O Salão Nobre, maior espaço do Palácio do
Planalto, é destinado a eventos de grande porte, como posses de ministros e
recepções a chefes de Estado. Nessas cerimônias especiais, as grandes portas de
vidro são abertas para que o visitante, escoltado pelos Dragões da
Independência, entre pela rampa do palácio que liga a calçada direto ao segundo
andar. No interior do salão, desimpedido de móveis em quase toda a sua
extensão, uma série de espelhos na parede reflete a Praça dos Três Poderes –
diz a lenda em Brasília, repetida pelos guias de turismo, que o arquiteto Oscar
Niemeyer (1907-2012) queria que os poderosos não esquecessem, durante os
coquetéis e solenidades de gala, que o povo estava lá embaixo, observando. Por
isso o recinto também é conhecido como Salão dos Espelhos.
No lugar nobre do prédio-símbolo da Presidência, durante
anos uma pintura brilhou sozinha numa parede à direita de quem entra pela
rampa: o óleo sobre tela Orixás, de Djanira da Motta e Silva
(1914-79), com 3,61 metros de largura por 1,12 metro de altura, datado dos anos
1960. Ele era ponto de parada das excursões de turistas antes da subida para o terceiro
andar, por outra rampa, onde fica o gabinete presidencial. O quadro retrata, em
cores fortes, Iansã, vista como guerreira, associada aos relâmpagos e ventos,
Oxum, deusa da fartura, da maternidade e da beleza, ligada às águas, e Nanã,
orixá mais antiga, símbolo de sabedoria. Ao lado das divindades, duas filhas de
santo que ajudam nas cerimônias. O único quadro no Salão Nobre representava, no
local de trabalho do presidente da República e no coração do poder de um país
majoritariamente cristão e católico, religiões minoritárias de raiz africana,
como a umbanda e o candomblé – que, segundo o censo do IBGE de 2010, apenas
0,3% dos brasileiros disseram seguir, mas que está nas origens da formação do
povo brasileiro desde a escravidão.
O destaque dado à tela agora é passado. Em algum momento
entre junho de 2019 e junho de 2020, Orixás foi retirada do
salão e hoje está na chamada “reserva técnica” do palácio; em outras palavras,
no arquivo, fora de exposição e sem previsão de que um dia volte a ser exibida
ao público. A reserva técnica ocupa duas salas da Presidência, mas os endereços
exatos não são divulgados por motivo de segurança.
Segundo a Secretaria-Geral da Presidência afirmou à piauí,
“a movimentação” do quadro ocorreu em “dezembro de 2019, em conjunto com outras
obras do Palácio do Planalto”. Indagada, a secretaria não mencionou quais
seriam essas outras obras.
Data de junho de 2019 o último registro audiovisual que pude
encontrar na internet sobre a tela. Ela apareceu na mesma parede, no Salão
Nobre, em uma reportagem da TV Record de Brasília sobre turismo no palácio.
Quase um ano depois, em 5 de junho de 2020, o quadro já havia sumido do lugar.
Naquele dia, um grupo de líderes evangélicos fez uma live num círculo ao redor
de Bolsonaro no salão – ao fundo, é possível ver que Orixás não
está mais lá. O pastor Silas Malafaia puxou uma “oração especial” por
Bolsonaro, que cruzou os dedos das mãos e abaixou a cabeça, em sinal de
contrição. “Vamos interceder pelo país, pelo presidente da República. […] O
poder da intercessão é algo poderoso”, disse Mafalaia. O pastor R.R. Soares
solicitou “um clamor pela nação brasileira”. Todos levantaram as mãos e
rezaram, pedindo um “espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de
fortaleza, de conhecimento”. Em 5 de junho, o Brasil atingira 35.047 mortes e
646 mil casos do novo coronavírus. Até a primeira quinzena de agosto, mais 70
mil brasileiros morreriam de Covid-19.
Não foi a única manifestação evangélica no Salão Nobre
durante o mandato de Bolsonaro. No final do ano passado, um “culto de ação de
graças” organizado pela Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional
reuniu mais de 800 convidados. Bolsonaro foi ovacionado quando disse ao
microfone: “A todos vocês nesse momento, é motivo de honra, de orgulho e de
satisfação vê-los, juntamente comigo, publicamente, aceitando Jesus nessa casa.
Nessa casa que estava carente de sua palavra.”
O bispo Renato Cardoso representou Edir Macedo, fundador da
Igreja Universal do Reino de Deus. “Quando nós colocamos de lado nossas
opiniões e nos voltamos para a verdadeira verdade, aí sim há libertação, há
sucesso”, discursou Cardoso. Dias depois, houve no salão “uma cantata” de Natal
com a participação de uma banda de música gospel com guitarra, teclado e
bateria. O mesmo grupo já havia se apresentado no Salão Nobre durante a Páscoa
de 2019.
Entraram os evangélicos, saíram os orixás. No lugar da obra
de Djanira foi colocado outro trabalho da artista, “Pescadores”, que antes
estava no Gabinete Presidencial. A ficha ao lado da obra diz que se trata de
uma réplica do quadro datado de 1958. No novo arranjo, Orixás e
um tapete que ficava à sua frente foram as únicas peças retiradas do ambiente.
Foram mantidos a escultura Evoluções, de Haroldo Barroso (1935-89),
e um conjunto de mesa de centro, sofá e duas cadeiras, do designer Sérgio
Rodrigues (1927-2014).
A Secretaria-Geral da Presidência argumentou, em nota, que a
retirada do quadro é “procedimento usual que visa o descanso e o rodízio das
peças de arte como medida de conservação preventiva, conforme as boas práticas
da museologia”.
A piauí pediu, por meio da Lei de Acesso à
Informação, cópia de eventual processo administrativo que tenha tratado da
retirada da tela, mas a Presidência argumentou que isso inexiste, pois “a
movimentação das obras de arte é realizada por meio de sistema específico de
administração patrimonial”.
Em dezembro de 2018, os repórteres Mariana Carneiro e
Gustavo Uribe, da Folha de S.Paulo, revelaram a intenção do então
presidente eleito Bolsonaro e de sua mulher, Michelle, que frequenta a Igreja
Batista Atitude, no Rio, de retirarem obras sacras do Palácio da Alvorada,
residência oficial, e mencionaram que Orixás, no Planalto, também
estava sob a mira.
Em um ritmo assustador, as notícias sobre intolerância
contra religiões de matriz africana se multiplicam nos últimos anos em todo o
país. Pastores fundamentalistas de algumas igrejas evangélicas condenam
abertamente o candomblé e a umbanda e rechaçam imagens na representação de
santos. Terreiros têm sido destruídos e incendiados. Em Brasília, algumas das
dezesseis estátuas da Praça dos Orixás, na região conhecida como Prainha, ponto
tradicional de celebração do Ano Novo, foram depredadas e vandalizadas nos
últimos cinco anos. No final de 2015, a estátua de Oxalá teve o braço serrado
por um grupo de três pessoas, segundo um morador de rua que testemunhou a cena.
Na época da reportagem da Folha sobre a
retirada das obras do Alvorada, Bolsonaro negou duas vezes, em uma mensagem no
Twitter e em uma live transmitida em 18 de dezembro de 2018, a intenção de
retirar as obras sacras do Alvorada. Ele se disse católico e sua mulher,
evangélica. Porém, sintomaticamente, nada falou sobre a tela de Djanira.
A ironia sobre a possibilidade de o quadro ter sido
retirado por motivo religioso é que Djanira era profundamente cristã. “A
religiosidade dela foi tanta que em 1973 ingressou na ordem das carmelitas, a
Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. Ela foi uma carmelita descalça,
recebeu um hábito e o nome religioso de Teresa do Amor Divino. Porque era
devota de Teresa de Ávila [santa do século XVI]. Quando faleceu, foi sepultada
vestindo esse hábito”, disse o escritor e jornalista de Avaré (SP) Gesiel
Júnior, 56, que escreveu quatro livros sobre a conterrânea ilustre, incluindo a
biografia História de Djanira, brasileira de Avaré (ed.
Arcádia, 2000, 144 págs.). O enterro de Djanira com a roupa do convento é
confirmado por reportagens da imprensa na época de sua morte, ocorrida a 31 de
maio de 1979.
O primeiro quadro pintado por Djanira, por volta de 18 anos
de idade, diz o seu biógrafo, foi um Cristo no Calvário. “O lado religioso vem
desde criança, na família, era muito católica. Ela manteve isso a vida toda.
Tanto que é considerada até uma artista sacra por alguns. Porque são muitos os
trabalhos que retratam anjos, santos. Ela chegou a receber uma comenda do papa
Paulo VI depois que doou uma obra sua para a Arquidiocese do Rio. Na época dom
Eugênio Salles mandou a obra de presente para o Vaticano, em Roma”, contou
Gesiel.
A artista retratou várias vezes a festa do Divino Espírito
Santo, que ocorre até hoje em inúmeros municípios brasileiros, como uma das principais
manifestações do catolicismo popular. Um desses quadros é hoje uma das
principais obras do acervo do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São
Paulo. Nos anos 1960, a convite do então governador da Guanabara Carlos Lacerda
(1914-1977), Djanira pintou Santa Bárbara em um painel no interior da capela
construída em memória dos operários mortos durante a construção do túnel
homônimo na Zona Sul do Rio.
Djanira era tão identificada com o cristianismo que chegou a
ser entrevistada pelo jornal Correio da Manhã para uma
reportagem que analisava uma encíclica papal junto com freis dominicanos, um
rabino, um escritor, uma educadora e um militar. “O capitalismo desumano não
conduz o homem a Deus. A luta contra a miséria, dever moral de todos os homens,
liberta-nos das condições materiais e mais facilmente nos leva à Eternidade. As
palavras do papa Paulo VI são palavras que devem ser seguidas por toda a
Humanidade”, diz Djanira na edição do jornal de 1º de abril de 1967.
O escultor e ex-leiloeiro de arte Evandro Carneiro, 73, foi
amigo da pintora nos anos 1970 e diz que ela era “muito religiosa, e essa
religiosidade foi se acentuando à medida em que ela foi ficando mais doente”.
Segundo Gesiel, Djanira enfrentou pelo menos dezoito cirurgias ao longo da vida
para tratar problemas na coluna, no coração, quedas, além de ter sido
contaminada pela tuberculose. Carneiro disse que com o tempo Djanira foi
ficando “mais voltada para si mesma, para as questões da existência”. “Ela
tinha em casa um recanto muito bonito, um oratório barroco, mineiro, belíssimo,
com algumas imagens sacras muito bonitas, com peças de prata, lampadários,
castiçais, todas de origem religiosa cristã. Aquilo, para quem chegava à casa
dela, denunciava bem a sua religiosidade.”
Em 1970 a artista lançou um livro chamado exatamente Oratório
de Djanira, formado por gravuras de santos como Santa Luzia e São José de
Botas e acompanhado de textos do poeta Odylo Costa Filho (1914-1979): “Djanira
apresenta seus santos,/Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da
madeira,/o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.”
Coincidentemente, ambos nasceram e morreram nos mesmos anos de 1914 e 1979.
Mas então como explicar que a católica Djanira tenha
se interessado pelas religiões de raiz africana? Há registros de várias obras
da artista sobre os rituais de candomblé pintadas sobretudo nos anos 1950 e
1960. “A primeira coisa a dizer é que ela tinha fé em Cristo, praticava a
religião, mas isso não significava que as outras religiões não tivessem o seu
respeito, como merecem todas as pessoas. Cada um tem sua fé, e ela respeitava.
Em segundo lugar, ela se encantou com o candomblé pela beleza dos rituais,
pelas roupas, pelos tecidos brancos e coloridos. É um ritual de dança, é
alegre”, disse Carneiro.
Professor de artes visuais da UnB (Universidade de
Brasília), doutor em artes e membro do núcleo de estudos afro-brasileiros da
universidade, Nelson Fernando Inocencio da Silva, 59, disse que é importante
inserir a obra de Djanira no movimento modernista, que marcou a cultura
brasileira na primeira metade do século passado.
“A produção de Djanira, como de outros artistas seus
contemporâneos, estava focada na representação da cultura brasileira, que não
era tão exaltada. A obra de Djanira estava conectada a isso. Tem outras
pinturas dela destacando os orixás. Era uma busca, queria estabelecer um
diálogo com a cultura afro-brasileira. Isso fazia sentido porque o movimento
modernista brasileiro desde a Semana de 1922 queria romper com os padrões europeus.
Era uma forma de exaltar as referências locais, não mais ficar numa postura
subserviente do ponto de vista estético. Daí o modernismo vai exaltar figuras
como o ‘mulato’ – colocando muitas aspas nesse termo -, o negro, o indígena.”
Mesmo com seus problemas de saúde, Djanira viajou muito pelo
país, segundo Gesiel Júnior. Autodidata, que passara por grandes privações na
infância em Avaré, trabalhadora desde muito jovem na roça, depois como
costureira e por fim dona de uma pequena pensão, Djanira estava sempre atrás de
personagens e temas para sua obra. Plantadores de bananas, pescadores,
mineiros, indígenas, negros, operários, festas populares, tudo virou motivo de
seus quadros. Muito provavelmente, segundo o professor Inocencio, ela conheceu
aspectos das religiões de matriz africana a partir das viagens que fez à Bahia,
onde era muito bem recebida por grandes amigos, como o escritor Jorge Amado
(1912-2001).
Segundo Gesiel e Carneiro, foi numa viagem a Salvador que
ela conheceu seu segundo marido, o historiador e escritor baiano José Motta e
Silva, o Motinha, que acabaria se mudando para o Rio para viver com ela.
“A ida à Bahia foi fundamental, foi quando ela tomou contato
com as religiões afro. Em Salvador ela ficou muito amiga do Jorge Amado e de
Zélia [Gattai, mulher do escritor]. Ele já tinha escrito textos sobre Djanira.
Teve uma exposição em Buenos Aires organizada pela Galeria Bonino, cujo texto
era de Amado. O Carybé, o Mario Cravo, esses artistas baianos gostavam muito
das atividades populares e religiosas e a Djanira entrou nesse círculo.”
Segundo Carneiro, desde a primeira viagem Djanira “ficou encantada por
Salvador, pintou as pessoas nas ruas, o Pelourinho, pintou tudo que via”.
Gesiel disse que Amado “adorava Djanira” e que costumava
hospedar a pintora em sua casa, em Salvador. Ela chegou a pintar um mural na
casa do escritor por volta de 1950, segundo o biógrafo. O tema foi justamente o
candomblé. Para o catálogo de uma exposição de 1958, Amado escreveu: “Essa
pintora, Djanira, sabe todos os mistérios do Brasil, todos os sonhos de seu
povo. […] Sendo um dos grandes pintores de nossa terra, ela é mais que isso, é
a própria terra, o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba, as
máquinas de fiação, o homem resistindo à miséria. Cada uma de suas telas é um
pouco do Brasil. No dia que se escrever a história da arte brasileira, vai-se
dizer de Djanira que sua pintura nasceu do povo, cresceu com ele, com ele se
tornou poderosa e densa de drama e de pura alegria”.
As viagens e amizades com gente de esquerda como
Amado – comunista de carteirinha desde a década de 1930, que em 1946 foi
deputado federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro – colocaram
Djanira sob a mira da ditadura militar (1964-85). Em maio de 1964, pouco depois
do golpe que depôs João Goulart (1919-76) em março daquele ano, Djanira foi
parada numa barreira quando dirigia seu carro para um sítio que mantinha em
Paraty, no Rio. Foi levada para uma delegacia de Niterói e submetida a um
interrogatório “de mais de nove horas”. Djanira ouviu que a ordem de sua prisão
veio “de cima, emanada de um general, informando que eu era capaz de tenebrosas
atividades subversivas, carregando comigo livros suspeitos contra a ordem
política vigente”, conforme a pintora contou depois numa carta publicada
pelo Correio da Manhã.
A artista escreveu, ironizando os policiais, que eles
encontraram no seu carro “livros dos agitadores Matisse, Picasso, Derain,
Viconsti, Braque, Portinari, Goeldi, vários italianos da Renascença e mais
outros perigosíssimos ao bem-estar da família e estabilidade do Ato
Institucional”. A agenda de telefones da artista mereceu “atenções acuradas”.
“Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Iberê Camargo e outros ganharam menções, pois
foram citados com grave interesse. O adido cultural de Cuba e o correspondente
do ‘Pravda’, Vassili Borowisk, ganharam medalhas de interesse especial. A vida
do meu marido, sua boa biblioteca, suas pesquisas de temas nacionais, estavam
bem controladas, pois eles relataram vários passos de sua movimentação normal
Rio-Paraty.”
Djanira disse ter contado aos policiais que pretendia ir a
Cuba para um tratamento de saúde e que havia viajado para a União Soviética por
conta própria, após “ter vendido uma casa”. “Quando perguntada qual a minha
ideia política, respondia com convicção que era somente o meu trabalho de
artista pintora. A produção de um trabalho, seja qual for, é uma ação política
por si só. Política de engrandecimento pátrio.”
As acusações da repressão não impediram, em um episódio
aparentemente contraditório, que o ditador general Castelo Branco (1897-67)
escolhesse justamente um quadro de Djanira, intitulado Cena do Nordeste,
para dar de presente ao “xá”, eufemismo para autocrata, do Irã Reza Pahlevi
(1919-80), quando o iraniano esteve no Brasil em maio de 1965.
Meses depois, em fevereiro de 1966, um novo trauma para
Djanira. Sua casa em Paraty foi cercada e “fuzilada” por policiais da cidade,
disse o Correio, depois que o marido da artista se desentendeu com
um guarda porque se recusara a vestir uma camisa ao andar na rua – a proibição
dos torsos nus teria partido do delegado, em plena cidade turística à
beira-mar. Na fuzilaria, um cachorro do casal, um galgo chamado Horácio, foi
baleado, mas sobreviveu.
A prisão causou problemas de saúde e depressão na artista,
conforme a imprensa registrou na época. Como sua carta deixa registrado, ela
dizia não entender o motivo da prisão e da perseguição.
Há dúvidas sobre como o quadro Orixás foi
incorporado ao patrimônio da Presidência. O registro oficial, obtido por meio
da Lei de Acesso à Informação, diz que a obra, de número 058735-00, entrou no
Palácio do Planalto em 29 de abril de 1999. A data, contudo, entra em
contradição com uma informação prestada à Folha de S.Paulo em
2018 pelo ex-curador da Presidência Rogério Carvalho. Ele contou ter ouvido de
funcionários mais antigos que o ex-ditador Ernesto Geisel (1907-1996), general
que presidiu o país de 1974 a 1979, luterano, também teria pedido a retirada da
pintura – o que a coloca no Planalto mais de vinte anos antes do registro
oficial do patrimônio. A piauí não encontrou uma corroboração
da história sobre Geisel.
Uma versão sobre a origem do quadro publicada pela revista
eletrônica Brasília Encontro em 2013, a partir de uma
entrevista com o então secretário executivo da Comissão de Curadoria dos
Palácios do Planalto e da Alvorada, Claudio Soares Rocha, diz que os três
quadros de Djanira faziam parte da massa falida da empresa de navegação Lloyd
Brasileiro. São três as obras conhecidas da pintora que estão no
Planalto: Orixás, Praia do Nordeste e Colheitas
das Bananas.
Para Evandro Carneiro, as três telas estão ali desde a
década de 1960 e devem ter sido encomendadas diretamente à pintora. “São
quadros do ápice da Djanira, o melhor momento dela, do final dos anos 1950 até
o final dos 1960. Ali a Djanira é genial. Esses ‘Djaniras’ com certeza foram
encomendados. Pelo tamanho das obras, pelos temas brasileiros. Nos anos 1960 o
interior dos palácios em Brasília foi decorado de forma especial, Wladimir
Murtinho [artista e diplomata] foi encarregado de tratar de vários desses
palácios, eu o conheci e ele me contou que inúmeras obras foram solicitadas
diretamente aos artistas, como Di Cavalcanti, Burle Marx. A Djanira era amiga
de todas essas pessoas.”
No registro oficial do Planalto, o valor descrito para Orixás é
irrisório, 960 reais, apenas para efeito contábil. A estimativa de Carneiro,
que foi leiloeiro por 36 anos e teve uma galeria em Ipanema, no Rio, antes de
se dedicar à carreira de escultor, é que Orixás deve valer de
1 milhão a 1,5 milhão de reais. O valor relativamente baixo da obra está
relacionado a uma boa quantidade de obras falsificadas de Djanira, um ataque
que a própria artista denunciou várias vezes em vida. O aumento do valor dos
seus quadros nos próximos anos dependeria, segundo Carneiro, da catalogação
meticulosa de sua obra, como foi feito pelo Projeto Portinari sobre o pintor de
Brodowski (SP).
“A Djanira já foi muito valorizada. Portinari era o mais
caro, depois Lasar Segall, Di Cavalcanti, Guignard. E a Djanira estava no meio
deles, integrava esse grupo. Mas o valor foi caindo ao longo dos anos. Acho uma
artista ainda barata em relação ao conjunto de sua obra. O que dá valor é o
conjunto da obra do artista. É como se fosse a ação de uma empresa. Se a
empresa é sólida, a ação vale mais. Agora, se ela é corroída por falsificações,
fica mais difícil. É preciso que seja feito um grande projeto de catalogação de
toda a obra de Djanira.”
O professor da UnB Nelson Inocencio disse não crava uma
estimativa de valor para Orixás, mas seria na “casa dos milhões”,
pelo valor histórico que o quadro também carrega a partir da exposição no
Planalto. O professor soube pela piauí que Orixás fora
retirado do Salão Nobre e colocado na “reserva técnica” da Presidência.
“Essa notícia, para mim isso é muito óbvio, representa a
intolerância e o abuso de poder. A ignorância do presidente da República, que
não sabe o que é cultura, é tão assustadora, é tão terrível. Talvez eles [o
presidente e a primeira-dama] nem saibam que isso é abuso de poder, não sabem a
diferença entre público e privado. O Palácio do Planalto não é a casa dele, o
domicílio. Ali é onde ele administra – falando de Bolsonaro é até difícil dizer
que ele administra alguma coisa – mas é ali que ele atua. O espaço é público,
não é privado. O Planalto tem um acervo que representa a sociedade brasileira.
Você tirar uma obra daquela por não estar em conformidade com sua crença é
violento, violento. Se a cultura é diversificada, o quadro está ali
representando um pouco dessa diversidade. Tudo isso que a gente está falando
tem a ver com o Brasil de verdade, não o Brasil que muitas pessoas imaginam. O
que estamos vivendo em relação a todas as formas que visam aniquilar a presença
negra no Brasil mostra o quanto a gente ainda tem que caminhar como sociedade.
Historicamente, isso não é novidade nenhuma. A população negra sempre foi
objeto de perseguição, mesmo depois da escravidão. Se a pessoa é perseguida, as
religiões também serão perseguidas. E a perseguição tem a ver com o próprio
racismo.”
Repórter desde 1989, colunista do portal Uol, autor de
"Os fuzis e as flechas" e "Operação Banqueiro".

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