sexta-feira, 29 de setembro de 2023

EMPOBRECIMENTO DA ARGENTINA ABRE CAMINHO A POPULISMO NA ELEIÇÃO

Editorial O Globo

O ultradireitista Milei defende o fim dos programas sociais, e o peronista Massa amplia medidas eleitoreiras

Quatro em dez argentinos vivem abaixo da linha da pobreza, sem recursos suficientes para consumir uma cesta de produtos e serviços básicos, revelou o Indec, instituto de estatística do governo. O grupo engloba os indigentes, que chegam a 9,3% da população. Os dados, divulgados a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, traduzem o tamanho da crise social na Argentina. Com exceção do período da pandemia, é a pior situação desde pelo menos 2004 — evidência eloquente da incompetência dos governantes nas últimas duas décadas. É nesse contexto que ganham tração as propostas irreais do candidato populista de ultradireita Javier Milei.

Acostumada a crises periódicas, a Argentina vive um período agudo de desarranjo econômico, com inflação anual superior a 120%, índice mais alto entre todas as economias do G20. Como em toda crise inflacionária, os mais pobres são os mais vulneráveis. A renda não acompanha a escalada de preços, e mais gente cai abaixo das linhas da pobreza e da miséria.

Milei defende a dolarização da economia num país em que faltam dólares, a eliminação do Banco Central numa economia com inflação galopante e o fim dos programas sociais mesmo com o avanço da pobreza. Para aumentar sua chance de enfrentá-lo no segundo turno, o ministro da Economia e candidato peronista à Casa Rosada, Sergio Massa, tem adotado políticas de cunho meramente eleitoreiro. Entre as medidas recentes estão bonificações para aposentados e funcionários públicos, linhas de crédito subsidiado, devolução de impostos e tentativas para aliviar a escassez de dólares. Nesta semana, o país ganhou mais uma cotação da moeda americana — já são 15. Dirigida a empresas de petróleo e gás, foi apelidada de Vaca Muerta, referência ao polo de exploração na Patagônia.

A Argentina viveu ciclos impressionantes de inclusão social entre 1880 e 1930 e logo depois da Segunda Guerra Mundial. O primeiro foi impulsionado pelas exportações do agronegócio. O segundo pela industrialização. O surgimento de uma classe média numerosa, com acesso à educação e poder de consumo, era descrito como “exceção argentina” numa América Latina marcada pela pobreza. Em 1960, apenas 5% dos lares argentinos eram considerados pobres, ante 50% no continente.

De lá para cá, o país de classe média empobreceu. Com um agravante: a ideia de riqueza despegada da realidade se consolidou como barreira para que a Argentina encarasse os sacrifícios necessários a retomar o crescimento de forma sustentada. As sucessivas crises funcionaram como máquinas de geração de pobreza. Desde o início do século, o percentual de pobres tem caído na América Latina. A Argentina é de novo uma exceção, desta vez negativa. Com as propostas dos que lideram as pesquisas de opinião, é difícil acreditar que sairá do impasse.

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