserole sem limites. Comer
muito, muito bem, reencontrar amigos, recuperar o passado. Relembro momentos
inesquecíveis que lá vivi. Quase ao lado de Di Cavalcanti e Procópio Ferreira
e, de verdade, ao lado de meu amigo Ulysses Guimarães. E outros seres humanos
maravilhosos hoje na mesma mesa que eu, especialmente os da APL, a nossa academia.
Alguns almoços por lá são inesquecíveis. Um deles em 2006,
almoço de sexta-feira com Eduardo Kugelmas – o Donda –, meu irmão de coração
desde o início dos anos 50, irmão que se foi deste mundo no dia 14 de novembro
de 2006. Conhecemo-nos em 1951, quinto ano do primário no então chamado
Instituto Mackenzie. Depois disso, tudo. Tudo, mil momentos de amizade e
fraternidade, ele na Faculdade de Filosofia da USP, então na Maria Antônia.
Episódios marcantes nos tempos duros e sofridos dos anos 60. Sua ida para o
Chile, depois Paris e retorno ao Brasil. Logo após a sua volta veio passar
longo período em nossa casa em Tiradentes, onde agora estamos já há meses
isolados, Tania e eu, por conta dos maus momentos que suportamos. Nosso
derradeiro encontro nesta esfera foi no Casserole, em 2006, mas estou certo de
que no futuro estaremos juntos.
Além dele Paulo Bomfim, meu Amigo com maiúscula, a respeito
de quem tenho mil momentos a relembrar. Belos almoços em seu apartamento, um
nosso encontro no pátio das velhas Arcadas no dia 25 de outubro de 2017, quando
lá fixaram uma placa em sua homenagem. Cá está ele, ao nosso lado agora,
superando o Tempo. A dizer-nos que o Universo não existe, o que há em torno de
nós é o Multiverso. Por isso o nosso encanto com o Largo do Arouche, as
barracas de flores, e as flores renascerão para sempre no e a partir do
Casserole.
O Céu, diz o Álvaro Moreyra num lindo poema, é uma cidade de
férias, de férias boas que não acabam mais! Daí que no futuro – tenho certeza –
estaremos todos juntos reunidos, reunidos lá no Céu. E de lá meu pai, o Donda,
o Paulo Bomfim e eu um dia desceremos à Terra para almoçarmos, todos juntos
reunidos, no Casserole. Meu pai relembrando as flores que comprávamos para
minha mãe na barraca em frente, o Paulo em dúvida a propósito de passarmos
ligeiramente pela APL, unicamente para uma olhada. Nada prontamente decidimos,
meu pai sussurrou “já volto, vou só pegar umas flores” e o Donda disse tudo:
“Vamos mudar de assunto, apenas lembrar, relembrar nosso derradeiro almoço
aqui, Eros e eu, em 2006. O Tempo não existe, mas nosso Casserole existirá para
sempre!”.
ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO
DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DO STF

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