Bolsonaro sofre desgaste com a Copa América em qualquer cenário, avaliam especialistas
Ao anunciar a realização da Copa América, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro não calculava que daria início a mais uma crise política de seu governo. A realização do torneio colheu reações contrárias de vários setores da sociedade e chegou ao campo de jogo, envolvendo os atletas e o técnico da Seleção Brasileira, Tite — que deram a entender ser um erro a disputa da competição em pleno descontrole da covid-19 no país.
A crise subiu mais um degrau, ontem, com o afastamento por 30 dias do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo, personagem com o qual o Palácio do Planalto mantinha interlocução e contava para que debelasse as resistências dentro do elenco e da comissão técnica. O quadro se desenha como uma derrota para Bolsonaro dentro das quatro linhas — e no momento em que o país soma 473.404 mortos pela pandemia, segundo números coletados pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).
Para analistas políticos, Bolsonaro fez uma aposta alta em bancar a Copa América. Professor de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Geraldo Tadeu afirma que o afastamento de Caboclo piora muito a situação do presidente. Para ele, a mudança nesse momento pode significar que Tite seja mantido como técnico da Seleção — o que desagrada o Planalto e os bolsonaristas, que fazem campanha para que Renato Gaúcho ocupe o posto.
Jogo de perde-perde
Segundo Tadeu, o presidente mirou na vinda da competição para ajudar a desviar o foco dos problemas que vem enfrentando, como a CPI da Covid. “Não tem pão, vamos dar circo. Essa aposta foi feita de forma atabalhoada. Achou que todo mundo ia apoiar a ideia, só que se deparou com uma oposição importante. Se não for realizado (o torneio), é desgaste. Se for, também. O custo político é alto em todos os sentidos”, afirma.
Mesmo que a Seleção não se negue a jogar — sobretudo se um novo técnico assumir e convocar jogadores que substituam aqueles que não aceitarem participar da competição —, o presidente deve enfrentar protestos, ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e críticas internacionais, segundo Tadeu. Ele avalia que uma rebelião dos atletas faz com que o cenário da pandemia no país não seja visto como mera oposição ao governo, mas “passe a ser uma questão popular, de grande repercussão”. “Bolsonaro tentou uma cartada muito alta, em um momento de queda de popularidade. Provavelmente, não contava com a oposição dos jogadores”, salienta.
Tadeu observa, ainda, que o boicote de jogadores e atual comissão técnica à Copa América se refletirá na cadeia política de bolsonaristas ligados a clubes e federações de futebol, eficientes instrumentos de influência política e eleitoral.
O analista político André Pereira César endossa a impressão de que a corrosão de Bolsonaro vem crescendo exponencialmente. Observa que utilizar um dos pilares da cultura brasileira e esporte mais popular do país, para tirar o foco da agenda negativa, tem sempre grandes chances de dar errado — sobretudo porque há precedentes históricos (leia abaixo).
Bases mobilizadas
As bases do presidente acusaram o golpe. Alguns dos seus principais porta-vozes se movimentaram para tentar reverter o placar da deterioração, mobilizando as redes sociais contra o técnico Tite — eleito pelos bolsonaristas o culpado pela crise. Ontem, o senador Flávio Bolsonaro (Patriotas-RJ) publicou um vídeo chamando o treinador de “hipócrita” e “puxa-saco” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Faço um apelo especial aos jogadores da Seleção. Não se deixem ser usados num momento como esse”.https://www.dailymotion.com/embed/video/x81sjz4?autoplay=1
Cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Adriano Oliveira frisa que o presidente perde em qualquer cenário, seja com a realização ou não dos jogos. “O presidente não entendeu que é um jogo que ele não sairá vencedor”, afirma.
Analista político do portal Inteligência Política, Melillo Dinis diz que, com a eventual negativa da Seleção, o presidente vê sua influência se reduzir “nesse espaço social importante que é o futebol”. Para ele, o custo político aumenta com a saída de Caboclo do comando da CBF.
“O presidente escala o ministério dele que eu escalo meu time”. A suposta reação de João Saldanha, então técnico da Seleção Brasileira no período que precedeu a Copa do Mundo, em 1970, à pressão para que convocasse o atacante Dario — o Dadá Maravilha — para agradar o então presidente da República Emílio Garrastazu Médici, é somente a constatação do fato de que os atores políticos sempre compararam a seleção a uma substância potente o suficiente para remover as manchas históricas dos governos.
A resposta do gaúcho Saldanha, comunista confesso, irritadiço e dado a aumentar episódios que o envolviam, carece de confirmação, mas, por ser ferina e se adaptar à imagem do “João Sem Medo” que construiu de si mesmo, tornou-se uma quase verdade nos contextos do futebol e da política. Mesmo porque, por coincidência ou não, assim que Mario Jorge Lobo Zagallo assumiu o comando da seleção, convocou Dario e o levou ao México.
Médici não é lembrado apenas por estar à frente do governo num dos períodos mais brutais do país, em plena vigência do Ato Institucional nº 5, mas, também, por frequentar a tribuna de honra do Maracanã nos jogos do Flamengo — apesar de, gaúcho que era, ser Grêmio em Porto Alegre. A imagem dele com o radinho de pilha grudado ao ouvido foi meticulosamente construída para torná-lo popular e moldar uma aparência gentil, em contraste ao temor que exalava por ter sido, pouco tempo antes, diretor do sinistro e onipresente Serviço Nacional de Informações (SNI).
Dessa época, uma frase emerge para definir a associação do futebol com a política, sempre que foi necessário lustrar a imagem do regime e aprofundar a influência do Palácio do Planalto nos estados: “Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional”. Arena era a legenda de apoio ao governo, no sistema bipartidário de oposição consentida ao MDB. Nacional era o Campeonato Brasileiro, que chegou a ter 94 clubes disputando a edição de 1979 — quando o almirante Heleno Nunes era o presidente da então Confederação Brasileira de Desportos.
Nenhum interesse dos aliados do regime ficava ao desamparo na CBD. Além de inchar a principal competição de futebol do país, a entidade fazia presidentes de federações estaduais, dirigentes de clubes nas capitais e no interior e, sobretudo, interferia na Seleção. Para a Copa de 1978, numa Argentina que desde 1976 vivia sob ditadura militar, promoveu a troca do técnico Osvaldo Brandão pelo capitão do Exército Cláudio Coutinho num episódio até hoje mal explicado. Uns atribuem a saída do gaúcho Brandão apenas ao 0 x 0 com a então fraca Colômbia, em Bogotá, em 20 de fevereiro de 1977 — no jogo da volta, no Maracanã, o Brasil goleou por 6 x 0, em 9 de março. Outros dizem que o empate foi apenas um pretexto para colocar, à frente da Seleção, um militar cantado em verso e prosa pela maior torcida do país, a do Flamengo, time que treinava e no qual implantara um moderno sistema de jogo.
Coutinho entrou para a história da Seleção também como aquele que disse ter sido o Brasil o “campeão moral” da Copa da Argentina — terminou em 3º lugar, depois que os donos da casa foram à final ao golearem o Peru por 6 x 0, num jogo de resultado suspeito. O general Jorge Rafael Videla entregou a taça Fifa aos seus compatriotas, que derrotaram a Holanda, e tocava um regime cuja repressão aumentava exponencialmente. No Rio, os jogadores brasileiros desembarcavam sob a presidência de Ernesto Geisel, que promovia a abertura “lenta, gradual e irrestrita”.

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