O ministro Paulo Guedes vê a ação de ricos se escondendo
atrás dos pobres nas críticas a um imposto sobre movimentação financeira. Na
ida dele à Comissão Mista do Congresso sobre reforma tributária, o ponto mais
tenso foi sempre a CPMF. Não aceitou o nome, mas diante de qualquer referência
a ele Guedes ou se defendia ou atacava. Disse que só “maldade ou ignorância”
levam as pessoas a comparar o imposto que ele quer criar com a velha CPMF. Ele
falou isso num disparo contra o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da
reforma. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse que no caso dela era
“ignorância” porque ignora qual é a proposta do governo, dado que ela ainda não
foi apresentada.
Somando-se todas as falas, fica claro que, sim, o ministro
pensa em tributar as transações financeiras. Mas ele diz que é apenas um
imposto sobre as grandes empresas de tecnologia. Paulo Guedes defendeu a tese
de que os ricos no Brasil falam em regressividade da CPMF para se esconder
atrás dos pobres.Míriam Leitão, O GLOBO
O ministro Paulo Guedes vê a ação de ricos se escondendo
atrás dos pobres nas críticas a um imposto sobre movimentação financeira. Na
ida dele à Comissão Mista do Congresso sobre reforma tributária, o ponto mais
tenso foi sempre a CPMF. Não aceitou o nome, mas diante de qualquer referência
a ele Guedes ou se defendia ou atacava. Disse que só “maldade ou ignorância”
levam as pessoas a comparar o imposto que ele quer criar com a velha CPMF. Ele
falou isso num disparo contra o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da
reforma. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse que no caso dela era
“ignorância” porque ignora qual é a proposta do governo, dado que ela ainda não
foi apresentada.
Somando-se todas as falas, fica claro que, sim, o ministro
pensa em tributar as transações financeiras. Mas ele diz que é apenas um
imposto sobre as grandes empresas de tecnologia. Paulo Guedes defendeu a tese
de que os ricos no Brasil falam em regressividade da CPMF para se esconder
atrás dos pobres.
— Se eu falar que há alinhamento com um imposto de
movimentação financeira, Deus me livre. Já caiu o Secretário da Receita, cai
todo mundo que fala disso. Parece que é um imposto interditado. Muita gente não
quer deixar as digitais em suas transações. Escondido atrás do pobre. Se o pobre
que ganha R$ 200 de Bolsa Família, e falar que é um imposto de 0,2%, são R$
0,40. Qualquer aumento de R$ 10 ou R$ 30 já tirou. Não dá para rico se esconder
atrás de pobre. O rico é o que mais faz transações, o que mais consome serviços
digitais. E está isento. Esconde atrás do pobre — disse o ministro.
Tudo é mais complexo. O imposto distorce preços, camufla a
carga tributária, é indireto. E quem demitiu o secretário da Receita que falou
no assunto foi o presidente Jair Bolsonaro.
Logo no começo da sessão, o ministro criticou o relator.
Disse que Aguinaldo Ribeiro havia cometido um excesso quando disse que o
imposto (a CPMF) era medieval:
— Ele sugeriu que a Google e o Netflix existiam na Idade
Média quando falou que o imposto digital é medieval. Os padres, os bispos nas
catedrais góticas usavam Netflix, Google, Waze.
O deputado João Roma (Republicanos-BA) disse que o relator
se referia ao “absolutismo” de um governo que impõe um tributo sem explicar
qual é. A senadora Simone Tebet propôs que o governo mostrasse todo o seu
projeto:
— Vossa excelência diz que quem está falando de CPMF é por
maldade ou ignorância. Eu me incluo entre os ignorantes. Eu quero entender se
essa contribuição vai atingir as plataformas ou qualquer um que com um cartão
de crédito compre um remédio na esquina.
O ministro não tirou a dúvida da senadora. E reclamou da
imprensa, que o faz, segundo ele, ficar o tempo todo se defendendo. Perguntado
pelo senador Reguffe (Podemos-DF) se atualizaria a tabela do Imposto de Renda,
ele disse que fez as contas:
— Custa R$ 22 bilhões elevar a faixa de isenção para R$ 3
mil. É um Fundeb. Se for estendido às demais faixas a conta vai para R$ 36 bi.
A classe política tem de decidir isso. O congressista foi eleito para tomar
decisão.
Guedes lembrou que não atualizar a tabela do IR
é uma forma oculta de tributar, mas atualizar seria indexar. Em outros países,
disse, “todo mundo entende inflação como perda”. Na época da campanha, a
promessa era elevar a faixa de isenção para R$ 5
— Se eu falar que há alinhamento com um imposto de
movimentação financeira, Deus me livre. Já caiu o Secretário da Receita, cai
todo mundo que fala disso. Parece que é um imposto interditado. Muita gente não
quer deixar as digitais em suas transações. Escondido atrás do pobre. Se o pobre
que ganha R$ 200 de Bolsa Família, e falar que é um imposto de 0,2%, são R$
0,40. Qualquer aumento de R$ 10 ou R$ 30 já tirou. Não dá para rico se esconder
atrás de pobre. O rico é o que mais faz transações, o que mais consome serviços
digitais. E está isento. Esconde atrás do pobre — disse o ministro.
Tudo é mais complexo. O imposto distorce preços, camufla a
carga tributária, é indireto. E quem demitiu o secretário da Receita que falou
no assunto foi o presidente Jair Bolsonaro.
Logo no começo da sessão, o ministro criticou o relator.
Disse que Aguinaldo Ribeiro havia cometido um excesso quando disse que o
imposto (a CPMF) era medieval:
— Ele sugeriu que a Google e o Netflix existiam na Idade
Média quando falou que o imposto digital é medieval. Os padres, os bispos nas
catedrais góticas usavam Netflix, Google, Waze.
O deputado João Roma (Republicanos-BA) disse que o relator
se referia ao “absolutismo” de um governo que impõe um tributo sem explicar
qual é. A senadora Simone Tebet propôs que o governo mostrasse todo o seu
projeto:
— Vossa excelência diz que quem está falando de CPMF é por
maldade ou ignorância. Eu me incluo entre os ignorantes. Eu quero entender se
essa contribuição vai atingir as plataformas ou qualquer um que com um cartão
de crédito compre um remédio na esquina.
O ministro não tirou a dúvida da senadora. E reclamou da
imprensa, que o faz, segundo ele, ficar o tempo todo se defendendo. Perguntado
pelo senador Reguffe (Podemos-DF) se atualizaria a tabela do Imposto de Renda,
ele disse que fez as contas:
— Custa R$ 22 bilhões elevar a faixa de isenção para R$ 3
mil. É um Fundeb. Se for estendido às demais faixas a conta vai para R$ 36 bi.
A classe política tem de decidir isso. O congressista foi eleito para tomar
decisão.
Guedes lembrou que não atualizar a tabela do IR é uma forma
oculta de tributar, mas atualizar seria indexar. Em outros países, disse, “todo
mundo entende inflação como perda”. Na época da campanha, a promessa era elevar
a faixa de isenção para R$ 5 mil.
O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) criticou o aumento do
PIS-Cofins (CBS) sobre livros. Guedes de novo falou da divisão entre ricos e
pobres:
— O deputado seguramente não quer ser isentado quando compra
um livro, né? Ele tem salário suficientemente alto para comprar e pagar imposto
como todo mundo. Ele está preocupado com as classes baixas. Essas, se nós
aumentarmos o Bolsa Família, vamos estar atendendo. Agora, acredito que eles
estão mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós
frequentamos.
O ministro disse que “quem tem poder em Brasília” consegue
pagar menos imposto e por isso “há R$ 300 bilhões de desoneração”. E quem tem
dinheiro “não paga imposto e vai pra Justiça” e assim há um contencioso de R$
3,5 trilhões.
O que o ministro não explica é por que não cumpriu a
promessa de campanha de acabar com os R$ 300 bilhões de renúncias fiscais e por
que manteve as isenções da Zona Franca de Manaus, já que me disse que “não
deixaria o Brasil todo ferrado” para manter a Zona Franca. Entre os conflitos verbais
do ministro e os fatos há uma certa distância.
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