A montadora alemã Volkswagen vai indenizar ex-funcionários
de sua filial brasileira que foram afetados pela colaboração sistemática da
empresa com a ditadura militar no Brasil. A informação foi divulgada pela
imprensa alemã nesta quarta-feira (23/09).
Segundo o jornal Süddeutsche Zeitung e as
emissoras estatais NDR e SWR, o acordo de compensação será assinado pela
companhia nesta quinta-feira em São Paulo.
Os veículos disseram que a subsidiária brasileira da VW
deverá pagar cerca de R$ 36 milhões em indenizações individuais e coletivas.
Grande parte do valor irá para associações de vítimas formadas por
ex-funcionários e seus familiares. Ao todo, mais de 60 pessoas serão
beneficiadas.
A compensação está relacionada a uma ação movida há cinco
anos contra a empresa em nome de ex-empregados que trabalharam na fábrica da
Volkswagen em São Bernardo do Campo durante a ditadura militar. Com o acordo
indenizatório, a companhia evita uma disputa judicial.
O historiador Christopher Kopper, da Universidade de
Bielefeld, que foi contratado pela empresa para apurar a colaboração da VW com
a ditadura brasileira e elaborou um relatório independente sobre o caso,
afirmou que o acordo desta quinta-feira será histórico.
"Será a primeira vez que uma companhia alemã aceita sua
responsabilidade por violações de direitos humanos contra seus próprios
funcionários por eventos que ocorreram após o fim do nacional-socialismo",
disse o especialista aos veículos alemães.
Em sua reportagem, o Süddeutsche Zeitung aponta
que a decisão é "um sinal importante, justamente porque o presidente
populista de direita Jair Bolsonaro já glorificou a ditadura militar da
época". "Para os trabalhadores da fábrica, significa uma justiça pela
qual eles tiveram que esperar por décadas", completou o jornal.
A colaboração da Volks com a ditadura
Em 2017, uma investigação realizada pelo Ministério Público
Federal (MPF) confirmou que a montadora alemã colaborou de maneira sistemática
e ativa com o regime que governou o Brasil de 1964 a 1985.
Um relatório
de 406 páginas apontou que a filial brasileira da VW espionou os
próprios funcionários com interesse de descobrir opiniões políticas, e
documentou a espionagem por escrito. Essa documentação era enviada ao
Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
"A Volks teve um papel ativo. A montadora não foi
obrigada a isso. Eles fizeram parte porque queriam", escreveu Guaracy
Mingardi, perito que assinou o relatório do MPF.
O documento revelou ainda que o departamento de segurança da
montadora permitiu a prisão de funcionários dentro de suas fábricas, mesmo sem
mandados. Após a detenção, funcionários que eram considerados opositores ao
regime foram torturados durante meses.
O texto acusou a VW de ter observado os funcionários
antes das prisões. "É improvável que a Volkswagen não tenha participado
ativamente dessas investigações", destaca o texto, acrescentando que o
departamento de segurança da montadora teve um papel central na atividade
repressora. Vários ex-soldados foram contratados pela empresa para trabalhar
como seguranças.
Segundo o relatório do MPF, logo após o golpe de 1964 a
filial brasileira da Volks compartilhava da ideologia do regime e, a partir do
fim da década de 1970, tinha interesses comerciais, ao desejar utilizar o
"maquinário repressivo do Estado" para impedir greves.
O documento não abordou quão profundo seria o conhecimento
da sede da montadora, em Wolfsburg, na Alemanha, sobre as atividades da filial
brasileira. Porém, uma análise extensa de documentações, realizada por Kopper,
o historiador contratado pela Volks, sugeriu que a sede tomou conhecimento
desses atos o mais tardar em 1979.
O relatório
do investigador independente foi divulgado pela Volkswagen em dezembro
de 2017, detalhando a colaboração da filial brasileira com o aparato repressivo
do regime militar.
O documento de 114 páginas apontou que a montadora foi
"irrestritamente leal" aos militares e que seu próprio aparato de
segurança patrimonial facilitou a identificação e prisão de funcionários
"subversivos" – sendo ao menos um deles torturado em uma unidade da
empresa.
A filial também demitiu trabalhadores envolvidos com
sindicatos e alimentou e compartilhou com outras empresas "listas
negras" com nomes de funcionários.
O texto, no entanto, diz que não foram encontradas provas de
uma colaboração institucionalizada da montadora com a repressão estatal. De
acordo com o documento, os membros da segurança patrimonial – vários militares
da reserva – agiram por iniciativa própria ao espionar e entregar funcionários
ao regime. Não há documentos que indiquem que a diretoria no Brasil deu ordens
nesse sentido.
EK/afp/rtr/ots/dw

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