A eleição municipal nas capitais, sobretudo em São Paulo, é
um sinalizador para a sucessão presidencial e seus resultados influenciam a
equação política para o pleito nacional, ainda que de forma tênue. Sua
dinâmica, entretanto, é local. Para traçar prognósticos e poder errar um pouco
menos, é importante perceber que o eleitor paulistano e carioca tem um padrão
de voto, pouco influenciável pelo cenário nacional, ainda que o afete.
Em São Paulo há um cenário de polarização ideológica
estabelecido e consistente. Tanto esquerda quanto direita são fortes. No Rio
isso é menos nítido, com a esquerda sempre encapsulada na intelectualidade das
áreas mais ricas e em alguns nichos de movimentos sociais nas periferias. Os
cariocas não elegem um prefeito esquerdista desde 1992. Pode parecer estranho
hoje, mas em 1988, quando eleito, Marcello Alencar, futuro governador tucano,
ainda era do PDT e alinhado ao brizolismo. Depois, nunca mais: Cesar Maia e
seus pupilos que dele dissentiram, Luiz Paulo Conde e Eduardo Paes, ganharam
todas até 2016, quando veio Crivella.
Em São Paulo a direita ganhou as eleições de 1985, com
Jânio, 1992 e 1996, com Maluf e Pitta. O colapso do malufismo deslocou
paulatinamente seu eleitor para o PSDB ou para o DEM, no episódio Kassab em
2008 e com os tucanos em 2004 e 2016. Uma franja, expressiva na baixa renda em
bairros que fazem a transição entre as regiões ricas e a periferia resistiu na
maioria das eleições aos tucanos.
Já a esquerda triunfou em 1988, 2000 e 2012 e sempre esteve concentrada geograficamente
nos bairros periféricos e politicamente no PT. Este traço está esmaecido e o
petismo vive um processo de decadência na cidade, análogo ao que o malufismo
sofreu. A eleição de 2020 pode arbitrar quem herda o espólio petista.
A corrida de 2012 foi ganha por Fernando Haddad, mas o germe
do enfraquecimento já circulava no organismo petista. Haddad foi escolhido de
forma traumática, alijando a ex-prefeita Marta Suplicy, principal referência
eleitoral do PT à época. Ele teve 29% dos votos no primeiro turno e ficou em
segundo lugar, atrás de José Serra, com 31%.
O petista virou no segundo turno, ajudado pela tremenda
rejeição a Serra, cuja origem se encontrava na sua polêmica decisão de
renunciar ao cargo de prefeito para disputar o governo paulista, em 2006. O
repúdio a Serra era algo tão forte que a franja conservadora que não engolia os
tucanos poderia ter surpreendido. Celso Russomanno, pelo PRB, e Gabriel
Chalita, do MDB, calavam fundo entre os eleitores terrivelmente evangélicos, no
primeiro caso, e católicos no segundo, e nas regiões de transição entre pobreza
e riqueza. Juntos, tiveram 36% dos votos (dois terços deste total para
Russomanno e um terço para Chalita).
Na eleição de 2016, o candidato do MDB não foi Chalita, foi
Marta Suplicy. E Marta tirou votos do PT, não do PSDB. Houve uma dispersão na
esquerda e uma concentração na direita, o inverso de quatro anos antes.
Além de Marta, outra ex-prefeita petista, Luiza Erundina, se
candidatou. Somadas, representaram 14%. Entre as eleições de 2012 e a 2016,
Haddad perdeu exatos doze pontos percentuais: de 29% baixou para 17%.
Já Russomanno se apresentou de novo, mas desta vez não
enfrentou um cacique tucano desgastado por erros políticos. Ele se confrontou
com uma figura nova na política, João Doria. Russomanno teve 14% dos votos,
oito pontos percentuais a menos do que em 2012. Não havia no cardápio de 2016
nenhuma opção a Chalita para os 14% que optaram por ele na eleição anterior.
Doria recebeu 53% dos votos, exatamente o correspondente à
soma dos 31% de Serra com os oito pontos percentuais perdidos por Russomanno e
os 14% que em 2012 quiseram Chalita. Ou seja, não houve diferença significativa
em São Paulo de padrão de voto entre 2012 e 2016.
As primeiras pesquisas desta eleição mostram Guilherme Boulos
empatado em terceiro lugar com Márcio França, em torno de 10% ou um pouco
menos, e o petista Jilmar Tatto misturado com nanicos no piso de 1%. Não é
razoável supor que a esquerda em São Paulo tenha se tornado tão pequena. Há
espaço para Boulos e Tatto crescerem, mas não tanto para ganharem a eleição. A
esquerda pode chegar ao segundo turno, mas terá extrema dificuldade para
ultrapassar a barreira de 30%, porque seus possíveis adversários são menos
rejeitados. Se Boulos ficar à frente de Tatto significará um terremoto na
hegemonia petista em termos nacionais, com impacto em 2020.
Do outro lado, o PSDB deixou de nuclear a direita. Foi
empurrado para o centro, com Bruno Covas, e disputa esta faixa com Márcio
França. Covas tem o dobro nas pesquisas que o candidato do PSB,
aproximadamente, e essa não é a única vantagem que desfruta. “Ele prepondera
nos bairros de renda alta. Enquanto mantiver este nicho, o espaço para
Russomanno está limitado”, opina o economista Mauricio Moura, do Ideia, um dos
institutos que fizeram pesquisa recentemente. Já França padece de um problema
fatal nos dias de hoje: não é forte ou fraco em nenhum segmento específico. Seu
voto se distribui por igual em todas as faixas. “É típico de quem tem só
recall. É uma candidatura por ora sem rosto”, afirmou.
Para ser plenamente competitivo, Russomanno precisaria
emitir acordes dissonantes: sua mensagem teria que entrar tanto no
antibolsonarismo conservador quanto no bolsonarismo. Do contrário, só resta a
ele torcer para chegar ao segundo turno contra um radical, como é o caso de
Boulos. A rejeição a Bolsonaro cresceu muito na cidade. Segundo o Datafolha, a
avaliação ruim da administração federal é de 47%. Só a simpatia dele não é
suficiente. “Para enfrentar Covas, ele precisaria entrar na renda alta. Por
enquanto está fora. Só com o conservadorismo de baixa renda ele não supera”,
disse Moura. Qualquer resultado em São Paulo que não seja a vitória de Covas
enfraquecerá Doria em 2022.
No Rio, por ora, o principal cabo eleitoral de Eduardo Paes
chama-se Marcelo Crivella. Dado o tremendo desgaste eleitoral da classe
política, o ex-prefeito corre risco contra um candidato com uma roupagem de
limpeza política, como pode ser o caso da deputada estadual Marta Rocha (PDT)
ou o deputado federal Luiz Lima (PSL). “Ele depende da rejeição de Crivella
para ser favorito”, diz o economista.
Trata-se de uma ironia: o atual prefeito do Rio também
venceu em 2016 dada a extrema fragilidade de seus oponentes.

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