sexta-feira, 29 de setembro de 2023

BANCO CENTRAL VÊ OCIOSIDADE MENOR NA ECONOMIA

Editorial Valor Econômico

A economia está perto de atingir a plena utilização de sua capacidade produtiva e aumentos maiores da oferta podem começar a provocar pressões sobre os preços

O Relatório de Inflação de setembro do Banco Central confirmou os prognósticos de que as condições para a queda da inflação se tornaram ligeiramente piores do que eram. No cenário externo, há riscos tanto de elevação de preços de commodities quanto de valorização do dólar. No cenário doméstico, a capacidade ociosa da economia é hoje razoavelmente menor do que a estimada no relatório anterior, concluído em junho.

A alta do dólar, em função do aumento das taxas de longo prazo dos títulos dos Estados Unidos e do diferencial de crescimento entre a economia americana e o resto do mundo, elevou as projeções de inflação. A essa pressão foram incluídos os efeitos ainda mitigados do El Niño sobre os alimentos. Como resultado, a perspectiva para os preços livres no IPCA caiu de 3,7% para 3,2% em 2023, mas a dos preços administrados se elevou de 9% para 10,5%. Nos relatórios anteriores, a evolução dos administrados era cadente, e agora deu um salto. Em consequência, cresceu a probabilidade de que o BC não atinja a meta de inflação de 4,5% no próximo ano - era de 21% no documento de junho e subiu para 24% em setembro.

A comparação dos elementos que influenciaram a revisão das projeções de inflação entre junho e setembro dá uma ideia das preocupações do BC. Os principais fatores altistas apontados são a “forte subida do preço do petróleo e indicadores de atividade econômica mais fortes do que o esperado”. Para baixo, a queda das expectativas de inflação e do próprio IPCA. Saíram de cena, a partir de junho, como fatores que ajudavam o BC a derrubar os preços, a apreciação cambial, a queda no preço do petróleo e a utilização da bandeira verde em vez de amarela no reajuste dos preços da energia elétrica (incorporada também ao cenário atual).

As condições financeiras, por outro lado, pioraram em agosto e setembro, o que não ocorrera até julho. As principais diferenças para isso foram os saltos nas cotações do petróleo e nas taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos, além da queda na bolsa doméstica. O Banco Central fez uma reavaliação importante do grau de ociosidade da economia, e a conclusão é a de que ele é menor do que se estimava. O hiato do produto, jargão técnico para designar se a economia está crescendo acima ou abaixo do que poderia crescer, diminuiu. Essa defasagem, que foi estimada em -1,2% e -1,4% nos segundo e terceiro trimestres do ano, encolheu para -0,7%. Isso significa que a economia está perto de atingir a plena utilização de sua capacidade produtiva e que aumentos maiores da oferta podem começar a provocar pressões sobre os preços. “Indicadores de atividades mais fortes do que o esperado, em especial o PIB do segundo trimestre e a taxa de desocupação, e revisão das projeções de curto prazo desses indicadores contribuíram para a estimativa de um hiato mais fechado realizada”.

Um dos elementos que entram nessa equação é o comportamento dos salários. Segundo o relatório, de janeiro a agosto, cerca de 55% dos reajustes superaram a inflação, em comparação com 33% no mesmo período de 2022. No entanto, como registra a ata do Copom, não há ainda pressões determinantes dos salários sobre a inflação. Eles estão apenas recuperando perdas relevantes diante dos altos índices de inflação do passado.

A trajetória da Selic projetada pelo relatório indica juros altos por um bom tempo, o que é compatível com um ritmo modesto de queda da taxa Selic e com as incertezas e riscos sobre o comportamento da inflação, com as expectativas ainda parcialmente desancoradas. O pico dos juros ocorreu no último trimestre de 2022, com uma taxa real alta de 7,8%, que persistiu ao longo de todo o primeiro semestre deste ano (7,7%). Ela recuou a 6,9% neste terceiro trimestre e encerrará o ano em 6,3%. Chegará perto da taxa neutra de juros (a que não estimula nem contrai as atividades econômicas) ao fim de 2025 e 2026, com 4,8%, ou seja, em um nível ainda suavemente contracionista.

A situação das contas públicas segue como pano de fundo desfavorável à convergência das expectativas inflacionárias dos agentes de mercado em direção às metas de inflação. Como indicou a ata do Copom, as desconfianças em relação à atitude fiscal do governo Lula eram bastante altas logo após a posse até a apresentação do novo regime fiscal. Cederam um pouco depois, já que os investidores viram como positiva a tentativa de colocar algum freio nas despesas - não esperavam nenhum -, mas começaram a piorar novamente diante da perspectiva de que, ao depender excessivamente do aumento das receitas, as metas não seriam factíveis. Ainda não se sabe qual a influência da proposta feita pelo governo sobre o pagamento integral do estoque de precatórios (R$ 95 bilhões) como crédito suplementar (fora do teto de gastos), com mudança na contabilidade desses gastos, separando o principal da dívida dos encargos de juros, que seriam apartados como despesas financeiras. Boa parte dos investidores classificou a mudança negativamente como “contabilidade criativa”.

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