Tradução de Sergio Flaksman
Nos últimos anos, uma das tendências mais
surpreendentes das ciências sociais pode ser descrita como “a descoberta da
ignorância”. À primeira vista, a escolha desse objeto de estudo parece algo
bizarra, pois há mais de trinta anos nos dizem que vivemos numa “sociedade do
conhecimento”. Está cada vez mais claro, entretanto, que hoje vivemos também
numa “sociedade da ignorância”, em que de fato sabemos pouco sobre as doenças,
o meio ambiente e o funcionamento dos negócios e da política.
Essa desconfortável
tomada de consciência nos coloca um desafio. Como estudar a falta de
conhecimento? Uma das respostas tem sido examinar as práticas correntes de
ocultação de informações ou circulação de fake news (que antes
chamávamos simplesmente de “mentiras”), descrevendo essas atividades como
exemplos da “construção”, “produção” ou “fabricação” da ignorância, quando, por
exemplo, encobrem calamidades ou defendem que determinada droga não tem efeitos
colaterais perigosos. Seria mais preciso falar de “manutenção” do que de “produção”
da ignorância, mas a linguagem dramática usada atualmente tem a vantagem de
chamar a atenção do público.
Outra resposta a
esse novo desafio seria estudar a “história social” da ignorância, perguntando
quem ignora o quê em dado lugar e em dada época, quais são as causas dessa
ignorância e, acima de tudo, que consequências ela produz. Na verdade, talvez
seja melhor falar de “ignorâncias”, assim no plural, uma vez que são tão
variadas quanto os muitos saberes que existiram ou ainda existem. A humanidade
nunca soube tantas coisas como hoje, mas cada indivíduo tem conhecimento apenas
de uma parte ínfima desse saber. Quanto mais se tem a saber, mais se pode
ignorar.
Apresento a seguir
alguns exemplos da ignorância política – inclusive o que se pode chamar de
“política da ignorância”, ou seja, a prática política de empresas e governos
que visa manter o público na ignorância de alguma coisa que seria de seu
interesse saber. Começo pela ignorância dos que governam e, em seguida, discuto
sobre a ignorância dos governados.
Qualquer governante ou, em termos mais
gerais, qualquer pessoa encarregada da tomada de decisões, de presidentes de
país a presidentes de empresas, precisa decidir em condições de incerteza, pois
não tem como antever o futuro. Padecem de uma ignorância inevitável, mas podem
reduzir a incerteza procurando se informar sobre os problemas a serem
enfrentados. A pandemia pôs à prova, em escala mundial, a capacidade de
governantes e empresários para tomarem decisões baseadas em boa informação, em
vez de atuarem de forma ignorante. E não há dúvida de que muitos foram
reprovados no teste. Eles padecem da chamada “ignorância intencional”, em
outras palavras, da opção por não querer saber.
Autoridades que
tomam decisões importantes sem conhecimento suficiente não são um fenômeno
novo. Na Europa renascentista, alguns reis que não escolheram exercer o poder,
mas simplesmente o herdaram, não tinham muito interesse em acumular informações
sobre seus reinos. Preferiam ir à caça. De fato, quando diplomatas estrangeiros
queriam discutir alguma questão importante com o monarca, muitas vezes
precisavam procurá-lo na floresta. Pode-se dizer que os governantes tomavam as
decisões políticas nos intervalos entre as caçadas.
Mesmo os
governantes mais conscienciosos tinham dificuldades para obter as informações
de que precisavam. E concentrar a atenção numa única fonte de informação lhes
deixava pouco tempo para dar conta de outras. O imperador Carlos V, do Sacro
Império Româno-Germânico, passou a maior parte da vida viajando pelos seus
diversos domínios europeus, porque acreditava que deveria ver com os próprios
olhos como viviam seus súditos. A desvantagem desse estilo de vida é que
deixava pouco tempo ao imperador para ler os documentos de Estado, entre eles
as cartas que recebia de seus domínios no Novo Mundo relatando como estavam as
coisas por lá. Seu filho, o rei Filipe II da Espanha, um dos monarcas mais
conscienciosos de sua época, optou pela solução oposta. Passava longas horas à
mesa de trabalho, lendo e comentando os milhares de documentos que recebia. A
desvantagem dessa atenção para com os detalhes era que o rei ficava limitado ao
Escorial, isolado da sociedade que governava.
Uma história
popular que circula em vários lugares do mundo revela a consciência do problema
do isolamento. Ela fala de um governante que resolveu se disfarçar e caminhar à
noite pelas ruas da capital, pois era o único modo de saber de fato o que as
pessoas comuns pensavam dele. De que outra maneira poderia inteirar-se disso?
Inútil interrogar os ministros, pois o mais provável era que só respondessem o
que o monarca queria ouvir. Podia recorrer a informantes que ouvissem às
escondidas as conversas em tavernas e outros locais públicos, relatando depois
no palácio o que alegassem ter escutado – mas as suas informações não seriam
confiáveis, pois eram pessoas pagas para produzi-las regularmente, tivessem ou
não descoberto alguma conversa sediciosa. De qualquer modo, nem mesmo espionar
e escutar as conversas das ruas proporcionaria ao monarca a oportunidade de
saber tudo que desejava e precisava saber. Um problema especialmente agudo para
Filipe II, tendo em vista a vastidão de seus domínios, era o ritmo lento das
comunicações. Ele sabia ainda menos do que ocorria no México ou no Peru do que
na Espanha, pois os relatórios de seus vice-reis nas Américas podiam levar até
um ano para chegar às suas mãos. O problema da comunicação a longa distância só
foi solucionado no século XIX, graças à invenção do telégrafo e do telefone.
Saltemos rapidamente para o século XXI. Ainda
encontramos governantes – mais presidentes e primeiros-ministros do que reis –
pouco interessados em tomar conhecimento dos problemas enfrentados por seu
povo, ou mesmo pelo resto do mundo. São ignorantes e, o que é pior, ignoram a
própria ignorância. Estão tão isolados no Salão Oval ou no Palácio do Planalto
quanto Filipe II no Escorial, e são supervisionados de perto nas ocasiões em
que encontram “o povo”. Seja como for, alguns deles preferem ignorar
conhecimentos que não lhes convêm. É verdade que há muito mais gente
trabalhando para os governos do que no passado, e que o governo é informado por
um imenso volume de estatísticas, para não falar da vigilância exercida sobre
muitas atividades de seus cidadãos.
Entretanto, como
acontece tantas vezes, a solução de um problema anterior acabou produzindo um
problema novo, que, no caso, é a “ignorância organizacional”. Na intenção de
coletar tantas informações sobre os cidadãos, os governos se transformaram em
entidades imensas. Como ocorre em outras grandes organizações, as falhas de
comunicação, seja entre departamentos especializados, seja entre níveis
diferentes da hierarquia administrativa, fazem com que os ocupantes dos postos
mais altos mantenham-se na ignorância de boa parte do que deveriam saber para
bem governar – exatamente como ocorria no século XVI, embora por motivos
diferentes.
Na verdade, quanto
mais informação um governo reúne, mais difícil se torna para qualquer indivíduo
se inteirar de mais que uma fração ínfima do todo. Muito já foi escrito sobre o
que se perde na tradução entre uma língua e outra. De maneira similar, numa
organização grande e complexa, muitas informações cruciais para quem toma as
decisões podem se perder durante a “transmissão” e nunca chegar ao topo. Até
mesmo os diferentes organismos especializados dos governos ficaram grandes
demais, pelo menos nas maiores nações, e têm dificuldade para enfrentar esse
problema. Por exemplo: avisos de que poderia haver um atentado às Torres Gêmeas
foram captados pelos serviços secretos meses antes do ataque propriamente dito,
em 11 de setembro, mas não foram transmitidos às pessoas certas, pois
submergiram no imenso volume de informações de maior ou menor importância, que,
como de costume, nunca parava de chegar. Como declarou Condoleezza Rice, então
conselheira de Segurança Nacional dos Estados Unidos, depois da tragédia, havia
“falatório demais” no sistema.
Um dos grandes
problemas dos governos no século XXI é o excesso de informação. Quando ela
chega, ou não há tempo suficiente para ser analisada antes da tomada de decisão
ou logo é suplantada por uma nova leva de dados. Esmiuçar os big data pode
ser uma tarefa fadada ao fracasso, pelo menos no campo da política. Os
cientistas, por outro lado, podem geralmente se dar ao luxo de ter mais tempo
para esperar os resultados.
Governantes
autoritários ainda enfrentam os mesmos problemas dos monarcas do Antigo Regime,
sobretudo a relutância dos subordinados em relatar ao chefe de Estado aquilo
que acham que ele não quer saber. É difícil imaginar alguém falando verdades
incômodas a Hitler ou Stálin. Já os regimes democráticos enfrentam problemas de
outra ordem. Um presidente ou primeiro-ministro geralmente fica poucos anos no
poder e, com isso, tem pouco tempo para adquirir o conhecimento necessário para
fazer um bom governo. Decisões em áreas como a educação, a saúde, a indústria
ou a política externa requerem uma quantidade considerável de conhecimento
especializado, mas os ministros à frente desses aparatos do Estado raras vezes
se prepararam suficientemente para a função. De todo modo, também eles só ficam
nos cargos por pouco tempo, deixando seus ministérios justamente quando começam
(ou mesmo antes de começar) a adquirir o conhecimento necessário para o
exercício eficaz de suas funções. Embora os funcionários mais graduados de cada
ministério, às vezes com décadas de experiência, geralmente detenham as
informações necessárias, alguns ministros parecem achar que não precisam do
conselho de ninguém.
Como apontam
estudos recentes, algum grau de ignorância tem certo valor “estratégico”,
podendo apresentar desvantagens e vantagens. Em termos mais precisos, muitas
vezes a ignorância de uns pode ser vantajosa para outros. A ignorância dos governantes,
ou do governo em geral, proporciona a seus súditos um grau de liberdade maior
que o previsto em lei, confirmando a famosa distinção entre país legal e país
real. Inversamente, muitos regimes só sobrevivem porque os cidadãos ignoram
o que acontece dentro do governo – quem está pagando ou recebendo propinas, por
exemplo, ou quem está passando informações secretas para certas empresas ou
para governos de outras nações. O processo de ocultar as informações do público
é muitas vezes descrito como “ignorância estratégica”, ou como a “política da
ignorância”.
O que se pode dizer da ignorância da política
por parte dos cidadãos comuns, dos governados? Mais uma vez, seria proveitoso
estabelecer a distinção entre dois tipos de regime, o autoritário e o democrático,
embora muitos deles se situem no espaço intermediário entre esses dois
extremos. Há muito tempo se diz que a ignorância popular sustenta o despotismo.
No século XVII, eruditos do Ocidente citavam a história do Império Otomano em
apoio a esse argumento. Trezentos anos depois, o jornalista polonês Ryszard
Kapuściński, tratando do Irã durante o governo do xá Reza Pahlevi, escreveu que
“a existência de uma ditadura depende da ignorância da massa; por isso os
ditadores se esforçam tanto para cultivar essa ignorância”. Esse é o motivo
pelo qual os regimes autoritários proíbem as menções a certos fatos e censuram
livros, jornais e outros meios de comunicação, ao mesmo tempo que apresentam a
versão oficial sobre outros eventos, “produzindo” assim ignorância. Na União
Soviética era proibido mencionar a existência dos gulags e
calamidades eram encobertas, como ocorreu (em vão) com o acidente nuclear de
Chernobil, em 1986. Ironicamente, o encobrimento de Chernobil ocorreu na época
em que Mikhail Gorbachev promovia sua política oficial de “transparência” (glasnost),
anunciada poucos meses antes do desastre.
O problema dos
governos que tentam manter seus cidadãos na ignorância de questões importantes
é que a curiosidade, como a natureza, “abomina o vácuo”. Assim, o vácuo é
muitas vezes preenchido por boatos e teorias da conspiração. A ignorância sobre
as causas de pandemias, por exemplo, muitas vezes levou – e ainda leva – a
atribuir a culpa pela propagação da doença a determinado grupo, sejam os
judeus, em 1348, seja o governo chinês, em 2020. Sabe-se que boatos não
inspiram muita confiança, mas na União Soviética dos tempos de Stálin as
pessoas comuns confiavam mais nos rumores que nas páginas do Pravda,
o jornal oficial do regime. Para combater a difusão de notícias não oficiais,
as autoridades baniram os catálogos de telefone e reduziram o número de cafés,
imaginando que qualquer conversa entre os cidadãos trataria inevitavelmente dos
temas que o governo preferia que ignorassem.
Nos regimes
autoritários, os governos se preocupam com o fato de as pessoas saberem demais.
Nos regimes democráticos, o que os preocupa é justamente o contrário, que os
cidadãos saibam de menos. Claro que, como os autores de várias denúncias já
demonstraram, os governos democráticos também tentam impedir que seus cidadãos
tomem conhecimento de algumas de suas operações, mas a preocupação com a
“ignorância dos eleitores” está presente em toda a história da democracia.
Vejamos o exemplo
da Grã-Bretanha. Na primeira metade do século XIX, só uma pequena minoria da
população tinha direito a voto, e mesmo o famoso pensador John Stuart Mill,
filiado ao Partido Liberal, disse ter “medo da ignorância” daquilo que ele
definia como “a massa”. Quando o direito a voto foi ampliado em 1867 (embora os
trabalhadores do campo e as mulheres continuassem barrados nas eleições), um
importante político do mesmo partido manifestou seu medo de que os novos
eleitores viessem a constituir “uma classe muito ignorante”. Walter Bagehot,
autor do clássico ensaio A Constituição Inglesa, lançado no mesmo
ano de 1867, concordava, afirmando que a supremacia das “classes inferiores […]
no estado em que hoje se encontram equivale à supremacia da ignorância sobre a
instrução, e da quantidade de pessoas sobre o [seu grau de] conhecimento”.
Outro político da época observou, em tom irônico, que com a ampliação do
direito ao voto “devíamos educar nossos patrões”. Não há de ser coincidência
que, apenas três anos mais tarde, em 1870, tenha sido aprovado um decreto
tornando compulsória a frequência à escola.
Hoje, o problema da
“ignorância do eleitor” voltou à baila, especialmente nos Estados Unidos.
Pesquisas sobre conhecimento político identificaram uma faixa de pessoas
(descritas, em inglês, como know nothings, ou as “sabem nada”) que
responderam errado ou não responderam a dois terços ou mais das perguntas da
enquete. Esse grupo abarca mais ou menos um terço do eleitorado. Falta aos
“sabem nada” aquilo que é às vezes definido como a “competência para a
cidadania”. E houve quem defendesse que lhes fosse negado o direito ao voto, já
que todo cidadão tem o direito de não ser submetido ao risco de ser prejudicado
em decorrência de decisões tomadas por gente incompetente, ou de maneira
incompetente.
O que fazer? Uma
solução tradicional para o problema, particularmente na América do Sul, foi
transformar a condição de alfabetizado em qualificação para votar,
presumindo-se que os eleitores precisavam ser capazes de ler os jornais para se
informar sobre a política (ainda que o verdadeiro motivo fosse impedir a
participação dos pobres nas eleições). Hoje, os testes de cidadania adotados
para imigrantes em vários países cobram um mínimo de conhecimento político. Por
exemplo, o teste britânico, intitulado A Vida no Reino Unido, pede que os
candidatos à cidadania local – além de responderem a uma série de questões
sobre esportes e entretenimento – digam quantos são os membros que integram o
Parlamento. Infelizmente, essas possíveis “soluções” para a questão da
ignorância dos eleitores criam mais problemas do que os resolvem. Será que o
mero conhecimento factual serve para atestar a competência de um eleitor? O que
dizer da aceitação acrítica das distorções da imprensa? E das fake news?
E da atração irracional que alguns eleitores sentem por indivíduos carismáticos
autonomeados salvadores da pátria? De toda maneira, se só for admitido o voto
de cidadãos de comprovada competência política, quem representaria os
interesses do restante da população?
Para a ignorância
do eleitorado, o único remédio que me ocorre – pois falar de uma “cura” já
seria um excesso de otimismo – está na educação. Discussões regulares sobre a
vida política poderiam inspirar os alunos a buscar informações e, mais
importante ainda, estimulá-los a desenvolver um pensamento crítico sobre os
problemas que o mundo enfrenta hoje. As fake news não são um
problema novo, mas hoje chegam a muito mais gente e com grande rapidez,
aumentando assim a chamada “fabricação” da ignorância. Na situação atual,
torna-se cada vez mais necessário ensinar à nova geração de cidadãos e
eleitores como avaliar a credibilidade das mensagens que recebem, seja da
imprensa escrita ou da televisão, seja das redes sociais. Eles precisam sempre
perguntar-se quem lhes envia essas mensagens e com qual motivação. Transformar
em parte essencial do currículo escolar o exercício da suspeita sistemática
(ou, mais exatamente, do discernimento) ajudaria a fortalecer a democracia
neste momento em que ela se encontra ameaçada em tantas partes do mundo.
O artigo é um
trecho de seu próximo livro, Uma História Social da
Ignorância
Historiador inglês,
é professor emérito da Universidade de Cambridge. É autor, entre outros,
de Uma História Social do Conhecimento (Zahar)

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