Estamos com um número incrível de analfabetos. O Ministério
da Educação, teoricamente, tem uma Política Nacional de Alfabetização (PNA),
mas, na prática, o assunto não
evolui. Ainda discutimos questões de método, debatendo virtudes ou defeitos
do que chamamos de fônico, que é um modelo que privilegia a associação entre
letras e fonemas.
Há mais de 40 anos não havia essa dúvida. O programa do
livro didático aprovou uma cartilha, com o nome de “Davi, meu amiguinho”, de
autoria da professora Eunice Alves, produzida pela Bloch Editores, que adotava,
com muito sucesso, o método fônico. Depois disso, o processo sofreu
uma tremenda regressão. Em consequência, nossas crianças chegam ao 3º ano
do ensino fundamental com sinais claros de que não haviam sido devidamente
alfabetizadas. Nada evoluirá corretamente sem a participação devida de estados
e municípios, hoje ausentes do processo. A capacidade de coordenação do MEC é
praticamente nula.
Temos no papel o chamado “Plano
Nacional de Educação”. É inacreditável como os seus 20 temas estão sendo
desconsiderados nos meios oficiais, como se pudessem navegar neste mar revolto
sem bússola. A alfabetização é apenas um dos itens, de maior ou menor
relevância, mas temos outros para pautar. Com o pormenor agravante, depois da
pandemia de Covid-19, de que os recursos, que já eram escassos, vão rarear
ainda mais.
Vamos precisar de um robusto Plano Marshall para a nossa
recuperação econômica. Mas o curioso é que, do grupo constituído pelo governo
Jair Bolsonaro, não são conhecidos os grandes especialistas que cuidarão da
educação, como se ela não tivesse importância.
Como se dará a transição para a fase em que se deverá adotar
um sistema híbrido de ensino, harmonizando o presencial com o virtual? Haverá
professores para isso tudo? Bem preparados?
Não existe uma política de formação docente sistêmica. Na
verdade, falta minimamente articulação entre secretarias estaduais e municipais
de Educação e os órgãos do MEC envolvidos no assunto, como é o caso do Inep.
Tudo é levado de forma periférica, sem
o aprofundamento devido.
O atendimento a deficientes se faz de modo precaríssimo, e a
formação de professores para atender ao ensino médio é uma das nossas grandes
vulnerabilidades. Sem o planejamento e a gestão devida, mesmo que se consiga o
milagre de levantar recursos financeiros, do jeito que as coisas caminham os
resultados serão pífios. Uma tragédia anunciada.
Arnaldo Niskier
Professor, jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e presidente do Conselho de Integração Empresa-Escola Rio (CIEE-RJ)

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