Em plena pandemia, o presidente Jair Bolsonaro demitiu dois
ministros da Saúde porque eles insistiram em seguir os protocolos
profissionais. Os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich recusaram-se a
indicar um medicamento contra as evidências científicas e, por isso, tiveram de
deixar a pasta. O presidente Bolsonaro queria um ministro da Saúde obediente às
suas ordens, mesmo que elas afrontassem a ciência e a medicina. Foi assim que
se chegou ao nome de Eduardo Pazuello para o Ministério da Saúde. Tão logo
assumiu a pasta, o general de brigada ampliou, em estrita obediência ao
arbítrio do chefe, o uso de cloroquina em pacientes com covid-19.
Ontem, o presidente Bolsonaro reiterou que, durante seu
mandato, não quer o Ministério da Saúde atuando pela saúde pública. O que ele
deseja – e assim faz valer – é uma pasta incondicionalmente subserviente a suas
idiossincrasias políticas e ideológicas.
Na terça-feira, em reunião virtual com os 27 governadores, o
ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou a assinatura de um protocolo de
intenções para adquirir 46 milhões de doses da vacina Coronavac, desenvolvida
pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Era uma
decisão estritamente técnica, em benefício da população. No momento, a
Coronavac é a vacina em estágio de testes mais avançado, tendo mostrado, até
agora, os melhores índices de segurança. Com um investimento estimado em R$ 1,9
bilhão, a compra até o fim do ano permitiria iniciar a vacinação já em janeiro
de 2021.
Na ocasião, Eduardo Pazuello fez questão de esclarecer
eventual dúvida ou desconfiança sobre a origem da vacina. Segundo o ministro da
Saúde, a “vacina do Butantan será a vacina brasileira”, lembrando que o
imunizante, tendo sido desenvolvido na China, será produzido integralmente no Instituto
Butantan, em São Paulo.
O anúncio do protocolo para a compra dos 46 milhões de doses
era uma excelente notícia para a população. O governo federal, por meio do
Ministério da Saúde, dava sua contribuição para pôr fim à pandemia do novo
coronavírus. A boa notícia, no entanto, durou pouco. Ontem, o presidente
Bolsonaro fez questão de deixar claro que seu governo não trabalha com
parâmetros técnicos e que a saúde da população não é prioridade.
Em resposta ao comentário de um jovem numa rede social – “Presidente,
a China é uma ditadura, não compre essa vacina, por favor” –, Jair Bolsonaro
respondeu que a vacina “não será comprada”. Em outro comentário, o presidente
da República voltou a negar publicamente a informação dada pelo ministro da
Saúde. Diante do pedido de uma internauta para que Eduardo Pazuello fosse
exonerado urgentemente do Ministério da Saúde, porque ele estaria atuando como
cabo eleitoral de João Doria, governador de São Paulo, Jair Bolsonaro disse:
“Não compraremos a vacina da China”.
Assim, Eduardo Pazuello tornou-se, num período de seis
meses, o terceiro ministro da Saúde a ser desmentido publicamente pelo
presidente Bolsonaro, simplesmente por agir de forma coerente com o interesse
público e as evidências médicas. Por respeito ao seu nome e, muito
especialmente, por zelo com a saúde da população, era o caso de o general de
brigada pedir as contas, assim como fizeram Luiz Henrique Mandetta e Nelson
Teich.
No entanto, não foi o que se viu até aqui. Logo após os dois
comentários do presidente Bolsonaro, o secretário executivo do Ministério da
Saúde, Élcio Franco, disse que “houve interpretação equivocada da fala do
ministro da Saúde” sobre a compra de doses da Coronavac e que a pasta não
firmou “qualquer compromisso com o governo do Estado de São Paulo ou com o seu
governador no sentido de aquisições de vacinas contra a covid”.
Mas o presidente Bolsonaro voltou a desmentir ontem mesmo o
Ministério da Saúde, dizendo que mandou “cancelar” o protocolo de intenções
assinado na terça-feira. “Presidente sou eu”, disse, como se a loucura de
impedir o trabalho do Ministério da Saúde pudesse ter alguma similaridade com o
exercício da autoridade. É a ignorância que se faz arbítrio.

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